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O termo “Espaço Público” só tem sentido no âmbito da cidade. Antes de falar de “Arte Pública” sente-se a necessidade de refletir sobre a cidade atual e enunciar alguns dos múltiplos problemas que incidem na implantação das obras de arte e seu contexto espa- cial e temporal.

A cidade enquanto uma referência geográfica e simbólica inclui uma grande variedade de espaços públicos que a caracterizam e que constituem a sua imagem (como parques, ruas, edifícios ou esculturas). Estes símbolos têm influência direta nos seus habitantes e no modo como interagem socialmente. Mas qual é afinal o papel do simbolismo do espaço urbano em relação à identidade social?

A abordagem deste será feita com base no estudo de Enric Pol e Sergi Valera de 1999, “Simbolismo do espaço público e identidade social. Cidades em paralelo”. Neste artigo apresentam-se algumas reflexões e conclusões sobre o que significa a expressão “sim-

bolismo de um espaço urbano”, que se pode dizer acerca do seu significado, qual é o

papel do simbolismo no espaço urbano em relação à identidade social e como este gera e consolida identidades urbanas.

Termina com a análise destes aspetos feita em quatro estudos empíricos realizados em distintos bairros de Barcelona e divide-se em quatro capítulos:

1. “Significado e simbolismo do espaço”; 2.“Simbolismo e Identidade Social”;

3. “Como um espaço se torna um lugar simbólico”; 4. “Bases Empíricas”.

Sobre a questão da definição do simbolismo do espaço urbano estes autores definem- no como uma componente básica e determinante no bem-estar social dizendo também que “Se existe uma boa identificação com a cidade, se existe uma identidade de lugar,

o nível de satisfação global do cidadão é mais elevado. As pessoas têm a necessidade de criar laços de identificação com um espaço físico próprio. É um processo que ocorre independente da qualidade estética ou monumental” (Enric Pol e Valera1999:42).

Já Kevin Lynch explicava também este conceito na sua afirmação de que um elemento ou espaço urbano entra no mundo percetível das pessoas ou das coletividades quando se reúnem pelo menos três características:

a) Identidade (o espaço distingue-se de outros, é apercebido como um todo autónomo no seu contexto);

b) Estrutura (existe uma relação entre o elemento e o observador e outros objetos; c) Significado (existe um uma implicação emocional e funcional para o sujeito).” (Kev-

in Lynch, 2011:113)

O conceito de apropriação é intrínseco a estes temas pois o sentimento de pertencer a um lugar ou de posse de o habitar ou de identificar com ele é comum a todos nós.

Em outros textos dos autores citados, analisaram-se componentes que também se encon- tram no processo de apropriação, descrevendo uma relação dialética e cíclica entre uma componente de ação transformadora e outra simbólica. As pessoas ou as coletividades transformam o espaço e incorporam-no nos seus processos cognitivos e afetivos de uma maneira ativa e atualizada. Através de uma interação simbólica estes reconhecem o con- texto em que se inserem e auto atribuem as suas qualidades como definidoras da própria identidade. “É um processo social urbano que requer tempo e se apoia na construção

A relação entre simbolismo e identidade social apoia-se na psicologia social. Segun- do esta, as categorias urbanas são um tipo de categoria social que os indivíduos usam para definir identidade social urbana. Esta identidade é o resultado de um sentimento de pertença a grupos sociais nos quais as pessoas se associam e identificam gerando um grupo do qual faz em parte as atribuições internas e externas.

Segundo os autores referenciados, a definição dos indivíduos e grupos tem como base a identificação com o contexto urbano em que convivem, num determinado nível de abst- ração: bairro, área e cidade patenteando as semelhanças e diferenças entre indivíduos ou grupos de outros bairros áreas ou cidades, com base nas seguintes dimensões que são os eixos sobre os quais se forma a identidade social urbana:

• Dimensão territorial (limites geográficos); • Dimensão comportamental (práticas sociais); • Dimensão social (estrutura e tipo);

• Dimensão ideológica (valores, crenças e culturas); • Dimensão psicossocial (estilo de vida);

• Dimensão temporal (memória coletiva).

Os espaços simbólicos urbanos são elementos de uma estrutura comum urbana inserida numa categoria social e que identifica um grupo social vinculado a este contexto capaz de simbolizar uma ou algumas das dimensões referidas. Facilita, também, a perceção de que quem utiliza o mesmo espaço é igual aos membros do grupo na medida em que se identificam com o mesmo. Assim, alguns espaços facilitam o processo de identificação social urbana e tornam-se muitas vezes símbolos de identidade.

Para que um espaço se torna um lugar simbólico, uma das primeiras explicações que se pode encontrar assenta na vida em sociedade, na vivência individual do objeto ou do espaço. O ato de criação do espaço público simbólico poderá ter uma dupla origem, em novos espaços, criados espontaneamente pela população, ou na planificação ou impulso intencional de quem tem poder para concretizar uma ação de transformação do contexto. Aparece, assim, a diferenciação de dois novos conceitos: simbolismo primário e simbo- lismo posterior.

O simbolismo primário decorre quando é a estrutura social que promove a criação ou transformação de um contexto, com um desígnio ou uma intencionalidade determinada.

Esta tem a capacidade de exercer uma ação de poder podendo dotar o espaço público de forma, de estrutura ou de uma toponímia. Podem também ser realizadas valorizações definindo uma estética que perdure na memória coletiva. Nesta especificidade de sim- bolismo, o espaço simbólico é criado com um significado já previamente estabelecido que poderá ou não ser integrado como elemento que aglutina a comunidade. O reflexo destas características espelha-se na maioria das grandes ações urbanísticas na cidade e das intervenções artísticas no espaço público.

No entanto, segundo Pol e Valera, este tipo de simbolismo pode não ser bem recebido, no sentido em que a intervenção pode não se sintonizar com a sensibilidade da popula- ção recetora e constituir, por exemplo, um rompimento com a sua tradição.

O simbolismo posterior está presente nos espaços ou objetos que têm um papel ativo e que são de grande referência para a comunidade. Estes espaços vão ganhando sig- nificado ao longo dos tempos para cada indivíduo ou coletividade social. A partir da interação entre as pessoas, aqueles espaços tornaram-se lugares comuns, carregados de significados que atuam como elementos estruturantes da comunidade, não requerendo, então, a estrutura monumental e formal.

Acabamos por concluir, com estes autores, que os mecanismos psicológicos ligados à cognição, afetividade, interação, construção da identidade individual e social estão em parte explicados na interação com a envolvente a partir de processos simbólicos. A es- truturação intencional desta envolvente (já definida como o simbolismo primário) não é compatível senão com a construção social de um significado do lugar.

Da cidade fazem parte inúmeros espaços e lugares com um carácter simbólico e que não têm necessariamente de ser todos monumentais ou urbanisticamente excecionais. O simbolismo do espaço é construído pela população, apesar de a sua arquitetura ter mais ou menos irrelevância urbanística, fenómeno de grande fascínio e que diz muito sobre o que é a identidade do lugar.

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