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Dans le document PLAN MUNICIPAL DE SÉCURITÉ CIVILE (Page 70-75)

O trabalho historiográfico requer meios para se atingir o objeto de conhecimento. Assim, as fontes históricas são ferramentas indispensáveis para compor a escrita da História onde quer que seja o espaço e tempo pesquisado. Hoje, concebemos as fontes/ou documentos como “qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente,

20 Ver: SAVAGE, Mike. Classe e História do Trabalho. In: BATALHA, Claudio H. M.; FORTES, Alexandre; SILVA, Fernando Teixeira da. Culturas de Classe... op. cit. pp. 25-48. Onde o autor evidencia as instâncias do tempo e do espaço como fundamentais para entendermos o objeto de estudo.

21 Cabe lembrar que depreendemos que há um agenciar na obra de E. P. Thompson cujo significado advém da interpretação acerca de seus trabalhos, pois a expressão agenciar humano não se encontra desta forma pronta e acabada nos seus livros.

22 Ver: E. P. Thomson. A Miséria da Teoria..., op.cit. p. 182. O autor, em um dos seus acertos de conta com Louis Althusser, mostra a não existência de uma autonomia plena dos sujeitos históricos.

analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a subjetividade pretérita.” (KARNAL; TATSCH, 2012, p. 24.) Portanto, todo vestígio humano deixado ao longo do tempo: escritos, visuais, orais e da cultura material.

Partimos da premissa de que a cidade de Areia e seu entorno - haja vista pensarmos este espaço em contato permanente com o mundo rural - esteve concatenada, em boa parte da sua história, com o regime escravocrata. E as próprias fontes informam sobre este vínculo do agrário com o urbano. Temos três conjuntos de fontes principais: os Censos (1872, 1890, 1900 e 1920), os Processos Criminais e os Jornais publicados em Areia (“Verdade”, “Democrata” e “Areiense”) – e um ou outro da Capital como o Emancipador e Brado Artístico23. Como complementares, usamos as posturas municipais, o compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, o estatuto da Emancipadora Areiense e alguns Relatórios de Presidente de Província. Fontes de naturezas distintas, mas quando articuladas por meio do cruzamento, descortinaram a Areia e seus personagens de fins do século XIX e início do XX.

Assim, foi possível analisar o pós-abolição nesta urbe por meio do cruzamento deste corpus documental, tendo em vista uma análise de sua produção, verificando suas possíveis intenções. Nesse sentido, trabalharemos com estas fontes, que com muita dificuldade de acesso, especialmente os processos criminais, conseguimos articular com o intuito de desvendar o mundo do trabalho e a vida de trabalhadores no período em foco.

Seguimos na esteira desses indícios que marcam vidas no momento vivido e que legam, mesmo sem essa pretensão, a posteriori, traços que permitem a reconstituição possível daquela realidade; lendo-os analiticamente e transformando-os em fontes históricas articuladas, pudemos trazer à cena do debate histórico e historiográfico dessa parte pequena, porém importante da história da cidade que remonta a sujeitos anônimos, mais que por meio das suas ações individuais ou coletivas foram acionados na justiça ou nas páginas dos jornais

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e se tornaram fios condutores de nossa história.

É claro que essas fontes não foram produzidas para os historiadores. E mais, possuem ideologias próprias 25. No caso dos jornais trabalhados, são abolicionistas e republicanos,

23 Esses Jornais estão disponíveis em: http://www.cchla.ufpb.br/jornaisefolhetins/acervo.html. Acesso: 08/07/2014. Trata-se de uma excelente iniciativa do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFPB, com o objetivo de preservar e tornar disponíveis vários jornais, localizados entre o século XIX e XX.

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Ver o artigo produzido pela Tania Regina de Luca, intitulado: História dos, nos e por meio dos periódicos. Onde ela faz toda uma discussão em torno do jornal enquanto fonte da pesquisa histórica.

25 Cabe destacar que usamos o termo “ideologia” em sentido etimológico, porém sabemos que dentro do próprio marxismo este foi palco de profundas discussões - o próprio Lenin fez uso do termo quase como um sinônimo de consciência de classe. No entanto, na ótica de Marx e de Engels, na Ideologia Alemã, os autores apontam para a “falsa” consciência presente nas formulações dos idealistas alemães - Bruno Bauer, Max Stirner e Feuerbach,

portanto foram lidos a contrapelo tentando apontar para suas ideologias políticas e sociais, “possíveis manipulações” e não como portadores de uma verdade absoluta, mas como veículos que informam aquilo que julgavam necessário ser dito à sociedade naquele período histórico. Daí a importância dada à trama que envolve a notícia e não apenas as informações que esta traz consigo, bem como aos fragmentos de personagens ali presentes para tentar recuperarmos suas histórias de vida. Assim sendo, toda fonte é interessada, isto porque, as relações humanas são interessadas em qualquer tempo; em virtude disso, trilhamos o caminho metodológico apresentado.

Nossa leitura dos processos criminais 26 não seguiu a trilha de buscar uma verdade e julgar alguém, isso faz o juiz naquilo que o processo analisado por ele instituiu como tal. O lemos como um mecanismo de controle, pois os próprios depoimentos passam pelas mãos do escrivão e pela linguagem jurídica. Essa natureza da fonte nega qualquer pretensão de verdade absoluta, mas aponta para a realidade que buscamos nos aproximar e trazer ao leitor. Reconhecemos ainda que fazemos juízos de valores ao adotar posturas historiográficas e teóricas para narrar os fenômenos históricos, embora essa não seja a nossa função primordial. Por isso, ao lermos tais documentos foi fundamental reconstituir alguns cenários presentes nos depoimentos, desvendar algumas interpretações baseadas nos códigos (penal e processual), versões que se repetem ou ainda contradições sociais que surgem durante a ação processual, algumas diminuições de penas, alterações nos códigos penais, etc. nos aproximando de uma possibilidade de verdade que tal fonte propiciou sem perder de vista a evidencia.

Já nos alongamos muito. Seguem-se os capítulos que informam esse texto, sua composição e articulação. Além desta “breve” introdução, o texto se articula em três capítulos e uma consideração final.

No primeiro capítulo, tentamos trazer como mote o panorama de Areia concatenado ao da Paraíba, no contexto de fins do século XIX e início do XX, tentando expor o cenário

entre outros - em torno das variadas ideologias presentes na sociedade, esteja elas vinculadas ao pensamento, a linguagem ou mesmo a religião. Pois, para eles, não existe ideologia autônoma que fundamenta a ação humana; ao contrário, são as ações humanas que determinam a percepção ideológica; daí a instigante formulação de que: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida é que determina a consciência.” Dessa forma, a ideologia faz parte do processo de consciência de classe tendo por base as ações materiais desenvolvidas por homens e mulheres no tempo histórico. Dessa forma, não a usamos como conceito, pois nem mesmo dentro da tradição marxista há uma unidade precisa na definição da ideologia, como mostramos. Ver: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Feuerbach – a contraposição entre as cosmovisões materialista e idealista. 3ª Reimpressão. São Paulo: Martin Claret, 2010. P.52.

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Ver texto de Keila Grinberg, denominado “A História nos porões dos arquivos judiciários”, a autora mostra a historicidade dos processos enquanto fontes, seus usos, encontros e desencontros para a composição de histórias baseadas nessa fonte judicial.

social, econômico e demográfico valorizando a vida trabalhista de escravizados do campo ou da cidade e livres. Além de possíveis locais de trabalho tendo por mote a articulação entre o mundo rural e urbano, fortemente arraigados neste espaço do interior paraibano.

No segundo capítulo, traremos à cena a ação negra (escravos ou livres) mostrando suas condições materiais de sobrevivência, tendo por mote as dinâmicas de vida material e simbólica dos trabalhadores subalternos. Analisamos alguns elementos culturais, de matriz afro, que convergem para o entendimento da “cidade negra” em Areia. Assim, investigamos as inserções destes sujeitos históricos na sociedade areiense nos aspectos relacionados ao trabalho, as diversões e à religiosidade, e demais instâncias sociais e culturais de suas vidas.

No terceiro capítulo, procuramos entender as experiências dos trabalhadores livres e seus significados no contexto do pós-abolição. Para atingirmos esse objetivo, utilizamo-nos de processos crimes que se constituem em elementos-chave para vislumbrarmos seus modos de ver e significar o mundo. Verificamos as permanências e descontinuidades nas práticas dos trabalhadores subalternos. Veremos seus vínculos com o campo e a cidade, a fim de perceber, no contexto em apreço, uma maneira “nova” de estar no mundo.

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