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General Introduction

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Said (2007) amplia os estudos realizados por Foucault e os direciona para as relações coloniais de saber e poder, principalmente com relação aos discursos ocidentais sobre os orientais. Realiza um estudo sobre o colonialismo que busca questionar os discursos universais sobre os “outros” não-europeus.

Portanto, para Said o colonialismo não se reduz apenas ao exercício arbitrário de um poder econômico e militar, mas possui uma dimensão cognitiva e duradoura.

A categoria discurso, abordada por Foucault, é utilizada amplamente nos estudos de Said (2007, p. 37-38). Ele estabelece uma relação entre o nascimento das ciências humanas e o nascimento do colonialismo, expondo assim o vinculo entre poder e saber tal como assinalado por Foucault64.

As ideias, as culturas e histórias, segundo Said (2007, p. 32), “não podem ser seriamente compreendidas ou estudadas sem que sua força, ou mais precisamente, suas configurações de poder também sejam estudadas.”

Argumenta Said (2007, p. 142) que os textos que se propõe a conter conhecimento sobre algo real podem criar não só o conhecimento, mas podem criar a própria realidade que parecem descrever.

Com o tempo, esse conhecimento e a realidade produzem uma tradição, ou o que Michel

64 Cabe destacar que Foucault realizou uma microfísica do poder (poder disciplinar, biopoder),

já Said amplia este conceito ao realizar uma análise macrofísica do poder no âmbito das relações imperiais.

Foucault chama de discurso, cuja presença ou peso material – seja qual for a originalidade de um determinado autor – é responsável pelos textos a que dá origem. (Said, 2007, p. 142).

O orientalismo, segundo Said (2007, p. 73), é a concepção do Oriente predominante nas ciências e nas humanidades europeias a partir do final do século XVIII. Esta ideia baseia-se no seguinte, os ocidentais são “racionais, pacíficos, liberais, lógicos, capazes de ter valores reais, sem desconfiança natural”. O oriental é “irracional, depravado (caído), infantil, ‘diferente’.”

Sem considerar o orientalismo como “discurso” não é possível entender a disciplina “enormemente sistemática por meio da qual a cultura europeia conseguiu administrar – e até produzir - o Oriente política, sociológica, ideológica, científica e imaginativamente durante o período pós-Iluminismo.” (SAID, 2007, p. 29).

A análise do orientalismo é feita por intermédio da apreciação de relatos de viagens, poemas, romances, escritos políticos e científicos. Desta maneira, Said realiza um novo tipo de estudo sobre o colonialismo, desmitificando assim a “verdade” ocidental sobre os não- europeus, por meio da análise das relações de poder.

A relação entre os orientalistas e seu objeto (Oriente) tem um começo textual, que Said chama “fase textual do orientalismo” apoiada no estudo de manuscritos e textos antigos e na produção de textos, não só de investigação erudita, mas também literária.

Considere-se como o Oriente, e em particular o Oriente próximo tornou-se conhecido no Ocidente como o seu grande oposto complementar desde a antiguidade. Houve a Bíblia e o surgimento do Cristianismo; houve viajantes como Marco Pólo que traçaram as rotas comerciais e padronizaram um sistema regulado de intercambio comercial e depois dele Ludovico di Varthema e Pietro della Valle; houve fabulistas como Mandeville; houve os temíveis movimentos orientais de conquista, principalmente do islã, é claro; houve os peregrinos militantes, sobretudo os cruzados. Todo um arquivo internamente estruturado é construído a partir da literatura que pertence a essas experiências. Disso surge um número estrito de condensações típicas de viagem, a história, a fábula, o estereótipo, o confronto polêmico. Essas

são as lentes pelas quais o Oriente é vivenciado, e elas moldam a linguagem, a percepção e forma do encontro entre o Leste e o Oeste. (SAID, 2007, p. 96).

Todas as ideias contidas nestes textos vão dar legitimidade a um vocabulário e a um discurso particular sobre o Oriente e o Islã. Assim, é construída uma visão de profunda força que se estabelecerá na mente coletiva dos ocidentais.

Entretanto, será a expedição do Napoleão ao Egito que vai assinalar o primeiro grande marco orientalista. O Oriente passa a ser revelado à Europa “na materialidade de seus textos, línguas e civilizações”. (SAID, 2007, p. 120).

Napoleão queria oferecer um exemplo europeu proveitoso ao Oriente e, “também tornar a vida dos habitantes mais agradável, bem como proporcionar-lhes todas as vantagens de uma civilização aperfeiçoada. Nada disso seria possível sem uma aplicação contínua aos projetos das artes e das ciências.” (SAID, 2007, p. 130).

Com o passar do tempo a fase da investigação textual e erudita dá lugar aos espíritos aventureiros que empreendiam viagens ao Oriente e aos historiadores que precisavam estabelecer elementos de comparação para consolidar, por oposição, a identidade ocidental. Desenvolve-se então o orientalismo “moderno” que é na realidade um conjunto de estruturas herdadas do passado, secularizadas e reformadas por certas disciplinas, “como a filologia, que eram, por sua vez, substitutos naturalizados, modernizados e laicizados do sobrenaturalismo cristão (ou suas versões).” (SAID, 2007, p. 177).

O orientalismo mostrava que o presente da Ásia nada tinha que dizer a Europa, posto que essas manifestações culturais eram velhas e tinham sido já “ultrapassadas” pela civilização moderna. Das culturas asiáticas apenas interessava seu passado, enquanto momento “preparatório” para a emergência da racionalidade moderna europeia. [...] Daí que no imaginário orientalista, o mundo oriental - Egito é possivelmente o melhor exemplo disso - é associado diretamente com o exótico, o misterioso, o mágico, o estético e o originário, quer dizer, com formas culturais “pré-modernas”. Deste modo, as muitas formas de conhecer estão localizadas em uma concepção da história que deslegitima sua coexistência espacial e as ordena

de acordo a um esquema teleológico de progressão temporária. As diversas formas de conhecimento desdobradas pela humanidade conduziriam paulatinamente para uma única forma legítima de conhecer o mundo: desdobrada- a pela racionalidade científica-técnica da modernidade. (CASTRO-GÓMEZ, 2005b, p. 45).

Silvestre de Sacy e Ernest Rénan (ambos franceses) podem ser considerados como figuras iniciais do orientalismo “moderno”. Colocaram o pensamento orientalista sobre uma base racional e científica, criando um vocabulário e uma doutrina que foi usada pelos próximos orientalistas.

Sacy recebeu a incumbência de Napoleão em 1802 de formar o “Tableau Historique de l’erudition française”. Sua importância para uma compreensão da fase inaugural do orientalismo é que ele exterioriza a forma do conhecimento orientalista e suas características, assim como também descreve a relação do orientalista com seu tema.

O conhecimento era essencialmente tornar visível o material, e o objetivo de um quadro era a construção de uma espécie de Panópticom à maneira de Bentham, A disciplina erudita era, portanto, uma tecnologia específica de poder: Proporcionava [,,,] ferramentas e conhecimento que até então estavam perdidos. [...] Sacy não só precisava identificar o conhecimento, como tinha de decifrá-lo, interpretá-lo e, o mais difícil, torná- lo disponível. Sua realização foi ter produzido todo um campo de estudo. Como europeu, ele saqueou os arquivos orientais, o que conseguiu fazer sem sair da França. Os textos que separava, ele os levava de volta; tratava-os; depois anotava- os, codificava-os, organizava-os e comentava-os. Com o tempo, o Oriente como tal tornou-se menos importante que a entidade em que o orientalista o transformava. (SAID, 2007, p. 183- 184)

Sacy é propriamente quem inaugura o orientalismo como disciplina científica. Mas quem continua e aplica a ela os métodos filológicos é Ernest Renan.

Renan “não falava realmente como um homem a todos os homens, mas antes como uma voz especializada e reflexiva que aceitava a desigualdade das raças e a dominação necessária por uma minoria como uma lei antidemocrática da natureza e da sociedade.” (SAID, 2007, p. 191). Os semitas, assim, são monoteístas raivosos que não produziram mitologia, arte, comércio, civilização de maneira que “sua consciência é estreita e rígida; tudo considerado representam uma combinação inferior da natureza humana.” (SAID, 2007, p. 201).

Durante o século XIX é construído um imponente edifício de erudição e cultura em face de elementos estranhos (as colônias, os pobres, os delinquentes) cujo papel era definir aquilo para que eles eram constitucionalmente inadequados. De maneira que só um ocidental pode falar sobre o Oriente, só um homem branco pode designar, valorar e nomear as diferentes raças. (SAID, 2007, p. 306, 308).

No final do século XIX estava bem assentada a teoria racial, pelas próprias necessidades de justificar o imperialismo. A teoria da raça, as ideias a respeito das origens primitivas e as classificações primitivas, a decadência moderna, o progresso da civilização, a necessidade de territórios coloniais, todos esses elementos existiam no amálgama peculiar da “ciência, da política e da cultura, cujo impulso, quase sem exceção, sempre elevava a Europa ou uma raça europeia ao domínio sobre porções não europeias da humanidade.” (SAID, 2007, p. 314).65

No período compreendido entre as duas guerras mundiais, as relações entre o leste e o oeste tomaram um novo rumo. Apareceram as reivindicações políticas sob a forma dos diferentes nacionalismos. O Oriente surgia como um desafio. “Depois de um bom século de intervenção constante no Oriente (e no estudo do Oriente), o papel do oeste num leste que reagia ele próprio às crises da modernidade parecia consideravelmente mais delicado.” (SAID, 2007, p. 334).

[...] o Orientalismo moderno já carregava dentro de si a marca do grande medo europeu do islã e isso foi agravado pelos desafios políticos do

entre-deux-guerres [entreguerras]. O meu ponto é

que a metamorfose de uma subespecialidade filológica de certa forma inócua numa capacidade de controlar movimentos políticos, administrar as colônias, fazer declarações quase apocalípticas que representam a difícil missão do Homem

Branco – tudo isso está em andamento dentro de uma cultura pretensamente liberal, cheia de preocupações com suas normas alardeadas de universalidade, pluralidade e mentalidade aberta. De fato o que ocorreu foi o oposto do liberal: o endurecimento da doutrina e do significado, revelados pela “ciência”, transformados em “verdade”. (SAID, 2007, p. 340).

A partir do final da Segunda Guerra Mundial e principalmente depois de cada uma das guerras árabe-israelenses, o muçulmano árabe tornou-se “uma figura na cultura popular americana”. O orientalista, tal e como se concebia anteriormente na Europa, foi convertido pouco a pouco em um “perito em áreas culturais”, trabalhando para o estado ou para o mundo empresarial. A visão do Oriente e dos “árabes”, desta forma, modifica-se paulatinamente, adaptando-se às necessidades políticas e colonialistas de cada momento da história. A contribuição especificamente americana ao orientalismo, segundo Said, é que o orientalista “já não tenta primeiro dominar as línguas esotéricas do Oriente; ele começa como um cientista social e ‘aplica’ sua ciência ao Oriente ou a algum outro lugar.” (SAID, 2007, p. 380, 387).

Na contemporaneidade, segundo Said (2007, p. 15), as sociedades de árabes e os muçulmanos

[...] sofreram um ataque tão maciço, tão calculadamente agressivo em razão de seu atraso, de sua falta de democracia e de sua supressão dos direitos das mulheres que simplesmente esquecemos que noções como modernidade, iluminismo e democracia não são, de modo algum, conceitos simples e consensuais que se encontram ou não, como ovos de Páscoa, na sala de casa. A leviandade estarrecedora dos publicistas inconsequentes que falam em nome da política externa e que não tem a menor noção da vida real nesses lugares (nem nenhum conhecimento da língua ou do que as pessoas reais efetivamente falam) fabricou uma paisagem árida à espera de que o poderio americano venha construir um modelo sucedâneo de “democracia” de livre mercado.

O orientalismo66 assim colocou em evidência a “superioridade” da Europa frente ao estranho, o Oriente, o “outro”. A analise orientalista se situa na oposição binária, dois mundos, duas culturas, Oriente e Ocidente. É a partir do estabelecimento da diferença entre esses dois mundos que o ocidental obterá o poder para controlar o “outro”.

O conhecimento do Oriente pelo Ocidente em certo sentido cria o Oriente, o oriental e seu mundo. O europeu, deste modo, constrói o “outro” colonial (o anthropos) como objeto de estudo, no caso o Oriente, e, ao mesmo tempo, constrói uma imagem de seu próprio locus de enunciação (o Ocidente). Não existe, portanto, algo como oOriente real fora dos discursos, mas é uma verdade produzida pelos discursos.

Para Said os discursos das ciências humanas em geral, e não só o orientalismo, se sustentam sobre uma maquinaria geopolítica de saber- poder que subalterniza as outras vozes da humanidade de um ponto de vista cognitivo, quer dizer, declara como ilegítima a existência simultânea de distintas formas de conhecer e produzir conhecimentos. Said mostra que com o nascimento das ciências humanas nos séculos XVIII e XIX assistimos a invisibilização das múltiplas vozes históricas da humanidade. (CASTRO-GÓMEZ, 2005b, p. 47).

Segundo Castro-Gómez (2005b, p. 47) as reflexões de Said apontam para o centro do debate latino americano sobre modernidade/colonialidade e a crítica ao eurocentrismo. Said mostra que o discurso colonial é um sistema de signos a partir do qual os colonizadores impuseram um tipo específico de conhecimento, disciplinas, valores e formas de comportamento dos colonizados. Os teóricos latino-americanos mostram que a “ciência e o poder colonial formam parte de uma mesma matriz genealógica que se constitui no século XVI com a formação do sistema-mundo moderno.” (CASTRO- GÓMEZ, 2005b, p. 64).

Embora os estudos sobre o orientalismo, explicitam de forma profunda a relação entre colonialidade e conhecimento, consideramos que os estudos decoloniais desenvolvem uma análise da colonialidade que agrega elementos importantes para o entendimento dessa questão. Como por exemplo, a ideia de sistema-mundo moderno/colonial que se inicia no século XVI, a relação entre modernidade e colonialidade, a matriz de poder colonial, como já trabalhamos anteriormente, como

66 Para Mignolo (2003, p. 90), Said silencia com relação ao ocidentalismo, pois não considera

que sem o ocidentalismo (trabalhamos essa questão no capítulo anterior) não há orientalismo: “O orientalismo é o imaginário cultural hegemônico da segunda modernidade, quando a imagem do “coração da Europa” (Inglaterra, França, Alemanha) substitui aquela da “Europa cristã” do século 15 a meados do século 17 (Itália, Espanha, Portugal)”.

também as noções de teo-política e ego-política do conhecimento, diferença colonial e hybris do ponto zero, que analisaremos mais detalhadamente nos próximos itens.

3.3 O UNIVERSAL ABSTRATO: TEO-POLÍTICA E EGO-POLÍTICA

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