Direta ou indiretamente influenciadas pelas ideias de Michel Odent (2000; 2002) que afirma que para mudar o mundo, primeiro é necessário mudar a forma de nascer, muitas mulheres que participaram desta pesquisa acreditam que o parto é um importante caminho para uma mudança social. A visão do parto humanizado como um evento carregado de amor e respeito alimenta a ideia de que ele será um propulsor de mudanças relativas às mulheres, como já explorado anteriormente, e de que as crianças nascidas em um parto humanizado, os bem-nascidos, como o movimento costuma chamar, também serão seres humanos melhores, porque chegaram a este mundo em um ambiente de amor e respeito. Esta é a intenção das mulheres que, depois de seus partos, passam a se considerar ativistas da humanização ou, ao menos, tonam-se incentivadoras do parto normal e da amamentação entre as amigas.
A experiência do parto humanizado faz com que as pessoas revejam seus lugares no mundo e passem a valorizar mais as relações. Este tipo de parto, caminhando na contracorrente da objetificação dos humanos, retomaria uma consciência de si no mundo e traria um conhecimento sobre o próprio corpo, o que construiria e alimentaria um sentimento de comunhão com os iguais e de solidariedade entre os seres. A experiência de parto poderia, segundo esta perspectiva, dar origem a indivíduos mais humildes e compreensivos, capazes de estabelecer relações mais igualitárias e harmônicas, a partir da retomada do corpo, da história e da relação humano e animal. Se o desconhecido e o natural é amedrontador na nossa cultura, haveria o redimensionamento da necessidade de controlar. O trecho abaixo é ilustrativo:
...uma coisa que eu tava falando com uma amiga minha, uma prima minha que é médica e ela tava me dizendo que esse jeito da gente pensar em parto humanizado, essa forma que a gente tá falando hoje em dia, isso é tão moderno, apesar de ser algo que remete à antiguidade, a nossas origens né, minha pelo menos remete total às minhas origens, mas assim, é moderno no sentido que as pessoas não querem mais isso, né, é como se fosse moderno no sentido que a gente tá cada vez mais se conectando com o nosso corpo, porque querendo um parto humanizado, e as pessoas, nesse mundo moderno, tão esquecendo de fazer isso. É tantos adjetos, guidilines que a gente tem e apetrechos pra poder esquecer que a gente é gente, pra ficar a gente ainda mais todo mundo conectado e todo mundo mais eletrônico, e a gente esquece de se conectar com nosso próprio corpo, então, a humanização do parto traz a gente de volta assim, pluf, você é isso, você é gente, você é bicho também, você é ser humano, é um ser humano, você não é uma coisa humana, né, então, você é um ser, e o ser, ele nasce de alguma coisa e nasce de parto né. E aí realmente a humanização, ela tá, ela tá trazendo o parto de volta e tá fazendo as pessoas renascerem junto com seus partos, eu acho que é isso, aí todo mundo que engole um pouco essa pilha da humanização, muda um pouco a forma de ver a vida e de encarar as pessoas assim mais, as pessoas como mais pessoas mesmo, como seres semelhantes que nasceram da mesma forma, ali naquela hora todo mundo é igual. (Camila)
Como o parto humanizado traz à tona outros significados para o controle sobre si e sobre os eventos que nos rodeiam, ele desestabilizaria os valores e noções atribuídos atualmente em nossa sociedade a questões relativas ao planejamento da vida e à previsibilidade dos acontecimentos, impulsionando o questionamento sobre diversos medos que circulam e formatam comportamentos e sobre normatizações que podam práticas de liberdade. Caracterizando-se, portanto, como um movimento de resistência capaz de promover transformações. Este caminho abriria espaço para outras perspectivas de risco e segurança, bem como de cuidado e atenção em saúde. Os reflexos disso, previstos pelas mulheres, vão
desde a organização dos sistemas de saúde, de equipes responsáveis pela atenção ao parto, dos direitos do consumidor e do profissional vinculado aos planos de saúde até a formação médica, os paradigmas de assistência, a Bioética e as políticas de humanização.
...eu acho que um pouco de muita, muito medo, a sociedade que bota muito... não é só medo, é uma sensação que eu acho que volta praquela história do controle né. Tudo que tá fora do controle, tudo que é desconhecido é amedrontador. Né? Então, a sensação que eu tenho é essa, quando eu falava que ia ter parto normal, as pessoas quase que me arregalavam os olhos, como que diz ‘como assim?’, ‘não sabe qual vai ser a data, começa o lado prático né, ‘não sabe se o médico vai tá disponível, não sabe se vai ter muita dor, não sabe se vai precisar de anestesia ou não’, ou seja, como é que ela consegue lidar, era essa a sensação que eu tinha, com tantas coisas incertas. ‘Como é que ela suporta a ideia de tantos ses?’ Entendeu? Se a médica vai tá, se vai ser no final de semana, se a bolsa vai estourar de madrugada, se o marido vai tá disponível. Então, a sensação que eu tenho é como se as pessoas achassem que é quase impossível uma mulher voluntariamente abrir mão do controle de ter uma data marcada, médico certo, hospital certo, tudo certo, pra fazer a loucura, quase que a loucura, entre aspas, de deixar tudo na mão da natureza. Podendo ser num horário, num dia, com o médico, o local, totalmente imprevistos, como se o não previsto, o não programável, o não controlável, fosse tão raro que é quase assustador. Sabe?
(...)
Eu acho que é uma sociedade do medo. É a sociedade que não consegue assimilar, em aceitar a ideia do não previsto, do não controlável. Né? A explicação que eu dou é essa e assim, além disso, assim, do ponto de vista geral né. Se eu for olhar o lado social, digamos assim. E do ponto de vista do sistema público, do sistema público não, do sistema de saúde, tem o lado também dos médicos, né, tem o lado do sistema da falta de um sistema que incentive isso também, a formação do médico, os valores que um plano de saúde querem pagar por um parto normal, né. (Júlia)
Há uma defesa de que a atenção ao pré-natal e ao parto devem ser revisadas no sentido de ser feita em equipe composta por profissionais de diferentes áreas. As/os enfermeiras/os obstetras e/ou obstetrizes seriam as/os responsáveis pelo acompanhamento das gestações e partos de baixo risco, acionando a/o médica/o obstetra apenas em intercorrências e gravidezes de alto-risco. Além disso, a mulher não se vincularia a apenas um/a profissional de referência, o acompanhamento seria feito por mais de um profissional e o parto seria atendido por aquele que estivesse disponível no momento, com o qual a mulher já teria tido contato. (notas de campo, 2012)
Mudar a forma de nascer aparece, então, como um elemento basilar para a promoção de uma mudança social, prevista a partir de relações mais igualitárias e amorosas, nas quais o cuidado passaria pela noção de respeito e autonomia para atingir uma perspectiva de cidadania. Seria o alimento para uma transformação política e cultural onde mulheres e profissionais poderiam estabelecer relações mais
horizontais e criativas, com desdobramentos para outros membros da família, como, por exemplo, os pais das crianças, como pode ser visto no item a seguir.