5. Réseau zenon - Configuration
5.2 Gestion multi-projets
5.2.3 Gestion de projets
O lócus de estudo escolhido foi Ilha de Maré, por ser um dos campos de projetos anteriores realizados pelo Grupo Crescer (Promovendo Cidadãos Cooperativa de doces caseiros (CNPq, e Violência Familiar contra crianças e adolescentes Negros, CNPQ e FAPESB)), o que favoreceu o estabelecimento de vínculo com a comunidade estudada.
Ilha de Maré localiza-se na parte central da Baía de todos os Santos e próxima ao Porto de Aratu. É constituída atualmente por 11.000.000 de habitantes (Bahia, 2009). Sua vegetação nativa é densa, com vasta extensão da Mata Atlântica, mangueiras, coqueiros e cana brava, que serve de matéria prima para o artesanato local. É composta por 11 pequenas comunidades: Neves, Botelho, Itamoabo, Santana, Caquende, Praia Grande, Passa Cavalo, Martelo, Bananeiras, Maracanã, Ponta Grossa.
Figura 2- Vista parcial de Praia Grande. Fonte: Jovânia Silva
A principal fonte de renda de Ilha de Maré esta associada a atividades extrativista: pesca, mariscagem e agricultura familiar, cujo principal produto é o cultivo da banana, fruta- pão, manga, sapoti e sapota, bem como a produção de artesanatos e barcos.
O artesanato produzido na Ilha é variado, há confecção de renda de bilros, originada da tradição lusitana, uma das características principais da região, cestos da palha de Canabrava e doces de banana na palha. Esses produtos são levados para a comercialização no continente.
A produção de barcos no único estaleiro da Ilha Maré atende principalmente os barqueiros locais e das regiões vizinhas. Ali é produzido canoas e barco de pequeno e médio porte. Sua colonização compõe parte da História da Bahía: Um navio negreiro naufragou em Ilha de Maré, possibilitando assim a fuga de alguns escravos que se refugiaram em Praia Grande e ali fundaram um quilombo. Esse quilombo também serviu de abrigo aos escravos que fugiam do Mercado onde eram levados para comercialização - atual Mercado Modelo, localizado na cidade baixa de Salvador-Ba-. Posteriormente, esse quilombo foi descoberto por um senhor de engenho chamado Manoel Botelho, que construiu alí um engenho de cana-de- açúcar, dando origem ao nome de uma das comunidade de Ilha de Maré - Botelho (Mota, 2009).
A população dessa Ilha, numa história de resistência e luta, passa por grandes dificuldades nas áreas de infraestrutura, transporte, deslocamento, educação, saúde, além de outras dificuldades relacionadas ao acesso de bens e serviços. Permanece alijada da responsabilidade pública e, como exemplo dessa situação de descaso governamental, pode-se citar o projeto de construção do ancoradouro para atender as comunidades de Praia Grande, Itamoabo, Martelo, Santana e Bananeiras. Iniciado somente em dezembro de 2010 e que até o momento da finalização deste estudo não foi concluído, fazendo com que todas as pessoas residentes nessa comunidade, mesmo aquelas que não têm condições de saúde, sejam obrigadas a adentrar no mar para embarque e/ou desembarque.
- INFRAESTRUTURA
Apesar de ser uma região paradisíaca, Ilha de Maré, encontra-se em graves condições estruturais. No que concerne à rede de tratamento de esgoto, identificou-se que, nessa região, parte da população utiliza fossas assépticas, enquanto a maioria não dispõe de nenhum serviço de escoamento de esgoto. Nesse contexto, o esgoto a céu aberto é encontrado por toda a extensão da ilha, interferindo negativamente nas condições de saúde dessa população, como um todo.
Figura 3- Esgoto a céu aberto Figura 4- Esgoto a céu aberto Fonte: Jovânia Silva
Em relação ao tratamento e distribuição da água potável, 82,7% (na comunidade de bananeiras) utiliza o serviço da Empresa de saneamento do município de Salvador (EMBASA), porém, sofrem, constantemente com a falta d‟água, pois o sistema de distribuição de água potável é deficiente, ocasionando vários problemas para a população.
Relacionado ao tratamento e destino do lixo, em Ilha de Maré, há que considerar dois aspectos: a não colaboração da população em favorecer a coleta seletiva e a reciclagem, expondo o lixo a céu aberto. Outro ponto a ser considerado é a irregularidade da coleta sistemática do lixo em toda a extensão da ilha, pois, apesar de haver coleta, esta ainda não ocorre em todas as comunidades da ilha, funciona de maneira deficiente, tendo em vista não atender a demanda da população, visto que os nativos produzem grande quantidade de lixo orgânico, a partir de suas atividades de mariscagem, do artesanato, bem como restos de alimentos, cujo produto final é dispensado a céu aberto nas encostas da maré. O lixo poderia ser mais bem aproveitado e tratado, a fim de evitar consequências indesejadas à população, como por exemplo: odor, contaminação do solo e da água, desenvolvimento de bactérias, fungos e outros micro-organismos, bem como o aparecimento de ratos, moscas e outros insetos, bem como problemas relacionados à saúde.
Outro fator importante, que compromete a qualidade de vida dos moradores de Ilha de Maré, é a carência de escolas de primeiro e segundo grau, Unidades Básica de Saúde, Serviços de Segurança Pública que atendam a demanda da população, ou seja, para uma população de aproximadamente 11.000.000 habitantes há apenas uma Unidade de Saúde e quatro escolas de Ensino Fundamental I (da 1ª à 4ª série ), o que contribui para êxodo dos nativos para o continente (Salvador).
Em Praia Grande, local onde este estudo foi realizado, existem duas escolas sob administração municipal que trabalham na formação do aluno até o 5º ano do ensino
fundamental, dificultando o seguimento da formação escolar e, consequentemente, diminuindo as perspectivas de desenvolvimento dos adolescentes enquanto cidadãos. Os jovens nativos que querem continuar os estudos tem que se deslocar para Candeias, principalmente quem reside em Bananeira e Martelo ou para Paripe (quem reside em Botelho, praia Grande, Neves e Itamoabo).
O comércio nessa região também é deficiente, não existindo farmácias, supermercados, agência bancária, padarias, lojas em geral entre outros. Apenas pequenas mercearias, bares e alguns restaurantes são encontrados principalmente nas regiões turísticas da Ilha (Itamoabo e Praia das Neves).
O transporte público utilizado para o acesso ao continente (Ilha de Maré/Salvador/ Salvador/ Ilha de Maré) é escasso, tanto em quantidade como em opções de horários, além de ser oneroso para a comunidade de baixa renda. (R$ 2,75 a 3,75- barcos de linha). Internamente, a locomoção da população de uma comunidade a outra é feita a pé, ou através de animais de montaria.
Ilha de Maré possui organização política, representada por quatro associações de moradores e uma cooperativa de pescadores, fundada em 1973, que buscam garantir a seus associados “asseguramento dos direitos sociais e individuais que pertencem ao cidadão” (Delgado, 2005, p.2). A Cooperativa de doces caseiros, apesar de ter sido idealizada, e de certa forma estruturada, ainda não foi legalizada.