A problemática da afinação apresenta-se em diferentes níveis de exigência, de acordo com o grau do desenvolvimento musical de quem a aplica, podendo tratar-se da criação das suas bases, da sensibilização para a sua precisão, da correcção dos problemas persistentes ou do seu refinamento, contudo, todos os alunos necessitam de receber orientações sobre o seu aperfeiçoamento.
Cabe ao professor guiar os alunos pelos processos de aprendizagem de todas as competências e dos que são necessários para o ajuste autónomo da afinação, ajudando-os a desenvolverem um método de estudo adequado. Por dependerem, neste processo, em absoluto, da orientação do professor, a intensidade da abordagem está fortemente limitada pelo reduzido tempo de aula, tendo os alunos com maiores dificuldades menos possibilidades de melhoria.
Em muitos destes casos, trata-se dos alunos que, impulsionados para o estudo instrumental por altura do ingresso ao 5.º ano da escolaridade, não tiveram oportunidade de passar pelas fases iniciais do desenvolvimento e da aculturação musical, ou seja, sem a instrução prévia desejada que oferece o curso de iniciação. Excesso de nova informação, falta de tempo para a sua assimilação e a complexa prática instrumental, dificultam os seus progressos. Segundo a teoria de Gordon (2008, p. 119), apresentam estes alunos uma forte probabilidade de insucesso na sua aprendizagem.
É por isso importante, que os primeiros anos sejam dedicados à compensação do desenvolvimento das aptidões que os seus pares, mais avançados, já adquiriram. Apesar de seu grau de desenvolvimento cognitivo permitir uma aprendizagem mais veloz, os processos
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do desenvolvimento auditivo e técnico não podem ser apressados e o ritmo individual de assimilação do aluno deve ser respeitado.
2.7.1. Identificação dos problemas - Causas e equívocos de problemas de afinação
A aprendizagem da afinação é um processo complexo, lento e pluridisciplinar, pelo que as correcções rápidas do tipo “penso rápido”, não resultam. Para que as correcções sejam eficazes é necessário ir à origem do problema, dedicando-lhes uma quantidade considerável de tempo e de atenção. A informação sobre este tema é escassa e dispersa, revelando-se, na prática, a necessidade do aprofundamento dos conhecimentos específicos.
O objetivo deste trabalho é evidenciar todos os processos envolvidos no estabelecimento da boa afinação, para que uma melhor compreensão dos mesmos ajude a identificar, precocemente, as causas dos seus problemas, ajude na sua prevenção e na solução mais eficaz. A identificação das causas e das origens do problema é, por isso, o primeiro passo lógico que se segue.
As causas da má afinação podem dever-se a vários factores. Alem da já mencionada falta de tempo de orientação do professor que pode originar a instrução incompleta, facilitismo da precisão e a criação de um modelo de afinação deformado, existem muitas outras.
Raramente a sua causa reside numa única origem, tratando-se, de um problema complexo que envolve vários tipos de dificuldades. Identificar com a precisão a sua origem e as causas é o pré-requisito e o primeiro passo na sua solução.
Nas fases iniciais da instrução apenas o professor possui esta capacidade do diagnóstico, mas o seu objetivo a médio e longo prazo será desenvolver, nos alunos, a aptidão da audição atenta e analítica e auto-observação, que os permita monitorizarem os próprios progressos. No quadro 24 estão listados apenas alguns dos problemas da afinação mais frequentes:
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Auditivos Técnicos Psicológicos e cognitivos
Auditivos: falta da instrução preparatória; incapacidade da audiação; falta de sensibilização auditiva; incapacidade da afinação absoluta ou relativa; incapacidade de detecção da tónica; dificuldade na percepção mental dos elementos auditivos
Físicos: insuficiente domínio da técnica instrumental da mão esquerda; propriocepção e sentido cinestésico, afectados pelo crescimento rápido e estudo individual ineficaz; má postura; incapacidade da correcção rápida Mecânicos: cravelhas ou
esticadores disfuncionais; factores ambientais; cordas de pouca qualidade
Atitudinais: sentido crítico pouco apurado; impaciência e falta de persistência na solução dos problemas;
Metacognição: incapacidade de detectar e analisar a origem do problema; incompreensão da problemática ou da sua importância,
Auto-eficácia: falta da motivação para a correcção, stresse, falta de autoconfiança.
Auto-regulação: insuficiente autonomia do aluno: inadequado método de estudo e insuficiente tempo da implementação das estratégias correctivas Quadro 24: Causas/tipos dos problemas da afinação
Caso o aluno demonstre dificuldades no campo auditivo, o treino destas competências deve ser, como previamente referido, abordado de forma mais intensa nas aulas de apoio em estreita ligação com o professor da disciplina da FM.
Ao serem identificadas dificuldades substanciais ou intransponíveis, o professor deve criar no aluno as espectativas reais e possivelmente desencorajar o seguimento dos seus estudos no instrumento de afinação livre. Em alternativa poderá aconselha-lo a perseguir um outro objectivo que mais se adequa às suas capacidades.
A resolução dos problemas técnicos inicia-se com o seu diagnóstico na sala de aula e estende-se para o estudo individual. As adequadas medidas correctivas, as instruções claras por parte do professor e a sua execução disciplinada e paciente, surtirão seguramente os seus efeitos no caso dos alunos mais preocupados, conscientes e persistentes.
- 111 - 2.7.1.1. Problemas atitudinais
As causas dos problemas atitudinais poderão ter a sua origem tanto no professor como no aluno. Apesar de poderem derivar da instrução insuficiente e pouco orientada para a problemática, por parte de vários professores envolvidos, da fraca exigência ou da inadequada correcção do professor, a sua origem reside, normalmente, no aluno.
O estudo lento e minucioso, essencial para o melhoramento da afinação, não agrada jovens músicos que ignoram as indicações dos professores, desculpando-se com a ineficácia do método e a falta do tempo, demonstrando a impaciência, inapetência ou mesmo aversão. Partindo do princípio que o aluno possui boas capacidades auditivas, mas não efectua as devidas correcções, revela uma atitude de indiferença perante o problema que é pior do que a própria falta da precisão (Flesch, 1939, p. 21). Esta reflecte-se geralmente em toda a sua relação com a aprendizagem, contudo, tende a piorar perante a complexidade do problema da afinação.
Qualquer intervenção correctiva da afinação será inútil, se o aluno não estiver consciente da sua causa e necessidade e sem que primeiramente exista uma forte vontade para o seu melhoramento (Graves, 1963, citado em Walker, 2010, p. 15).86 Sem desenvolver a atitude adequada, o aluno nunca melhorará.
O espírito autocritico com elevados padrões de exigência deve ser, por isso, incutido em todos os aspectos e não apenas na afinação. Através do rigor na correcção, o professor criará no aluno uma aversão instantânea à correcção e interrupção, desencadeando nele a adopção das medidas preventivas e da autocorrecção.
Após algumas aulas de trabalho lento e minucioso, a sensibilização auditiva do aluno apurará espontaneamente (Flesch, 1939, p. 21), reflectindo-se na redução da necessidade das
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correcções e no estudo independente mais cuidadoso.87 Acrescida sensibilidade auditiva e a conscientização para as próprias fraquezas poderão causar alguma frustração do aluno que deverá ser encorajado na continuação do trabalho de melhoramento.
Para ajudar o seu aluno, o professor deve em primeiro lugar identificar qual das duas teorias do autoconceito de inteligência, de acordo com Dweck e Molden (2005), este adotou: a incremental ou de entidade. No caso do aluno que duvida na melhoria das suas capacidades, o tempo despendido e a abordagem do problema devem ser cautelosamente personalizados, evitando uma desmotivação ainda maior.
De seguida, o professor pode usar alguns dos mecanismos de regulação motivacional, tais como ajudar ao aluno a:
1. definir as expectativas elevadas mas realistas através da criação de metas atingíveis e dos comportamentos a modificar, orientações práticas e indicação das ferramentas úteis,
2. atingir níveis elevados de auto-eficácia, criando e dominando os processos e tarefas envolvidas e orientando com o feedback verbal apropriado, elogiar o esforço e a utilização autónoma das estratégias adequadas, repetir experiencias positivas,
3. desenvolver a motivação intrínseca adequando o nível da exigência ao alcance do aluno, atingindo estado de fluxo pelo equilíbrio entre a dificuldade e a capacidade e empregando os mecanismos motivacionais de forma autónoma.
Dennis (1975, citado em Walker, 2010, pp. 15-16) sugere o “Método do reforço positivo combinado com a aproximação progressiva ao foco final”. Nesta estratégia que visa premiar o esforço e não a precisão, o professor adapta o seu grau de exigência reduzindo-o primeiro e estabelecendo metas mais acessíveis. Ao facilitar o aluno na obtenção de bons resultados consegue mante-lo motivado enquanto vai tornando a aprendizagem sistematicamente mais exigente e menos tolerante. Segundo este investigador, devido a complexidade dos
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Fonte: BERGER, J. (2013) How Russia Makes Great Violinists http://teachsuzukiviolin.com/how-russia-makes- great-violinists/
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problemas da afinação, os alunos que recebem o reforço positivo apenas quando estão correctos, tendem a ficar frustrados mais rapidamente. A atitude do professor deve de modo geral permanecer calma, encorajadora e positiva, desafiando e motivando o aluno na sua busca de resultados cada vez melhores. Tanto o professor como o aluno devem ter a consciência que a conquista de melhorias será lenta e que deverá assentar no treino curto e intensivo mas regular e disciplinado.