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Jacques Aumont e Michel Marie (2009), em seu Dicionário Teórico e Crítico de Cinema, partem da definição comum utilizada para o termo dispositivo (em seu uso jurídico e militar) até chegarem à conceituação que a

palavra adquiriu ao ser empregada nos estudos de cinema. Na Mecânica, o termo será usado para tratar da disposição de partes de um aparato e o próprio aparato em si. Essa relação semântica permanece no cerne do termo em seu uso pela teoria do cinema, como veremos mais adiante.

O conceito de dispositivo tem assumido na última década um uso inderterminado e irrestrito. Há uma livre associação do termo com temáticas múltiplas, sejam elas de ordem técnica, tecnológica, arquitetônica, conceitual.

Traçando aqui um pensamento que beira o generalismo, mas que nos serve como ponto de apoio para essa discussão, hoje em dia quase tudo é associado discursivamente ao termo dispositivo. Seja uma sala de cinema, seja uma máquina fotográfica, seja um modo de realização fílmica, todas essas situações podem vir referidas como dispositivos.

Dessa maneira, é preciso que se pense o uso do termo quando o utilizamos como ponto conceitual. A que, especificamente, estamos nos referindo quando abordamos as questões fílmicas, sua explicitação de processo de criação e experiência fílmica pelo viés do dispositivo. De que dispositivo exatamente estamos falando?

Para iniciarmos tal abordagem, se faz necessário que reflitamos sobre os usos que o termo vem tendo ao longo dos anos, as transformações pelas quais a própria aplicação do conceito tem passado. Ainda pensando dispositivo como algo múltiplo e heterogêneo, nos remetemos inicialmente ao conceito de Foucault (2000), conceito esse que posteriormente será revisitado e reatualizado por Gilles Deleuze (1990) e por Giorgio Agamben (2005).

O que trato com esse nome é, em primeiro lugar, um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode tecer entre estes elementos. (Foucault, 2000, p. 244)

Essa noção de dispositivo, mesmo que bem expandida, é relacionada dentro da obra de Foucault com três eixos: o saber, o poder e os modos de produção de subjetividade. Essa definição que aqui apresentamos foi dada por Foucault em uma entrevista concedida em 1977 a Alain Grosrichard.

Na ocasião, as perguntas direcionavam-se para que o filósofo apresentasse uma resposta para a tão famigerada questão “o que é um dispositivo?”, questão essa que motiva a resposta de Foucault e também se transforma em leitmotiv para os trabalhos que Giorgio Agamben e Gilles Deleuze desenvolverão partindo da noção foucaultiana de dispositivo e aquilo que vem diluído em sua obra com relação ao termo.

Dentro dessa sistematização de ideias apresentada por Foucault nessa entrevista, o autor estabelece três níveis de compreensão do termo: o dispositivo como uma rede, a compreensão da natureza dessa rede e a relação entre dispositivo e acontecimento.

Curioso perceber aqui que essa compreensão do dispositivo como rede casa com a própria dispersão do termo em meio aos textos de Foucault e à noção de heterogeneidade apontada pelo autor como sendo uma das marcas do dispositivo. Esse caráter relacional do dispositivo permite que compreendamos que um dispositivo não é algo uno, bem acabado, moldável e estático.

Há uma mutação constante e um rearranjo dos elementos, que estão aqui postos de forma relacional. Essa noção mutabilidade do dispositivo pode ser percebida quando se pensa nos dispositivos narrativos dos filmes- dispositivos, que formulam situações específicas para aquele momento da realização fílmica. Discutiremos mais sobre isso adiante neste capítulo.

Dessa forma, a própria escritura dos textos de Foucault e sua maneira de apresentação, a valorização dada às entrevistas como peças de amarração de pensamento (caráter que é abordado, inclusive, pelo texto de Gilles Deleuze) e essa multiplicidade de aplicações do termo seriam, se podemos assim falar, um dispositivo conceitual de organização do pensamento em torno de um termo, no caso o dispositivo. Como o próprio Foucault ressalta, há aqui um caráter de jogabilidade, de participação ativa dos elementos e algo vivo, dinâmico, que faça o pensamento seguir.

Já na forma de apresentação fragmentária, a sua característica de interrelação entre as estruturas para as quais a noção de dispositivo é aplicada, enfim, tudo isso compõe a si mesmo como um dispositivo e perceber tal arranjo nos permite uma abordagem mais holística da ideia. Isso porque tanto Deleuze

quanto Agamben vão partir da explicação dessa abordagem como forma de compreensão das ideias do autor e de expansão da terminologia, aplicabilidade e conceituação.

O pensamento foucaultiano servirá como uma matriz, um pensamento gerador, algo que instaura um movimento de reflexão acerca do conceito, mas que também tem seu caráter criador de outros modos de trabalhar com essa terminologia, dada sua heterogeneidade, sua multiplicidade, sua variabilidade.

Dispositivo tem uma aplicação conceitual bem ampla e, como bem estabelece Foucault, pode se referir a objetos discursivos e não-discursivos, aparelhos, tecnologias, instituições, enfim. A partir do dispositivo de Foucault, Deleuze (1990) explora a ideia do conceito não somente no que diz respeito ao termo em si, mas ao que isso significa dentro da obra de Foucault. Estabelece alguns pontos de observação, em que o primeiro reside na percepção do dispositivo como algo múltiplo, um conjunto de linhas que se afastam e se aproximam, uma mescla de vetores.

Dessa forma, os dispositivos seriam “máquinas de fazer ver e de fazer falar”. Máquinas essas que podem ser discursivas, visuais, arquitetônicas. Como já apontamos anteriormente, os dispositivos tem uma composição heterogênea e variável. Como pontos iniciais a apontar na constituição de um dispositivo, pode-se inicialmente falar de suas curvas de visibilidade e suas curvas de enunciação.

Aponta-se ainda, num terceiro momento citado por Deleuze (1990), as linhas de força, ou seja, a questão do poder. Essa dimensão do poder seria um espaço interior do dispositivo. E todos esses elementos se relacionam por linhas de objetivação.

Ao destacar esses pontos de objetivação, o autor ainda enfatiza que existem pontos de fuga, o que seriam as chamadas linhas de subjetivação. Essas linhas seriam produtoras de subjetividade, seria uma vertente que estabeleceria certo descontrole no dispositivo, uma escapada à faceta controlada, correlacionada dos elementos pelas linhas de objetivação.

Esse seria um espaço da individuação, em que se inserem aqui grupos e pessoas. Essas são “linhas de fratura” do dispositivo, atravessamentos e pontos de fissura que interligam poderes e saberes entre dispositivos.

Deleuze ressalta que cada dispositivo terá um arranjo próprio de seus elementos e essas linhas compõem um “novelo” único, que responde à lógica de arranjo daqueles elementos daquele dispositivo em si. Não existe uma fórmula para os dispositivos e nenhum dispositivo será igual ao outro. Logo, para que se compreenda do que se trata cada dispositivo é preciso que se entenda sua organização, seus elementos compositivos e até se perceba seus pontos de fratura, seus modos de operação e os agenciamentos inerentes a cada um dos dispositivos.

Dessa forma, seguindo esse raciocínio, são estabelecidas duas implicações para se trabalhar com os dispositivos. A primeira delas diz respeito ao “repúdio aos universais”, que tem a ver justamente com essa irrepetibilidade de elementos do dispositivo, uma vez que “cada dispositivo é uma multiplicidade na qual esses processos operam em devir, distintos dos que operam em outro dispositivo.” (DELEUZE, 1990).

O segundo ponto trata de uma implicação complementar à primeira e diz respeito a um necessário distanciamento daquilo que seja eterno e uma abertura para o que é novo. Assim, não é possível que se vislumbre uma imutabilidade das situações, discursos e instituições, antes uma variação constante em relação a cada dispositivo, onde não cabe a universalização das características apontadas como inerentes ou não aos dispositivos.

Essa variabilidade se somaria ao que Deleuze aponta como novidade, o que resultaria posteriormente em outras possibilidades de dispositivo, e outras formas de subjetivação. Essa novidade diz respeito ao estado atual das coisas. “O atual não é o que somos, mas aquilo que vamos nos tornando, o que chegamos a ser, quer dizer, o outro, nossa diferente evolução.” (DELEUZE,1990).

Esse atual dá conta do devir, do vir a ser, o que remete a Heráclito. “Devemos separar em todo dispositivo as linhas do passado recente e as linhas do futuro próximo; a parte do arquivo e a do atual, a parte da história e a do devir, a parte da analítica e a do diagnóstico.” (DELEUZE, 1990). Dessa maneira, é possível que se separe os componentes dos dispositivos em dois: as linhas de estratificação ou de sedimentação, e as linhas de atualização ou de criatividade.

Além da abordagem de Deleuze ao questionamento “o que é um dispositivo”, Giorgio Agamben (2005) também se deterá em responder essa questão. Em sua leitura do termo, Agamben volta à questão etimológica da palavra, investigando sua episteme, levando em consideração os fatores semânticos implicados no uso do termo para mais bem compreendê-lo.

O autor reforça a importância do conceito dentro dos escritos de Michel Foucault e amplia sua contextualização. Na percepção de Agamben acerca da abordagem que Foucault faz do termo dispositivo, o autor italiano percebe que, antes de qualquer sistematização ou restrição de abordagem do termo, ele se refere à relação entre os indivíduos e a história.

Nessa característica relacional, em primeiro lugar estaria a função do dispositivo como um elo ou rede entre elementos discursivos e não-discursivos como proposições filosóficas, leis, instituições. Esse ponto ressaltado por Agamben é abordado por Foucault na entrevista que citamos anteriormente. Em segundo lugar, o dispositivo se inscreve numa relação de poder e com função estratégica. Além disso, há o dispositivo como rede entre conceitos.

Esse dispositivo abordado estabelece uma relação entre os seres sociais históricos, as subjetivações e as regras às quais as relações de poder estão condicionadas. Agamben aqui traça sua abordagem do dispositivo por seu caráter historicamente constituído e a relação com a tecnologia, atentando para os jogos de poder envolvidos.

A perspectiva etimológica frisada por Agamben vem em sua visão de que, de modo geral, o dispositivo se refere a práticas e mecanismos materiais e imateriais. Essas práticas e mecanismos estão ligados a uma perspectiva histórica, há ainda uma visão teológica à qual o termo se liga e se conecta aos estudos de Foucault. Agamben elabora questões acerca da trindade, sua disposição trina, mesmo correspondendo a um conjunto específico de práticas, saberes, disposições, normalizações, controles que são supostamente úteis.

À luz desta genealogia teológica, os dispositivos foucaultianos adquirem uma importância ainda mais decisiva, em um contexto em que estes se cruzam não somente com a "positividade" do jovem Hegel, mas também com a Gestell do ultimo Heidegger, cuja etimologia é análoga àquela da dis-positio, dis-ponere (o alemão

stellen corresponde ao latim ponere). Quando Heidegger, em Die technik und die kehre, escreve que Ge-stell significa comumente

"aparato" (Gerät), mas que ele entende com este termo "o recolher-se daquele (dis)por (Stellen), que dis(poe) do homem, isto é, exige dele o desvelamento do real sobre o modo de ordenar (Bestellen)", a proximidade deste termo com a dispositio dos teólogos e com os dispositivos foucaultianos é evidente. (AGAMBEN, 2005, p. 12)

Agamben avança na explicação do termo e procede à sua recontextualização. Dessa maneira, ele elabora sua própria definição de dispositivo como sendo

qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente, portanto, as prisões, os manicômios, o panóptico, as escolas, as confissões, as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas etc, cuja conexão com o poder é em um certo sentido evidente, mas também a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celulares e - porque não - a linguagem mesma, que é talvez o mais antigo dos dispositivos, em que há milhares e milhares de anos um primata - provavelmente sem dar-se conta das consequências que se seguiriam - teve a inconsciência de se deixar capturar. (AGAMBEN, 2005, p. 13)

Para Agamben, desde o aparecimento do homo sapiens os seres- humanos lidam com dispositivos. Contudo, a seu ver, na sociedade atual há uma exacerbada interação com os dispositivos a todo instante. Ele frisa ainda a multiplicidade de dispositivos como sendo um bom ponto de observação, além dos sujeitos por eles resultados. (PEREIRA, 2011)

Pode-se, ainda, discutir se o que há, na verdade, não é uma maior consciência acerca dessa interação com dispositivos, o que provocaria essa sensação de exacerbação.

Na raiz de cada dispositivo está, deste modo, um desejo demasiadamente humano de felicidade, e a captura e a subjetivação deste desejo em uma esfera separada constitui a potência específica do dispositivo. (AGAMBEN, 2005, p. 14).

Como pontuado anteriormente, os dispositivos de Deleuze e Agamben vão se diferenciar pelas abordagens dadas, as atenções concentradas em pontos específicos do pensamento de Michel Foucault. Enquanto Deleuze se aproxima da relação de jogos de poderes, compreendendo a dimensão de mecanismos de controle, para Agamben essa abordagem aparece de maneira

mais fluida, se focando nos agenciamentos de subjetividade só possíveis pelos dispositivos.

O autor italiano estabelece uma relação franca com as análises de tecnologias dos dispositivos que permeiam a vida contemporânea. São sujeitos criados a partir da televisão, da internet, da disseminação da telefonia móvel. São mecanismos que funcionam como ferramentais de controle, não somente como formas de subjetivação. Constituem-se, assim, como formas de vigilância dos sujeitos.

E aqui acrescentaríamos que essa vigilância se faz por uma adesão dos sujeitos a esses dispositivos, nessa interação entre seres viventes e aparatos, o que tornaria sua relação estratégica e intencionalmente formulada para escapar das intensas programações e aprisionamentos.

Poderíamos comparar esse ponto do pensamento de Agamben com a fala de Deleuze, que cita linha de fuga. A associação voluntária com instrumentos de controle teria, portanto, uma função política, uma função estratégica da vida cotidiana, dessa participação do comum. Há aqui uma exploração da ideia de resistência, de não-aceitação do que é imposto. Em Deleuze isso se dá já nos processos de subjetivação como forma de consequência.