• Aucun résultat trouvé

Já pensando em seu futuro Gonzaga realizou um dos seus sonhos, retornar à sua terra natal. Comprou um sítio em Exú em 1964 para viver onde passou sua infância e adolescência.216 Residindo no Nordeste, Gonzaga passou a ter mais contato com o povo que tinham as mesmas raízes que as suas. Aproveitava os intervalos dos shows para passear pelas cidades onde se apresentava. Certa vez, ouviu um violeiro cantando

215

SHAFER, R. Murray. Afinação do mundo: uma explosão pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente – a paisagem sonora. São Paulo: Editora UNESP, 2001. p.77-78.

216

uma bela música na feira de Campina Grande e ficou impressionado. Não descansou enquanto não encontrou o autor que vivia no Crato, no interior do Ceará. Tratava-se do poeta popular Patativa do Assaré.217 “Disse que ia gravar sua toada e pediu parceria, em contrapartida, Patativa mandou o sanfoneiro plantar feijão, pois suas obras não estavam à venda para ninguém.”218

Mesmo assim Gonzaga gravou A Triste Partida considerada por ele uma das mais importantes de seu repertório.

Setembro passou Outubro e Novembro

Já tamo em Dezembro Meu Deus, que é de nós Meu Deus, meu Deus

Assim fala o pobre Do seco Nordeste Com medo da peste Da fome feroz Ai, ai, ai, ai [...]

Sem chuva na terra Descamba Janeiro Depois Fevereiro

E o mesmo verão Meu Deus, meu Deus [...]

Eu vendo meu burro Meu jegue e cavalo

Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer

Ai, ai, ai, ai

Nóis vamo a São Paulo Que a coisa ta feia

Por terras alheia Nóis vamo vagar

Meu Deus, meu Deus [...]

Para Jonas Rodrigues de Moraes, a canção tem como principal temática a seca do Nordeste e a fome. Descreve a angústia de um sertanejo que por conta da falta de chuva teve de vender seus animais para migrar para São Paulo. ”Dessa forma, Luiz Gonzaga delimitou suas fronteiras territoriais, instituindo sua música, a sua linguagem, os seus ritmos”.219

Desta forma, o cantor reforçou a ideia de uma imagem de Nordeste

217

Patativa do Assaré era o nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva. Nasceu em de março de 1905 na cidade de Assaré, interior do Ceará. Dedicou sua vida a cultura popular, voltada para o sertão nordestino. Estudou em uma escola local aos 12 anos, porém freqüentou o estabelecimento por apenas alguns meses.Com uma linguagem simples, destacou-se como compositor, cordelista e poeta.

218

DREYFUS, Dominique. Op. cit. p.235.

219

sofrido, assolado pela seca que expulsava seus habitantes para outras regiões em busca de sobrevivência.

Nesta canção o povo nordestino é representado como sofredor, carente de comida por conta da estiagem. Descreve a angústia de um sertanejo que teve que vender seus animais para migrar para São Paulo. Segundo Moraes, dessa forma, Luiz Gonzaga contribuiu para fortalecer o imaginário do Nordeste a partir dos ritmos, das letras e das canções como esta. “A música de Gonzaga figura um discurso identitário acerca do povo nordestino.”220

Verdadeira denúncia da condição do nordestino, “A Triste Partida” é cantada em 152 versos e conta a saga de uma família de nordestinos vitimados pela seca. A música tornou-se o carro chefe do seu repertório, e a única cujo autor ele sempre citou quando cantava. A única relação musical entre a dupla foi versada no cordel Cronologia do universo gonzagueanode Pedro Sampaio, publica em 2012:

Nesse ano (1963) conheceu Patativa do Assaré

Um poeta genial Inspiração e muita fé

Parceria decidida Grava “A triste partida” Sendo aplaudido de pé

Estes versos demonstram a importância do poeta Patativa do Assaré para a carreira artística de Gonzaga, por ter sido o compositor da música Triste Partida, considerada especial pelo sanfoneiro. O poeta é visto como um gênio dotado de muita inspiração e fé.

Em 1993, quando patativa do Assaré esteve em João Pessoa, concedeu uma entrevista aos repórteres Célia Leal e Wellington Farias para o jornal “O Norte” afirmando que Gonzaga não era compositor:

Luiz Gonzaga não foi compositor. Foi o maior cantor do nosso gênero, mas compositor ele não foi. Só fazia uma letra para propaganda comercial. Ele apanhava uma música que já tinha saído da moda e fazia um versinho, mas eu tenho a maior saudade dele. Ele era um homem grosseiro, vaidoso, tinha o hábito de adular os grandes e tal. Mas deixando essa parte um pouco desagradável, quero falar que a natureza lhe deu o dom de cantar com perfeição.221

220

Idem. p.57

221

Ver entrevista completa em: http://www.overmundo.com.br/banco/gonzaga-e-a-triste-partida-de- patativa-do-assare.

Penso que Luiz Gonzaga participava de algumas composições do seu repertório, principalmente sugerindo temas ou dando algum mote ou trechos de músicas. Não concordo com a afirmação de Patativa do Assaré quando diz que Gonzaga não era compositor e apenas fazia letras para propaganda comercial. Penso que o cantor colocava sua interpretação pessoal nas músicas e complementava outras no momento das gravações, mudando assim o formato inicial da canção. Algumas obras afirmam que em determinadas canções, Gonzaga não participava da composição, apenas colocava seu nome como coautor, pois sendo gravada por ele poderia ganhar grandes projeções.

Mas, mesmo após mais uma década distante dos holofotes das grandes cidades e da mídia nacional, o sanfoneiro sabiamente não desistiu de tocar o estilo que o consagrou anteriormente como havia confessado a amigos nos momentos de tristeza.

O cordelista e escritor Ivaldo Batista, natural de Carpina, em Pernambuco, é membro da União Brasileira de Escritores (UBE), da União Carpinense de Escritores e Artistas (UCEA) e do Instituto Histórico de Jaboatão dos Guararapes. Formado em História e bacharel em Teologia, versou no folheto Centenário do rei do baião em 2012 sobre a persistência de Gonzaga, um verdadeiro sertanejo, no gênero que o tornou famoso.

Foi um bom profissional

Há instantes de tormento

Mas o homem é sertanejo

Não se abala com lamento

Não desiste da ideia

E nem foge um só momento

O cordelista representa Gonzaga como um profissional exemplar que não desistiu de divulgar seu estilo musical frente aos modismos da época. Por ser sertanejo o sanfoneiro era forte e não se abala com as adversidades. O sanfoneiro era representado como uma pessoa resistente, assim como o povo de sua região que enfrenta com coragem os desafios que a vida oferece. Mas como o próprio sanfoneiro afirmou, teve um momento em que ele pensou em desistir de defender o baião na época das “vacas magras”.

No ano de 1966, contratado pelo radialista José Austregésilo para tocar no auditório da Rádio Clube de Pernambuco, Luiz Gonzaga fez um desabafo no microfone da P.R.A.8222:

(...) Vocês sabem, eu estou aqui para cantar meus baiões. Eu estou aqui com muita honra. Se não fosse Jota Austregésilo eu não estaria aqui, cantando, eu teria passado em Recife, em branco! (...) depois que eu bati todos os recordes de bilheteria nesta capital, fiz mais de vinte espetáculos, de vinte temporadas, sem criar um caso, sem criar um escândalo. Sempre fui um homem simples das ruas, andando com a cara do povo, com o passo do povo,o jeito do povo, vestindo a mesma roupa do povo, com o passo do povo, seria um absurdo que agora, que me sinto um homem capaz, cheio de saúde, ainda decantando essa raça forte que é a raça nordestina, decantando esse povo, com força, com vontade, que passasse pela minha capital, capital do meu Estado em branco! Pois eu ia passando em branco! Não ia cantar em lugar nenhum, porque ninguém me deu oportunidade dessa vez. Mas esse homem que ta aqui, que tem dentro do coração dele, um coração dentro corpo, dentro do seu peito, um coração de brasileiro, um coração de minha raça, me deu oportunidade de vir a esse programa e cantar, pra dizer que estou aqui, com prazer, dentro dessa mesma rádio que me lançou em 1946. Dessa casa onde uma vez eu tentei entrar pra cantar e não pude, porque o povo ficou lá fora me esperando e eu entrei escondido. Não é possível que depois de tantos recordes de bilheteria que eu bati na Rádio Tamandaré, Rádio Clube, agora que ainda sou um homem capaz, passar por aqui sem trabalhar. Ainda sou profissional! Mas graças a Jota Austregésilo, eu estou aqui cantando nos microfones da Rádio Clube, Rádio Tamandaré, das Emissoras Associadas porque esta sempre foi uma casa do povo, sempre foi a minha casa. A casa que primeiro recebeu este fole de oito baixos, Sivuca e muitos outros e eu continuo o mesmo humilde servidor (...).

Lemos neste desabafo representações que Luiz Gonzaga cria sobre a sua própria trajetória. O cantor afirma que sempre foi um homem simples, que tem o jeito do povo, que se comporta do mesmo modo que a população nordestina que é uma raça forte. Analisando o discurso, para Gonzaga cultura popular seria aquela realizada pelo povo humilde, pobre, das camadas subalternas e ele se inseria nesta classe social, que representava este povo por fazer parte dela.

Luiz Gonzaga não sabia que em pouco tempo sua carreira seria alavancada por meio de novos artistas que ascendiam na carreira musical e declaravam ter como grande influenciador o Rei do Baião. O sanfoneiro estava prestes a retornar aos holofotes da grande mídia nacional, talvez não tão forte como no seu auge, mas o ostracismo iria acabar.

222

CAPÍTULO 4. GONZAGA VOLTA AOS HOLOFOTES

Documents relatifs