Inanna, a deusa multifacetada da cultura mesopotâmica, foi cultuada durante
toda a história dessa sociedade. Esse tópico discorre sobre quem foi Inanna, como era apresentada nas fontes mesopotâmicas, para no segundo capítulo abordarmos seus símbolos, facetas e percepções de outros historiadores, trançando assim um paralelo entre o imaginário dessa sociedade e nossas interpretações acerca do passado.
No fragmento abaixo, do período babilônico, Inanna, aqui chamada pelo nome semítico de Ishtar, aparece dando testemunho de quem era e das proezas que faziam parte de sua glória:
Eu sou Ishtar, deusa do entardecer. Eu sou Ishtar, deusa das manhãs! Sou Ishtar, que abre e fecha as portas dos céus, o brilho dos céus reflete minha glória; eu apaziguo os céus, acalmo a terra, para minha glória; sou a que brilha nos céus resplandecentes, cujo nome é brilhante no mundo habitado, para minha glória. Para minha glória, sou proclamada Rainha dos céus tanto acima como abaixo. Para minha glória subjulgo as montanhas, eu sou o cume das montanhas116.
Senhora do amanhecer e do entardecer, a estrela Vênus, a mais brilhante do céu, assim ela se autoproclamava, assim era descrita e referenciada em diversos hinos, a estrela de oito pontas a acompanhava na iconografia e por vezes a simples presença dessa figura representava a deusa.
A Rainha dos céus, como cantada nos hinos, detinha as chaves para abrir e cerrar suas portas, mas também podia serenar a tempestade, ou ser ela a própria tormenta. Afinal, todos os poderes lhe foram dados por An117, além dos domínios sobre os céus e a terra, ela recebeu o senhorio, a realeza, a batalha, o poder da inundação e da tempestade. Ela era a vaca selvagem, a doadora de vida118.
Em outro hino, um balbale, ela fez questão de nomear seus templos na terra: Em Uruk o Eanna é meu,
Em Zabalam o Gigunna é meu, Em Nippur el Duranki é meu, Em Ur o Edilmuna é meu, Em Adad o Esharra é meu,
Em Kish o Kursag-Kalamma é meu, Em Kisiga o Amashkuga é meu, Em Umma o Ibgal é meu; Em Agadé o Ulmash é meu
Existe algum deus, apenas um que possa competir comigo119?
Inanna fazia questão de dizer que comandava os deuses, que a ela estes
prestavam homenagens, tal quais os seres humanos. Um trecho de um hino composto por Enheduana, neta de Sárgon de Agadé e sumo sacerdotisa do deus lua, Nanna, em Ur, elenca como a deusa era conhecida:
Tu és conhecida por ser alta, como os céus, És conhecida por ser vasta como a terra, És conhecida por massacrar as gentes,
És conhecida por devorar os mortos como um cão, És conhecida por seu feroz semblante,
És conhecida por seus flamejantes olhos, És conhecida por sua maldade e desobediência, És conhecida por tuas muitas vitórias120,
Aqui os aspectos terríveis da divindade se apresentam, nesse trecho Inanna é a Senhora da Batalha, que aspira maldade e que devora os mortos, nesse sentido a
117 O deus do Céu An aparece posteriormente nos hinos paleobabilônicos, mas seria uma adaptação aos novos contextos políticos e religiosos, pois as fontes mais antigas indicam que Inanna reinava sozinha no E-anna, no entanto não entraremos nessa discussão aqui.
118 PEINADO, Federico Lara. Himnos sumerios. Madrid: Molina, 1988, p. 46. 119 Idem, p. 47.
deusa seria a própria guerra. Mas o mesmo hino traz outros atributos, e inclusive faz menção ao casamento sagrado ao dizer que para ela foi erigido um leito nupcial de acordo com os ritos.
Se por lado seu aspecto marcial e fúnebre se faz presente, por outro, a divindade era evocada como à senhora de todas as terras, capaz de multiplicar todas as criaturas viventes. Foi denominada de deusa doadora de vida e misericordiosa mulher de coração radiante. A dualidade era uma constante na personalidade da Inanna, que podia ser cultuada em seus distintos aspectos, aparentemente dispares, no entanto complementares.
Interessante notar, que a sumo sacerdotisa aponta, que o ―reino dos céus foi tomado por uma mulher121‖. Assim, a deusa era antes de tudo, ou por definição uma mulher. Em alguns hinos ela foi chamada de barbuda, fazendo alusão a uma possível androginia, e em algumas imagens traz traços viris, como pernas delineadas como as masculinas. Nesse sentido, creio que as representações se devam apenas a sua correspondência como divindade da guerra, que até o momento tem sido apresentada como uma atividade masculina pelos pesquisadores122 e sua titulação como patrona dos exércitos. O fato de a divindade transmutar mulheres em homens e vice e versa não a qualifica como andrógina, mas se refere as suas características como divindade das práticas sexuais, que agregava setores distintos da sociedade e consequentemente com gostos sexuais diferenciados.
Os aspectos bélicos de Inanna são louvados em diversos hinos, os quais comparam sua fúria, por exemplo, com a de um dragão ao mesmo tempo em que a caracterizam como dotada de uma alegria extraordinária, como é o caso desse hino sumério:
Senhora, nascida de Ningal jubilosamente para a alegria, Como um dragão você possui a força de aniquilamento,
Inanna, nascida de Ningal jubilosamente para a alegria,
Como um dragão você possui a força de aniquilamento. Estas entronizada sobre um tormenta de vento (...)
Adotaste desde o ventre de tua mãe a defesa e as armas (...)
121 O céu pertencia ao deus An, mas Inanna usurpa seu domínio. Embora haja uma discussão a respeito desse mito, sua interpretação e de sua construção tardia, ele data do período neo-sumério, não entraremos nessa discussão nesse momento.
122 Não encontrei relatos nas fontes que apontem que as mulheres guerreavam, mas não compartilho da dicotomia guerra para os homens e ambiente doméstico para as mulheres.
Senhora, frente a ti ninguém se mantem firme na luta, filha de Zu-en, que se levanta o céu, que irradia pavoroso prestígio123 (...)
Dragão, leão, leoa, a força e a ferocidade da divindade eram qualificados de muitas maneiras, ela aniquilava o inimigo, o campo de batalha era seu parque de diversões, onde se divertia fazendo o sangue jorrar. Nesse sentido, é perceptível que o uso de hipérboles e metáforas pelo poeta era um recurso de linguagem que tinha a função de promover e salientar aspectos relevantes naquele contexto para o culto. Era também uma forma de propagar a crença em uma divindade de caráter múltiplo, que podia atender a diversos aspectos da sociedade, que podia se relacionar a uma multiplicidade de devotos.
É possível também que essa diversidade de características fosse um recurso real e templário para manter a sociedade coesa, uma tentativa de homogenia por meio de uma divindade que podia reunir muitos aspectos em torno de si. Mas é importante salientar que essas adequações e acréscimos não são ocasionais, uma vez que esse caráter múltiplo foi atestado desde seus primeiros vestígios, o que há são formas de permanência e adaptações aos contextos, um dinamismo que acompanha a deidade sempre.
Inanna era a deusa de uma miríade de símbolos e funções, a qual se verá
mais adiante, era a mãe misericordiosa e a dama guerreira, a amante voluptuosa, a vaca selvagem, a senhora da justiça, a conquistadora, aquela que transformava homens em mulheres, que frequentava as tavernas e ruas em busca de companhia, que conquistava territórios divinos e humanos. Esta era Inanna cantada nas fontes, apresentada e representada na iconografia, perpetuada no culto, temida e amada como qualquer divindade mesopotâmica.
A jovem patrona de Uruk, cujo espaço sagrado oscilava entre a guerra e as práticas sexuais, o leito e campo de batalha. E o leito tornou-se com o tempo um de seus emblemas traçado em cantos, mitos e imagens.