4. BGPsec UPDATE Messages
4.1. General Guidance
A Oficina 04 tem a intenção de explorar os elementos constitutivos de uma Crônica e os recursos literários utilizados pelos autores, como as Figuras de Linguagem, por exemplo, além de conhecer expressões próprias do mundo futebolístico e as diferentes formas de abordar o tema „Amor‟, por meio da leitura de duas Crônicas.
1ª etapa: Os recursos do cronista (11ª/12ª aulas).
Iniciei a aula explorando sobre as Figuras de Linguagem. Previamente, explanei oralmente o que são estes recursos e apresentei alguns exemplos. Posteriormente, escrevi, para cópia no caderno, algumas das Figuras de Linguagem mais usadas nos textos lidos.
Expliquei aos estudantes que Figuras de Linguagem são recursos utilizados pelos autores para realçar uma ideia, tornando-as mais expressivas e enriquecendo sua linguagem, a fim de conseguir um determinado efeito estético na interpretação global dos textos.
Sem demora, demonstrei alguns exemplos de seus usos nos textos lidos, ressaltando que a Literatura se apropria desses recursos com finalidade estilística, mas que em todo momento estamos, corriqueiramente, fazendo uso desses artifícios da linguagem.
Logo depois, comecei a chamar atenção para que percebessem qual o recurso que permitia o efeito final: o som, a construção, a palavra, por ela mesma. Então, apresentei em slides que, tradicionalmente, as Figuras de Linguagem são divididas em quatro categorias, dependendo do recurso utilizado, como figuras de som, de palavras, de pensamento ou de construção; porém, chamei-lhes atenção que esta classificação não importava ao nosso propósito, apenas precisava apresentar-lhes, pois a função, que realmente é o que importa, estudaríamos no decorrer das próximas aulas, diretamente nos textos, analisando-os.
Retomei a importância de não esquecerem que a Crônica é um Gênero Literário e que o cronista necessita de dois instrumentos muito valiosos: o olhar e a linguagem. Como afirmam Laginestra e Pereira (2016, p.50) “com o olhar ele reconhece o acontecimento, o momento que merece ser preservado, o qual outros nem notam; com a linguagem retrata a situação, e as figuras de linguagem o ajudam a fazer isso com sucesso”.
Nesta ocasião, iniciam-se os Módulos da Sequência Didática. “A construção dos módulos deve ser de tal modo que dê conta dos problemas aparecidos até agora.” (MARCUSCHI, 2008, p.215). O número de módulos e o tipo de atividades dependem daquilo que vai surgindo e carece de melhorias; podem ser variados, até que se tenham condições suficientes para a elaboração da produção final do texto, que será avaliado e receberá nota.
“Eles não são fixos, mas seguem uma sequência que vai do mais complexo ao mais simples para, no final, voltar ao complexo que é a produção textual” (MARCUSCHI, 2008, p.215), ou seja, inicia-se no complexo, a produção inicial, passa-se ao simples, os módulos, que diversificam atividades separadamente por focos particulares (ortografia, sintaxe etc.) e volta-se ao complexo, a produção final, na qual toda a aprendizagem realizada nos módulos será posta em prática enquanto aplicabilidade para a produção textual.
2ª etapa: O mundo do futebol (13ª/14ª aulas).
Comecei a aula escrevendo na lousa um conjunto de palavras utilizadas usualmente no meio futebolístico; chamei-lhes a atenção para o fato de que aquelas palavras são, cotidianamente, usadas com um significado, mas que no mundo do futebol adquirem um jargão específico. Expliquei, então, que para compreensão de um texto dessa área, faz-se necessário conhecer e dominar seus jargões, seu vocabulário próprio.
Pedi, então, para que a turma fosse dizendo, a priori, o significado literal de cada palavra e, a posteriori, o significado que assume no jargão futebolístico; aqueles que gostam de futebol foram executando esta etapa com mais propriedade; por exemplo, „chocolate‟, produto alimentício advindo do cacau que, no futebol, significa goleada.
Novamente, tomando a Sequência Básica por parâmetro, chega-se a mais um momento de Motivação; essa atividade, quase que uma conversa, sobre o significado que certas palavras adquirem em contextos diferentes, é uma forma de trazer elementos que fazem parte do cotidiano da grande maioria dos estudantes a fim de aproximá-los do texto.
Nesse momento, chamei atenção ao sentido da palavra „pelada‟, que, segundo os dicionários, significa, primeiro, clareira no mato; segundo, dermatose que ataca o couro cabeludo, fazendo cair os pelos ou os cabelos por zonas; terceiro, jogo de futebol informal e/ou amador, que pode ser jogado num campo improvisado ou numa rua como passatempo.
Dessa maneira, segue-se a execução dos Módulos da Sequência Didática, dando ênfase a conteúdos diferentes: antes, as Figuras de Linguagem, recursos utilizados para realçar uma ideia, enriquecendo a linguagem a fim de conseguir um determinado efeito estético no texto; depois, um vocabulário próprio de um determinado contexto social.
A finalidade, neste caso, é, dentre outras coisas, enriquecer o vocabulário dos estudantes com recursos diversificados, além de instrumentalizá-los com ferramentas necessárias à superação seja de problemas já apresentados seja de possíveis dificuldades surgidas, por exemplo, por desconhecimento, da parte de alguns estudantes (que não gostam de futebol, por exemplo) de jargões específicos do mundo futebolístico.
3ª etapa: Um cronista que tem futebol nas veias.
Apresentei-lhes, então, o jornalista Armando Nogueira, dando informações básicas de sua vida e de sua carreira. Pontuei que é o autor da Crônica „Peladas‟, escrita para o jornal e depois catalogada em seu livro Os melhores da crônica brasileira (1977).
Fiz, logo depois, algumas perguntas para despertar a curiosidade sobre o texto que leríamos: se o título „Peladas‟ despertava interesse, o que ele sugeria, o que esperavam do texto, a personagem central, o conflito e o desfecho.
Neste instante, executa-se o momento da Introdução da Sequência Básica, apresentando de maneira concisa obra e autor e lançando os questionamentos expostos acima para tentar despertar o interesse e convidá-los a leitura do texto.
Passamos, após a discussão, à leitura do texto; nesse momento, realizei a primeira leitura e os estudantes apenas ouviram, sem acompanhar o texto escrito. Assim, inverti a ordem das leituras com relação à Sequência Básica realizada anteriormente; dessa vez, a priori, houve a escuta do texto e, a posteriori, a leitura individual.
4ª etapa: “Conversando” com Armando Nogueira.
Interpelei-os sobre alguns pontos, a fim de provocá-los: opinião sobre a personagem, tipo de narrador, tom do texto, quais reflexões, ideias, sentimentos perceberam. Distribuí, logo após a audição de minha leitura e discussão inicial, o texto „Peladas‟ (anexo 08) e pedi para que realizassem uma segunda leitura, agora silenciosa, individual, mais profunda. Assim, efetivou-se mais um momento de Leitura do texto.
E, enquanto realizavam esta leitura, escrevi na lousa algumas perguntas que deveriam ser respondidas para aprofundamento do texto; envolvendo questões relacionadas ao cenário da história, qual o acontecimento motivador do texto, qual o conflito, quais os recursos utilizados para realçar a mensagem, por exemplo, no sétimo parágrafo, o que o adjetivo „coitadinha‟ sugeria quando usado para „bola‟ e quais expressões do cotidiano o autor usou no oitavo parágrafo, qual o desfecho e o que ele causou, quais reflexões etc. Solicitei que essa atividade fosse realizada por escrito, para permanecer registrada nos cadernos.
Depois da leitura realizada, os alunos se dividiram em pequenos grupos para responder às questões; após alguns minutos, começamos a discutir suas respostas. Com isso, ultrapassa-se da Leitura para a Interpretação. “As atividades de interpretação, como a entendemos aqui, devem ter como princípio a externalização da leitura, isto é, seu registro.” (COSSON, 2016, p.66), como ocorreu no momento em que compartilharam a análise dos elementos da situação discursiva, realizada durante a segunda leitura.
Ao final, realizei uma análise mais profunda, seguindo as orientações contidas no próprio Caderno do Professor, para redimensionar e aprofundar a análise dos estudantes:
No primeiro parágrafo o cronista-autor anuncia que ‗sem aquela pelada‘ a praça está vazia, sem vida, deixou de ser um espaço de convivência, perdeu o sentido: ‗uma chatice completa‘. Em contraposição à ideia de solidão em que se transformou a praça, o autor mostra ao leitor – numa descrição detalhada – como o cenário era animado antes do fim da pelada: ‗fervia de menino [...] de sonho‘.
Observe como o cronista compõe o cenário, localiza o espaço (utiliza advérbios para marcar tempo e lugar), nomeia ações, oferecendo pistas para o leitor antecipar, configurar o enredo. A prosa – ora lírica, ora irônica – estabelece uma conversa com o leitor. Faz com que os leitores tenham a imagem do que foi escrito. A ação da narrativa lembra o ritmo, a pulsação de uma partida de futebol.
O autor escolhe as palavras, as comparações, as figuras de linguagem (pelada inocente, pureza de uma bola, bendito fruto, suada vaquinha, lava a alma). Usa verbos na terceira pessoa (autor-observador) e também entra na história (autor-personagem), quando diz: ‗já reparei uma coisa...‘ – alguns autores denominam esse tipo ‗autor- intruso‘.
Desde o início, o destino da personagem é traçado. O cronista personifica a personagem central – a bola, que ganha vida, se humaniza (prosopopeia). Vai descrevendo as ações da bola: ‗ela corre para cá, corre para lá, quica no meio-fio, para de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho‘. Aos poucos, o cronista torna a personagem ‗vítima‘: ‗Acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha‘.
Nos últimos parágrafos, o narrador reforça a crueldade das ações, provocando apreensão no leitor: ‗Entra na praça [...] sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. [...] O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda [...]‘. O desfecho é a morte simbólica da personagem: ‗[...] tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar. Em cada gomo, o coração de uma criança‘. A metáfora expressa o sentimento de dor, perda. É a morte da alegria, o roubo do brincar, o desaparecimento da pelada de rua, do ser criança.
Anteriormente, após a leitura, os estudantes fizeram uma análise do texto; posteriormente, perceberam uma análise mais profunda do texto e puderam refletir e comparar esse aprofundamento, podendo retomar, rever, aquilo que foi estudado em aulas anteriores, como, por exemplo, as Figuras de Linguagem funcionando, exercendo sua utilidade.
5ª etapa: O mundo amoroso (13ª/14ª aulas).
Iniciei a aula afirmando que Laginestra e Pereira (2016, p.58) nos lembram que “encontros e despedidas, dores, temores, esperas, alegrias e desesperos amorosos ocorrem a todo momento em qualquer cidade”, em qualquer lugar, com quaisquer pessoas, de qualquer idade; inclusive, com quaisquer um dos presentes naquela sala.
Assim, iniciamos uma conversa sobre temas amorosos, sempre presentes em canções, filmes, novelas, cinemas, livros etc. Chamei-lhes atenção sobre o quanto o „Amor‟ está presente em várias produções, dos mais diversos tipos. Instaura-se, assim, a Motivação de mais uma Sequência Básica, no entremeio da Sequência Didática.
Em seguida, disse-lhes que o próximo texto a ser lido e analisado seria de Paulo Mendes Campos: „O amor acaba‟. Apresentei informações básicas sobre a vida e a carreira do autor, destacando que
Dedicou-se totalmente à literatura, dando a suas palavras um requinte e uma delicadeza incomuns, ao contrário de muitas cronistas que usam linguajar mais coloquial. Suas crônicas deixam transparecer a perplexidade diante do ser humano e de suas questões existenciais. A linguagem é essencialmente poética, cheia de sutilezas, uma prosa poética, penetrante e algumas vezes cheia de bom humor.
(LAGINESTRA; PEREIRA, 2016, p.59)
Esta Introdução dá continuidade às atividades da Sequência Básica, abordando autor e obra, de forma lacônica, e antecipando a leitura efetiva do texto. Nesta ocasião, as atividades de leitura já passaram a ser executadas com maior fluência.
Distribuí, após esse curto comentário, a Crônica „O amor acaba‟ (anexo 09) e solicitei uma leitura individual e silenciosa. Esta Leitura, depois de algumas já realizadas, mostrou-se mais madura, pois os estudantes já estavam mais familiarizados com os elementos constituintes da situação discursiva, característicos ao Gênero Discursivo/Textual.
Depois de terminada a leitura do texto, levantei breves comentários para entender se o texto havia sido compreendido ou restavam dúvidas. A Interpretação, como já esperado, foi um pouco mais fluída, devido à tomada de consciência e consequente domínio das etapas vivenciadas continuamente.
Após partilharem suas considerações, executei uma análise do texto, para aprofundamento de suas impressões, seguindo as orientações do Caderno do Professor:
Além de explorar a situação comunicativa, autor, título, antecipação e objetivos de leitura e hipóteses sobre os temas, é imprescindível que os alunos comecem a desenvolver uma habilidade mais intrínseca, imperscrutável de leitura.
A Crônica, escrita em um único parágrafo e em prosa poética, parte de uma ideia central: o amor acaba para recomeçar sempre. O amor acaba em qualquer lugar – em um bar, em um apartamento, em uma encruzilhada de uma cidade. Acaba em qualquer tempo – um dia da semana, em qualquer das diferentes estações do ano, antes de, depois de. Acaba de diferentes modos (de repente, mecanicamente), em diferentes ações (um desenlaçar, um passar por) e por diferentes motivos (a perda de um filho, a rotina, a ausência do desejo).
A repetição variada da frase ‗o amor acaba‘ imprime um ritmo poético ao texto: o amor acaba no...; acaba de repente...; às vezes o amor acaba...; acaba quando...; o amor pode acabar...; e acaba o amor. Algumas vezes, o amor não começa; em outras, se dissolve ou vira pó; e em outras, ainda, seria melhor não ter existido.
O poético emana da repetição de sentenças afirmativas durante todo o texto: ―domingo de lua nova, depois de teatro e silencio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar‖ ou ―no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor‖, ou ―às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres‖.
E também das imagens construídas pelo autor: ―como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão‖, ou: ―às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo‖.
Procede ainda das palavras escolhidas com esmero, distintas daquelas que usamos no dia a dia: ―polvilhando de cinzas o escarlate das unhas‖ ou ―no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores.
E o poético jorrar de sentimentos em um só parágrafo! Da afirmação final ressurge o amor apontando o novo ciclo da vida: ―para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba‖.
O importante, nesse momento, é perceber em quais níveis de profundidade de leitura os estudantes se encontram. Eles só conseguem adentrar esses níveis mais específicos e profundos quando conseguem identificar efeitos de ironia e humor, reconhecem os elementos constitutivos do Gênero, estabelecem as relações entre as partes do texto, identificando repetições ou substituições que garantem sua coerência, inferindo uma informação implícita, deduzindo significados, explorando conteúdo e extrapolando o texto.
Para finalizar esta etapa, apresentei-lhes, ainda, outro texto sob a mesma temática. “Variações em torno da paixão”, de Affonso Romano de Sant‟Anna, para oportunizá-los a comparação entre dois autores escrevendo em estilos diferentes e sob óticas distintas sobre o mesmo tema. Realizei, eu mesmo, uma leitura oralizada e fizemos uma breve análise sobre os elementos constitutivos do Gênero, como a situação comunicativa etc.
Como introdução à próxima Oficina, solicitei, ao final da aula, que pesquisassem sobre a vida e a obra do grande escritor do século XIX, Machado de Assis, e procurassem Crônicas dele com a temática da cidade e do cotidiano.