Instigados sobre as dificuldades durante a realização do curso, os relatos apresentavam falta de tempo para as leituras acerca dos conteúdos trabalhados nas aulas e como conseqüência, dificuldades na escrita, principalmente ao final do curso, quando da exigência do trabalho de conclusão, a elaboração do memorial de formação docente.
Falta de tempo pra me aprofundar mais, porque realmente a verdade é essa, a gente via a apostila lá, se desse pra gente ver tudo, ótimo; senão, dava pra ver a
metade, e o outro o professor fazia uma síntese geral do que tinha na apostila e mandava a gente ler em casa e como eu lia muito pouco, tinha grande dificuldade. (Profª Aparecida).
A minha maior dificuldade é em leitura, porque eu tenho uma dificuldade muito grande de escrever e o que foi que eu descobri: se eu não lia, como que eu podia escrever bem? Eu tive uma grande dificuldade de fazer o memorial, por conta disso. (Profª Terezinha).
O que eu achei mais difícil foi à questão dos relatórios, que depois serviriam para o memorial. Porque a gente não conhecia a metodologia científica, onde você aprendia a fazer relatório, pesquisa e era necessário elaborar o relatório e o memorial; aí todo mundo arrancava os cabelos porque realmente não sabíamos como fazer, era uma tortura mesmo. (Profª Claudia).
3.7.1 Fatores de Satisfação
Buscamos ouvir dos professores-alunos, o que eles teriam a nos dizer sobre os fatores positivos do curso de licenciatura plena do ensino fundamental. Questões tais como ter melhorado a sua prática docente, a satisfação de ter concluído um curso superior e o crescimento pessoal e profissional foram destacados pelos pesquisados.
Ah! o curso melhorou a minha prática pedagógica. (Profª Liduina). Ter feito o curso (Profª Fca. Alves).
Ver que eu melhorei a prática pedagógica e que eu estava crescendo com isso. Os alunos começaram mesmo a achar que a professora tinha mudado, porque eu comecei a questionar mais eles, a puxar mais, a fazer com que eles falassem mais. No começo, eu tive uma grande dificuldade, mas depois eles se acostumaram tanto, que quando eu ia dar um assunto, cada um queria falar mais que o outro. Eu percebi isso; que ser bom professor não era dar tudo pronto ao aluno é trabalhar junto com o aluno. (Prof. Augusto).
Foi que tudo que aprendi lá eu tô fazendo em sala de aula; é assim como se eu estivesse numa casa toda fechada e de repente abrisse um caminho pra eu sair. Eu cresci como profissional, hoje eu tenho feito muitos cursos. Vejo as minhas colegas que não têm faculdade e fico me dizendo como é triste, não é? (Profª Aparecida).
Primeiro me realizei como profissional por ter feito uma faculdade. Aprendi muito. Apesar de já ter coisa que fazia no dia-a-dia como profissional, mas completou mais né? (Profª Terezinha).
Eu gostei muito. Fico orgulhosa de ter feito o curso. Satisfeita demais, porque eu aprendi muito. Em relação ao meu conhecimento, eu aprendi coisas novas que me fizeram mudar o pessoal e o profissional. Acho que cresci muito como pessoa e profissional. (Profª Claudia).
Porque eu já entro lá com uma bagagem, eu já tenho 16 anos em sala de aula, eu tinha bastante experiência em sala de aula, eu não sabia era ampliar, melhorar [...] quando eu comecei a ler os pensamentos de Paulo Freire, Emília Ferreiro, vi que o que eu fazia não chegava nem perto do que era pra ser. Porque quando
você sai do pedagógico, você não sai com uma bagagem pra enfrentar mil e uma coisas em sala de aula, foi aí que vi o que sabia era muito pouco. (Profª Railda).
3.7.2 Fatores de Insatisfação
Os professores externaram fatores de insatisfação em relação ao curso, tais como local de realização do curso, considerado por muitos como área de risco e de difícil acesso. O tempo destinado às disciplinas também foi apontado como insuficiente para um maior aprofundamento dos conteúdos. Também se queixaram de que não havia uma vinculação da formação à realidade das escolas.
A única coisa que não gostei foi o local, a distância e a localização da escola que além de difícil acesso era de alto risco para a pessoa. (Profª Railda).
Professor de história que não trabalhou bem a disciplina, e o tempo que não foi suficiente; poderia aproveitar mais, se fosse o tempo maio. O tempo era corrido. Às vezes, a gente tava apresentando um trabalho e tinha que correr porque tinha as outras pessoas e também o horário, né, que não podia ultrapassar, tinha que ser aquele mesmo .(Profª Terezinha).
Foi que muitas coisas que a gente viu lá na prática não eram possíveis de colocar na nossa sala de aula. O que o professor trazia não dava pra aplicar na sala de aula porque não tínhamos esse material na escola, não tínhamos esse recurso. Muitos filmes bons que a gente poderia dar uma aula maravilhosa em cima daquele filme, mas a gente não tinha nem televisão em sala de aula, imagine filme pra passar. Muita coisa que a gente se entusiasmava lá quando a gente ia colocar em prática se decepcionava por isso. [...]. E uma das coisas também foi o tempo muito pouco, dois anos é muito pouco, nós aprendemos muito porque foi um curso muito bom. As pessoas diziam assim: curso de dois anos ninguém aprende nada, é só uma pincelada, é só por cima. Mas não era assim não; professor não brincava com a gente não; a gente era cobrada demais [...]. Foi um curso de dois anos, mas foi muito rico. Mas eu não fiquei satisfeita com o tempo; tinha disciplina, como eu já disse, que eu queria que tivesse sido mais prolongada. (Profª Liduina).
Melo (2004) afirma que há nos cursos de formação um divórcio entre os currículos e a realidade da escola básica, sendo este um dos “nós“ que precisam ser desatados, além de causar vários conflitos entre as instâncias de gestão dos sistemas educacionais e as instituições de formação.
Nesta mesma linha de pensamento, Popkewitz (1992, p. 41) afirma: “A formação de professores tem se preocupado com uma fragmentária aquisição de
informação e de competências dirigidas para a prática, minimizando uma orientação intelectual”.