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Gestion des conflits d’aspects

Julga-se relevante, neste momento, estabelecer alguns esclarecimentos quanto a três definições: a de mulher árabe, a de muçulmana, e a de magrebina (incluindo marroquina), já que, independentemente das diferenças que separam a mulher urbana da mulher rural, mais ou menos alfabetizada, literada, emancipada no espaço privado e público, as marroquinas, tal como os milhões de mulheres que pertencem ao mundo árabe e muçulmano estão sujeitas a uma narrativa construída em torno de diversas realidades e confusões, designadamente as operadas entre os conceitos de mulher árabe e de mulher muçulmana.

A antropóloga marroquina Rita El Khayat sustenta que a desordem entre os seus significados, que prevalece ainda tanto no Ocidente e como no resto do mundo (não árabe e não muçulmano) - entre “o estado étnico-linguístico, o árabe (língua), e a religião (o Islão) -, resulta de várias causas. Entre elas, trata-se, por um lado, do facto de que foi a língua árabe que expandiu a civilização e a cultura, tanto árabe como muçulmana, uma vez que o árabe é a língua do Corão; por outro lado, porque todos os povos muçulmanos, independentemente da sua língua, revelam uma enorme devoção à língua do Corão, o seu Livro. Finalmente, porque estes povos (os não árabes) frequentemente admiram e respeitam os árabes, observando-os como os povos que

acederam directamente, através da sua língua, ao texto divino tal como ele lhes foi revelado” (Khayat 2005: 13-17).

Khayat esclarece, contudo, que a mulher no mundo árabe contempla múltiplas etnias e origens antropológico-línguísticas, o que torna extremamente complexo descrever um modelo de “mulher árabe”. Em vez disso, defende a investigadora, é mais rigoroso descrever as mulheres árabes tendo em conta a sua grande diversidade humana e histórica, que se insere num melting pot de povos, constituídos graças à capacidade unificadora da língua árabe e da civilização muçulmana.

Assim sendo, os árabes formariam um povo ou uma etnia cujo critério principal de distinção é a língua árabe (Kahyat 2005: 14), uma língua semítica caracterizada. Mas, apenas são árabes e se declaram árabes, os que reconhecem entre si um parentesco de língua, de costumes, de história e de relação com os povos da quase ilha arábica (península), todos aqueles que propagaram o Islão tal como foi revelado ao profeta Maomé, bem como aqueles que falam árabe e se unificaram por intermédio da “civilização árabe”, designadamente os cristãos marronitas e os coptas egípcios.

De facto, a “região árabe” estende-se por treze milhões de quilómetros quadrados, mas encontra-se entrincheirada por toda uma constelação de minorias de língua árabe, por vezes dispersa, outras vezes agrupada, em bolsas populacionais. A título de exemplo cite-se o Irão com meio milhão de árabes, a Turquia com setecentos mil, ou a África central com 400 mil (Chade e a Nigéria). Os países citados são maioritariamente muçulmanos, mas as suas etnias islamizadas não são árabes.

Inversamente, a “região árabe” conta no seu próprio seio com numerosas bolsas de não árabes, bem como de numerosos estrangeiros dispersos, não muçulmanos. No Iraque, por exemplo, existem populações druzas, curdas. Entre os árabes da própria Arábia, designadamente Oman, existem numerosos iranianos.

Quanto aos membros destas ilhotas linguísticas e os indivíduos dispersos, Khayat diz que, em graus bastante diferentes, eles são bilingues e, portanto, apenas em parte arabisados. Fora da zona árabe e da sua franja, existem outras comunidades árabes mais ou menos afastadas, emigrantes de língua árabe dispersos desde a África oriental, e especificamente em Zanzibar, em Madagáscar, no Afeganistão, na Chechénia, no Uzebequistão, Turquemenistão, no Daguestão e na Indonésia.

A emigração árabe, assinala a investigadora, foi também particularmente importante nos Estados Unidos, na Argentina, no Brasil, no Canadá e no Chile, no início do século XX, e sobretudo depois da sua segunda metade, sobretudo em França e no resto da Europa. Mas este, é um fenómeno específico do século XX.

Os países árabes contam-se hoje por 20, mas devem ser realçadas as diferenças entre as mulheres árabes brancas e negras, africanas e asiáticas, atlânticas e mediterrânicas, europeias e americanas, tendo em conta que as distâncias são importantes entre os 20 países e que a extensão do território árabe é imensa. Esta zona de 280 milhões de indivíduos (dados do PNUD, Julho de 2002), representa menos de cinco por cento da população mundial, muito mais jovem do que a média mundial (38 por cento possuem menos de 15 anos), mas sofrendo de atrasos consideráveis, nomeadamente de emprego, a ausência de liberdade de escolha, constrangimentos na promoção do estatuto doméstico e público das mulheres, bem como fortes carências em matéria de conhecimento e educação.

Contudo, Khayat retoma a distinção entre mulher árabe e muçulmana, considerando-a absolutamente necessária – sobretudo tendo em conta as diferentes realidades de países muçulmanos como a Indonésia, a Malásia, o Paquistão, Singapura ou a Tailândia, Nigéria, Egipto ou a Jordânia, e as comunidades árabo-muçulmanas espalhadas pelo mundo, por exemplo, – para estabelecer os diversos problemas vividos pelas mulheres muçulmanas lato sensus.

Tendo como traço comum fundamental o Islão, Khayat distingue, por seu turno, também a mulher árabe da mulher muçulmana segundo características antropológicas e étnicas (Khayat 2005: 18-19). A mulher árabe é de origem semita e fala árabe, quer seja o que é próximo do árabe clássico – o do Corão - , seja ele línguas e dialectos vernaculares dos países conquistados pelo Islão. Do seu ponto de vista, a condição dos muçulmanos árabes é, stricto sensu, corânica, porque o Islão regulamenta o universo jurídico, espiritual, político e económico. (Note-se que no Magrebe – que integra Marrocos, a Argélia e a Tunísia – misturam-se, além de populações árabes, de judeus, europeus, indivíduos da África sub-sariana, também os bérberes ou povos indígenas, que puderam, consoante as épocas e a sua história, preservar a sua língua e os seus diversos dialectos - as línguas berberes ou kabilas -, os quais constituem actualmente cerca de dez milhões de pessoas).

Contudo, e mais importante do que qualquer outra diferença, as distinções no mundo árabe são marcadas sobretudo entre o meio rural e o meio urbano e, muitas delas, aparentemente inexplicáveis. Pode evocar-se, todavia, e com algum rigor, que, em Marrocos, elas são fruto das disparidades decorrente da herança deixada pelos andaluses muçulmanos e judeus - de grande civilização e sofisticação, que se fixaram nas cidades magrebinas marroquinas, depois da queda do império Al Andalus, e que recusaram converter-se ao cristianismo – e a herança introduzida pela conquista rural, exercida por povos árabes.

Muçulmanos andaluzes e em menor quantidade judeus estabeleceram-se nas grandes urbes marroquinas, transmitindo aí parte ou a totalidade do legado do império espanhol muçulmano das dinastias omíadas.

A “conquista” das zonas rurais do sul do Mediterrâneo, incluindo Marrocos é, por outro lado, exercida por hordas árabes provenientes do Oriente, que constituíram a população camponesa magrebina, e que conquistaram aos berberes as suas propriedades, perseguindo-os até ao cume das montanhas. Diz Khayat que, pelo menos, no que diz respeito a (Argélia, Tunísia) Marrocos, a compreensão desta marca de divisão entre o mundo urbano e rural é demasiado importante e muito clara.

Esta abordagem de Khayat permite sustentar claramente o princípio de que a variável religiosa, só por si só, não permite justificar o conjunto de constrangimentos privados e públicos a que estão sujeitas as mulheres nas sociedades islâmicas, designadamente no caso em análise, Marrocos, isto é, que os valores religiosos não servem só por si para fixar as diferenças entre homens e mulheres marroquinos no acesso aos recursos do seu país.