Chapitre IV. Modélisation d’un agent dialogique pour Cogni-CISMeF
IV.6. Modèle du dialogue
IV.6.4. Gestion des stratégies de dialogues
Elementos enquadradores
José é um menino de 6 anos, baixinho, olhos azuis bem abertos a atentos. Nasceu a 8 de outubro de 2007, no bairro cigano das “Hortinhas”, quando os seus pais tinham 16 anos. É o mais velho de três irmãos, vive com o pai e a mãe, mas a avó e os tios tomam conta dele e dos irmãos mais pequenos quando a mãe não está.
Os pais estão ambos desempregados, recebem o Rendimento Social de Inserção. Ambos sabem assinar, a mãe sabe ler alguma coisa, mas não tem habilitações.
-“Sou doméstica e estou desempregada (…) Eu e o meu marido estamos desempregados e o dinheiro que recebemos é tão pouco, depressa ficamos sem dinheiro e com três gaiatos.” (F2-18)
-“Eu andei na escola (…) Sei ler e escrever alguma coisa, assinar e ler alguma coisa.” (F2-19)
Quando falámos com o pai sobre a entrevista, de imediato autorizou que a fizéssemos ao José e combinou nesse mesmo dia à tarde falar connosco, o que não aconteceu, nem nesse dia nem nos dias próximos, e foi já no final do 2º período que conseguimos falar com a mãe do José, que segundo as suas afirmações já sabia da nossa presença na escola e que foi ela que disse ao marido que seria ela a falar connosco. No dia da entrevista a mãe do José trazia ao colo o filho Francisco de 13 meses que durante a entrevista sempre que manifestava desconforto, a mãe dava- lhe de mamar, e assim fomos conversando calmamente sempre com uns olhitos do Francisco atentos em nós.
O José foi bastante recetivo a conversar connosco. Dirigimo-nos a ele no recreio onde brincava com várias crianças que logo nos rodearam. Acedeu de imediato a ir connosco, e ao ouvi-lo verificámos que é um menino determinado que sabe bem o que quer.
Os pais inscreveram-no aos 3 anos no JI, ele soube pelo pai.
-“O meu pai disse-me assim, filho tu vais para a escola. (…) Chamaram-me para a escola, o meu pai deu o meu nome José.” (A2.5)
A mãe refere que o inscreveu a propósito do acordo que anualmente fazem com a Segurança Social:
Todos os anos fazemos um acordo no Rendimento Social de Inserção e disseram- me que eu tinha que começar a habituar o Zé à escola e ele tinha que ir para o Jardim de Infância e como soube que aqui no C… havia um Jardim de Infância optei por o pôr aqui porque também estavam aqui os meus cunhados (…) como são maiores ele vinha ia-se habituando e não chorava. (F2-1)
A última parte das afirmações da mãe do José remonta-nos novamente para a responsabilidade de os mais velhos protegerem os mais novos. A função educativa da família, exerce-se em qualquer momento ou situação da vida da criança cigana, no sentido da manutenção e coesão do grupo. Na escola, longe dos olhares e supervisão dos pais, são os outros familiares mais chegados e mais velhos, como, irmãos, tios ou primos que tomam essa função educativa nas suas mãos. Vimos isso no caso da Daniela de 5 anos que cuidava do seu irmão de 3, no JI, e a irmã mais velha de 10 que frequentava a mesma escola, tomava conta dela. Neste caso do José são os tios que também estão na mesma escola, que tomam conta dele. Curiosamente durante o estudo percebemos que a Maria, a Maria do nosso estudo, é nem mais nem menos que tia do José, tem apenas mais um ano que ele, cabendo também a ela a supervisão do José.
A Integração no Jardim de Infância e no 1º CEB
Em setembro de 2010, entrou no JI, o José ainda não tinha 3 anos, era um bebé, segundo a cultua cigana (ver capítulo 1, p…) A atitude e comportamento dele surpreendeu os pais, não chorou e ficou bem:
Ele no primeiro dia adorou, não chorou, e nós ficámos estúpidos, porque gostava, ele tinha 2 ou 3 anos, ele adorou veio no 1º dia não chorou nada, tudo bem, no 2º dia também, no 3º dia já chorou um bocadinho mas logo que ele se habituou foi lindamente ele gostou muito de estar no JI (…)Sentia-se bem (…) queria vir.(F2-2)
A mãe ficou surpreendida com a reação do José ao entrar no Jardim de Infância, mas nos dias em que ele chorou, ela ficou preocupada
-“Custa muito os primeiros dias que eles vêm à escola e começam a chorar, custa muito a separação como mãe.” (F2-25)
E1 refere que o José no início era uma das crianças que reagia com alguma agressividade, desconfiança.
- “ …Reagiram com choros, desconfiança e agressividade. (…) Empurravam, batiam, davam pontapés, mordiam, gritavam e utilizavam vocabulário desadequado/desagradável a princípio.” (E1-5)
Mas o José gostava de vir ao JI para aprender, e ainda continua a gostar de lá ir brincar, para ver a A… e a Cristina… (animadora e assistente).
“Queria vir para a escola [JI] que é melhor para aprender.” (A2.6)
-“Venho às vezes entro aqui [no JI]. Um dia ao almoço “almoçi” e fui para lá, elas me deixaram brincar, brinquei um bocadinho e logo fui embora.” (A2.35)
No que respeita a atitude que o José teve ao entrar no 1º CEB ele diz que não chorou, foi bom e estava curioso em conhecer a professora de 1º CEB
Eu sabia que a escola era muito bom para aprender a ler. Quando cheguei eu fui ver qual era a professora e logo disse como chama a professora. É a professora N…, eu não a conhecia e logo eu fiquei a conhecer (A2.34)
A mãe confirma:
– “Sim ele adorou (…) Já não chorou. (F2-16)
Mas, tal como aconteceu com o JI a mãe estava preocupada com a sua entrada na escola: Sim tinha medo que ele não se habituasse, porque ia ser diferente e isso, mas não,
ele gostou e sente-se bem e logo a gente também diz,- ó Zé tens que trabalhar bem para teres uma profissão e ele diz que sim. (F2-22)
O medo manifestado por esta mãe, remete-nos para Enguita (1996):
Do lado dos ciganos, e por muito convencidos que alguns possam estar de que os seus filhos devem sair do buraco em que eles se encontram, e de que
a educação é avia para o fazer, a escolarização não deixa de ser uma forma de separação forçada que produz medo e rejeição.” (p.17)
No que respeita ao comportamento do José no 1º CEB a professora refere que ele tal como as outras crianças que frequentaram a EPE, já tinha algumas regras no que respeita a estar sentado, pegar num lápis, numa tesoura. Mas o José tem dificuldade em obedecer aos adultos:
(…) São muito difíceis a nível do comportamento, sobretudo o José. Está sempre a desafiar a autoridade da professora. Quando é contrariado é mal- educado. (P1-34)
Em relação aos 3 alunos em estudo, noto que o José é o único que tem vindo a piorar o seu comportamento. Um dia destes ficou de castigo ao intervalo da tarde e o pai no dia seguinte foi logo lá dizer que eu não podia fazer isso e a partir desse dia notei que o seu comportamento tem vinda a piorar. Está mais “arruaceiro”, comigo e com quem trabalha com ele. (P1-35)
Este comportamento do José é característica de um rapaz cigano da sua idade, segundo Enguita (1999), ele é educado para que desde cedo mostre valor e agressividade, pois é assim que demonstra a sua valentia e masculinidade. Por outro lado, como já referimos no capítulo 1, o facto de no seio da etnia, haver uma hierarquia de sexos e idade, em que os rapazes podem dar ordens às irmãs mais velhas e os filhos adultos às mães, “as professoras podem chegar a ter relacionamento difícil com rapazes” (Enguita, 1999, p.11), tanto mais que este comportamento do José, surgiu após a intervenção do pai junto da professora, o que parece ter levado o José a sentir a segurança necessária que lhe permitiu ter estas atitudes, que Casa-Nova (2005) refere como “…uma certa segurança para a ação, perspetivada frequentemente como “arrogância” pela sociedade maioritária.” (p.212)
No que respeita aos interesses e motivações do José, desenvolviam-se no JI em torno da garagem e dos carros, e ele refere várias vezes que brincava e comia com a Maria (tia) e estavam sempre juntos:
Brincava com os carrinhos com a Maria o Elias também andava aqui e eu brincava com ele (…) Cheguei, o Elias [primo], ainda não estava aqui, a Maria estava comigo e eu brinquei com a Maria, brincámos, brincámos e logo fiquei grande, brincámos, brincámos, e comíamos juntos e almoçávamos juntos e tudo, e gostava de brincar. (A2.1)
Gostava de brincar e só queria trabalhar.” (A2.3)
Em casa, ele falava de tudo o que fazia, segundo nos diz a mãe:
- “Sim, contava a toda a gente, que fazia ginástica, dançavam dentro da sala, pintava com as mãos, ele contava tudo à gente.” (F2-3)
- “Ele gostava muito de ouvir histórias e brincar com os carrinhos ele dizia gosto muito de ouvir as histórias que a professora conta.” (F2-12)
Mas também segundo E1, tinham uma grande necessidade de estar na rua, apesar de mostrarem curiosidade e interesses nas atividades.
-“Tinham uma grande necessidade de estar na rua, pelo que estar no recreio era o seu momento preferido. Relativamente às atividades revelavam curiosidade e interesse.” (E1-3)
A atitude dos pais que o incentivam ao trabalho, reflete-se nas palavras do José quando fala da escola de 1º CEB, do gosto por trabalhar e fazer as fichas com a professora dele e com a professora de apoio:
Gosto de pintar gosto de escrever e de copiar (…) Não gosto de pintar sempre no mesmo sítio, só sempre dentro do risco. (…) Só gosto quando a professora me deu uma ficha e pintei por cima, logo “viri” e montes de coisas, copiei todas, todas, todas, e o Raul não copiou. (…) Eu tenho uma ficha e logo de manhã leva-me a professora N… e faço-a logo, não custa (A2.14)
A mãe confirma esta motivação que ele tem em vir para a escola e aprender: -“Ele quer vir à escola e ele diz que quer aprender e quer ler.” (F2-17) -“Ele gosta de fazer os trabalhos, de brincar com os colegas.” (F2-20)
Segundo a professora de 1º CEB o José é a criança, das 3 em estudo que tem mais capacidades de aprendizagem.
- “ O José é desconfiado, muito mal-educado mas é o que demonstra mais capacidade.” (P1-25)
Nesta afirmação inferimos que esta capacidade se refere aos conteúdos do currículo escolar, apresentando no entanto comportamentos de cansaço.
-“Passa o tempo a dizer que está cansado e todas as fichas dão muito trabalho.” (P1-16) O José considera que fez aprendizagens, enquanto frequentou o JI
-“Trabalhava fazia desenhos fazia coisas.” (A2.2) -“Aprendi (…) Aprendi a brincar e letras.” (A2.8)
Quando questionado sobre o que aprendeu no 1º CEB ele faz um silêncio e acena afirmativamente com a cabeça, quando lhe perguntamos se aprendeu, letras, a escrever o nome, e acena negativamente quando lhe perguntamos se já sabe ler. Manifesta um ar de preocupação e desvia o olhar, porque aprender a ler é mesmo o que ele quer como vimos atrás, nas suas afirmações, mas também porque o José tem um objetivo para vir à escola, que é ler, trabalhar, estudar para tirar a carta de condução.
-“Vou sempre fazendo trabalhos, vou conseguir ler e logo leio e fico grande e logo leio tiro a carta e logo me chama e vou para a polícia, quero estudar, estudar, estudar.” (A2.31)
Esta motivação é uma mais-valia, para a qual os profissionais têm que estar atentos, existe um objetivo de vida nesta criança, um propósito que é necessariamente facilitador da aprendizagem. Este propósito pode-se dizer que a etnia cigana, tem uma visão utilitária da formação escolar.
A passagem pela escola-instituição visa adquirir o essencial ao nível das competências básicas exigidas pela organização social mais vasta – trata-se essencialmente de (…) aceder à carta de condução (…) e aos documentos essenciais à vivência em sociedade, bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão de eleitor entre outros. (Mendes, 2005, p.111)
No que respeita às regras e rotinas, E2 refere que o José, assim como outras crianças faziam birras, mas com entendimento e contratualização iam aceitando regras e a rotina ia sendo estabelecida.
O José a Maria faziam birra, metiam-se debaixo das mesas, voavam cadeiras, mas levavam um abanãozinho e acalmavam, tem que ser assim não vão lá só com conversa. Reagiam lindamente às regras, quando eu dizia: -agora vamos fazer assim, eles diziam:- Ai não me apetece. – Então, queres ir brincar? – Quero. – Então, vamos lá fazer isto num instante. - Eu não tenho lápis. - Então vá lá buscar, isto é muito giro e levas para o pai ver. (E2-57)
Estes comportamentos na altura do cumprimento de rotinas, parecem estar associadas a propostas de atividades que partem da educadora, às quais as crianças podem não atribuir um significado ou interesse. Contudo, como refere E2 eles acabam por aderir e executar.
Nas refeições o José era um pouco problemático, para além de não querer comer, não tinha os mesmos hábitos de comportamento à mesa:
Tudo era diferente para estas crianças. Não detinham quaisquer hábitos de higiene e os seus hábitos de alimentação eram fora do padrão. (…) Refiro-me à forma de comer, não utilizavam talheres, guardanapos, não sabiam estar à mesa… e também não estavam habituados à comida confecionada no Jardim de Infância como sopas por exemplo. O José não comia nada (E1-2).
No 1º CEB a professora diz-nos sobre o José o mesmo do que para as outras crianças de etnia cigana:
Estas crianças têm alguma dificuldade em obedecer aos adultos e em cumprir as regras estabelecidas. (P1-31).
O José e a Maria, tal como outros destroem grande parte dos materiais que possuem e outros que a escola lhe faculta. Alguns deles não apresentaram, até hoje, qualquer tipo de material escolar necessário para o desenvolvimento das atividades escolares.” (P1-25)
Sobre este assunto já E2, refere que resolveu os estragos dos materiais, envolvendo as crianças no concerto das coisas que estragavam, e com outras estratégias para melhor chegar às crianças e às suas necessidades.
Mesmo os jogos (…) comigo quem estraga arranja, quantas lombadas de livros eles não colaram, mas podemos mexer sim com uma condição, ninguém estraga, não há brigas. Os carimbos, quando os descobriram gastaram muitas folhas, arranjei um caderno para cada um e os desenhos livres faziam nos cadernos. Havia regras. (E2- 29)
No que respeita ainda aos aspetos de integração E1 e E2 consideram que foi determinante uma relação pedagógica em que houve confiança, afeto e carinho, que se foi construindo gradualmente e um tratamento igual para todos sem descriminação. A falta de autoconfiança e autoestima era uma realidade, era necessário a todo o momento uma atitude de atenção e valorização por parte do adulto.
A linguagem do amor, o carinho, a compreensão e aceitação da diferença por parte dos adultos e das outras crianças trouxe à tona o seu lado sensível e meigo, caindo por terra a máscara de “selvagens” com que tanto são rotuladas. Ao fim de algum tempo ir para o Jardim de Infância deixou de ser uma tortura e passou a ser uma experiência agradável para a maioria das crianças.” (E1-9).
Eles são tão sensíveis necessitam de tanta atenção e carinho. Eu lembro-me de quando o José me deu abraço e eu até tremi porque ele estava cheio de piolhos mas teve que ser porque foi ele que se dirigiu a mim e estava carente eu não sou de mimos mas percebo quando eles precisam dum mimo, dum carinho. (E2-48)
Na sua prática educativa as educadoras e professora depararam-se com dificuldades e
facilidades, mas as crianças ciganas ao entrarem no mundo de regras e valores, e no sistema
educativo da cultura dominante depararam-se também com grandes dificuldades. A maior das facilidades era a sua recetividade a tudo, assim como o interesse por tudo o que era novo, que é manifestado principalmente por E1 e E2.
- “Como qualquer criança a novidade era também fator de interesse e motivação e isso foi ainda mais marcante quando comparado com as outras crianças.” (E1-8)
- “Muita recetividade por tudo.” (E2-13)
No que respeita a dificuldades, E1 refere que não foram só os profissionais a ter dificuldades, mas principalmente as crianças que entraram pela primeira vez, tal como o José, pelo desconhecimento que tinham sobre esta nova realidade.
A principal dificuldade [por parte das crianças] foi encontrarem no Jardim de Infância uma realidade que desconheciam completamente, e isso assustava-as. Só o facto de no grupo existirem algumas crianças do mesmo bairro ajudou um pouco. Para o José era muito importante a presença da Maria, visto ser sua parente próxima (tia). (E1-7)
E2 e P1 referem as suas próprias dificuldades enquanto profissionais.
Por vezes custava-me sair do JI com aquela música cigana na cabeça e vinha todo o caminho com aquela batida na cabeça, mas era só assim que eu conseguia trabalhar, ninguém fazia nada deles, nem a C…, e depois é a paciência, porque eles são pica miolos são exaustivos. (E2-20)
É preciso dizer que a turma é composta por 26 alunos, sendo 10 de etnia cigana (…) Fiquei apreensiva pelo elevado número de alunos. Quando temos 2 ou 3 é mais fácil de trabalhar com eles, não sentem tanta força, são mais obedientes. (P1-1)
A professora de 1ºCEB realça como dificuldade o facto de a turma ter um grande número de alunos de etnia, associando a este facto uma maior desobediência, porque sendo em maior número sentem “segurança para a ação” ideia de Casa-Nova (2005) já referida anteriormente. É essa desigualdade, essa diferença que deve ser encarada como oportunidade ou recurso e não como ameaça na ideia de Vasconcelos (2009).
Face a estas dificuldades os docentes apostaram em planificar segundo os interesses e proporcionando atividades, situações e materiais que mais os motivavam.
A Maria e o José preferiam brincar juntos e com jogos e carros. Ambos preferiam atividades livres e menos atividades dirigidas, embora ao longo do ano a sua curiosidade fosse aumentando e os seus interesses mudando um pouco. [Como foi conseguido] Planifiquei atividades lúdicas e apelativas (E1-12)
Dizer que levava uma planificação até ao fim é mentira, ninguém leva, é só para estar escrito (…) eu tenho organizado, mas eu não vou estar a pensar numa coisa chegar lá expor o tema e não haver feedback da outra parte. Faço o quê? só para ter um dossier todo bonitinho, eu tenho que apanhar deles. O que é que vocês gostavam de fazer, brincar, dizia o José. Mas tirando o brincar digam lá uma coisa gira, pinturas, isto e aquilo e o outro, havia coisas tão interessantes. (E2-22)
Lembro-me que fizemos um trabalho que nem sequer estava planificado sobre a lua e as fases da lua, tão giro, eu dizia:” agora à noite quando estiverem lá em casa poem-se à janela a ver” e lembro-me que os ciganos diziam: “ nós não temos janelas” e eu disse: “ não faz mal abrem as portas vêm cá fora e vêm a lua e as estrelas”. E surgiram coisas muito giras, a habitação, a sanita, eles explicarem como era como dormiam, eles dormem todos juntos, falámos sobre o casamento, conversávamos muito, eu passava horas nas almofadas. Eu precisava que eles falassem e se interessassem pelo meu trabalho. (E2-23)
Tenho recorrido aos jogos e ao computador, fichas feitas de acordo com o seu nível e mais não consigo. (P1-28)
Nesta subcategoria de facilidades e dificuldades, os docentes debatem-se diariamente com outras situações que constituem, segundo P1, constrangimentos à integração das crianças ciganas na escola. Por um lado o espaço da sala, não permitir organizar áreas específicas de trabalho diferenciando propostas educativas
-“A área da sala e o número de alunos não permitem uma organização com áreas de trabalho específicas.” (P1-5)
Por outro lado a higiene e os roubos. Tanto o José como a Maria eram crianças que, entre outras, estavam envolvidas com estas problemáticas daí que P1 refere que para além das regras, é também importante trabalhar as questões de higiene:
A minha prioridade é trabalhar regras de convivência, socialização, nomeadamente com o José e a Maria É também importante saberem aceitar e aplicar regras, por exemplo de higiene. (P1-27)
O facto destes alunos se apresentarem na escola com défice de higiene, causa alguns constrangimentos na sua integração plena e na aceitação por parte dos seus pares. (P1-50)
Inicialmente, houve muitos roubos. Passei a sair da sala, depois de todos terem saído. Os roubos têm diminuído ao longo do ano, no entanto de vez em quando lá desaparece qualquer coisa, CD, livros, jogos, bolas (…) Sobretudo material escolar e brinquedos que os outros levam para a escola. (P1-52)
[Os alunos em estudo] Sim, no início tinha de andar sempre a ver as bolsas deles.
(P1-53)
Sobre a problemática da higiene E2 não situa o problema em nenhuma criança específica, refere genericamente o seguinte:
Sobre o banho falava com os pais para tomarem banho pelo menos 2 vezes por semana (E2-37)
(…) E os piolhos, eles acham que não têm piolhos, eu não estou a dizer que são eles que trazem os piolhos. Eles sentem que são sempre eles os culpados. “É para precaver vão à farmácia e compre o champô e se não quiserem pôr, tragam cá para a escola que nós fazemos isso”. (E2-38)
Quantos banhos nós demos (…) depois percebi que as crianças se lavam com água fria, eu assim também não tomava. No Verão montávamos a piscina amarela e eles tomavam banho. (E2-39)
(…) Havia dias em que chegava a casa tinha que tomar banho porque o cheiro ficava entranhado em mim, ficou-me o hábito de tomar banho todos os dias antes de me deitar.(E2-36)
No que respeita às opções metodológicas neste caso, coincide com os outros casos em estudo.
Intercalar alunos de etnia e não etnia no sentido de melhorar a relação, o conhecimento