Valores básicos individuais correspondem aos significados e motivos que as pessoas, inseridas numa determinada cultura, individualmente assumem para guiar suas vidas. Valores do trabalho, nesse sentido, são expressões específicas dos valores individuais gerais no contexto do trabalho. Ros; Schwartz e Surkis (1999) apresentaram um estudo sobre valores individuais básicos e valores e significado do trabalho. Utilizaram a teoria de valores
individuais básicos para gerar e testar hipóteses a respeito dos diferentes tipos de valores do trabalho. Os autores realizaram dois estudos, um com 999 pessoas em Israel a fim de analisar as relações entre valores básicos e valores do trabalho e outro com 193 professores e 173 estudantes de educação a fim de estudar o significado e importância do trabalho. Esses estudos levaram em conta que os valores do trabalho são crenças relativas aos estados ou comportamentos desejados no contexto do trabalho e que as diferentes metas de trabalho são ordenadas segundo sua importância como princípios orientadores da avaliação de resultados e de escolhas alternativas de trabalho. Apesar de serem mais específicos do que os valores individuais básicos, os valores do trabalho ainda assim consistem de conteúdos amplos, porque se referem aos resultados que as pessoas desejam e às interações com indivíduos e grupos, bem como influenciam as escolhas ocupacionais.
O enfoque de que valores do trabalho são expressões específicas de valores individuais básicos implica em que há quatro tipos gerais de valores do trabalho paralelos aos qua tro tipos motivacionais associados em dois pólos: abertura à mudança X conservação e autotranscendência X autopromoção. Ros; Schwartz e Surkis (1999), em seu estudo, levaram em conta quatro tipos motivacionais do trabalho: 1) valores intrínsecos ou de autoatualização; 2) valores extrínsecos ou de segurança e materiais; 3) valores sociais ou relacionais; 4) valores de prestígio e de poder.
Os valores do trabalho intrínsecos expressam motivações relativas à abertura à mudança tais como autonomia, interesse, crescimento e criatividade. Os valores extrínsecos expressam valores de conservação tais como segurança geral e manutenção da ordem da vida pelo trabalho. Valores sociais expressam motivações interpessoais relacionados a autotranscendência porque o trabalho é visto como um meio para estabelecer relacionamentos e para contribuição à sociedade. Os valores de prestigio e poder estão associados aos valores básicos de autopromoção.
Os resultados do primeiro estudo mencionado confirmaram que as motivações pessoais sobre o trabalho são estruturadas de forma semelhante aos valores individuais básicos e se apresentam em quatro tipos de valores: intrínseco; extrínseco, social e de prestigio. O segundo estudo demonstrou que para os professores o trabalho tem o significado de servir ao alcance de estabilidade social e estabelecimento de relações sociais; para os estudantes de educação o trabalho está associado com esses dois significados e com metas relativas a interesses de promoção social, independência e estímulo (ROS; SCHWARTZ; SURKIS,1999). Além disso, os autores destacaram que os estudos elaborados por eles sugerem um modo para distinguir valores específicos do trabalho que podem ser encontrados
em muitas culturas e que há uma estrutura dinâmica de relações de compatibilidade e de oposição entre diferentes tipos de valores do trabalho.
No Brasil, na mesma linha de Ros; Schwartz e Surkis (1999) o estudo e a validação de valores do trabalho foi desenvolvido por Porto e Tamayo (2003).
Segundo Porto (2005) as medidas de valores ocorrem por meio de perguntas que se fazem às pessoas sobre os motivos subjacentes à sua conduta ou por meio de questionários que apresentam uma lista de valores para serem avaliados ou classificados. A preferência por questionários estrut urados na psicologia baseia-se na premissa de que as pessoas são a melhor fonte de informações sobre elas mesmas e que dados obtidos desta maneira permitem a comparação entre indivíduos ou grupos o que possibilita a realização de estudos comparativos entre vários grupos de várias culturas. Quanto ao sistema de valores afirmou que consiste de uma estrutura cognitiva, carregada de afeto que contem um número finito de tipos motivacionais e que os tipos motivacionais são compostos por agrupamentos de valores. Afirmou que os valores podem variar segundo o lugar e cultura, todavia destaca que eles se agregam, em qualquer lugar, em tipos motivacionais que compõem uma estrutura de valores universal. Desta forma, as pesquisas buscam mensurar a prioridade axiológica de indivíduos ou grupos e não os seus valores em si. A autora destacou que a prioridade axiológica é uma hierarquia que diz respeito ao fato das pessoas ou grupos se diferenciarem pela importância relativa dada a cada tipo motivacional. Essa hierarquização consiste da prioridade axiológica individual ou grupal.
Porto (2005) afirmou que as pessoas apresentam uma estrutura ampla e inclusiva de valores que exerce uma função motivacional importante que está relacionada com aspectos fundamentais de suas vidas. Para cada aspecto da vida, tais como religião, esportes, política, trabalho, as pessoas apresentam uma estrutura de valores específica que está relacionada com a estrutura mais abrangente. Destacou entre outros os trabalhos de Schwartz (1999) e de Ros; Schwartz e Surkis, (1999) retro- mencionados que mostram uma abordagem do conceito de valores de maneira ampla e abstrata e que podem contudo, serem expressos em contextos específicos.
Porto e Tamayo (2008) afirmaram que o trabalho tem uma importância de destaque na identidade social das pessoas e, além disso, consiste de importante recurso para realização de metas individuais. Ressaltaram que a busca por trabalho reflete a busca por metas pessoais.
Nesse sentido, Porto (2005) afirmou que valores do trabalho consistem de crenças que as pessoas têm sobre metas ou recompensas desejáveis, organizadas hierarquicamente, que guiam as suas avaliações sobre o seu comportamento e resultados no trabalho.
Porto e Tamayo (2008) destacaram que os valores do trabalho apresentam características cognitivas, motivacional e hierárquica. O caráter cognitivo diz respeito ao conjunto de crenças que as pessoas têm a respeito do trabalho. O caráter motivacional diz respeito aos desejos que elas têm quanto ao trabalho. E o caráter hierárquico diz respeito a que as pessoas organizam suas metas e desejos quanto ao trabalho segundo o grau de importância pessoal. São considerados como valores intrínsecos àqueles referentes às metas e conteúdo do trabalho; valores extrínsecos aqueles referentes às metas obtidas por meio dos resultados do trabalho; valores de caráter social são aqueles referentes à procura de metas relacionais; e os valores de prestigio são aqueles referentes à procura por poder por meio do trabalho.
Com base ne ssa estrutura Porto e Tamayo (2003) desenvolveram uma escala de valores do trabalho. Para a construção dessa escala eles realizaram entrevistas e aplicaram questionários com perguntas abertas com trabalhadores e utilizaram levantamentos que encontraram na literatura. Após a análise de juizes e validação semântica, a análise fatorial apontou para quatro dimensões. Em face disso resultou o questionário que possibilita pesquisar quatro dimensões de valores do trabalho: 1) realização no trabalho: procura por prazer, estimulação e independência de pensamento e ação no trabalho; 2) relações sociais: referente à busca por relacionamentos positivos e à contribuição para a sociedade pelo trabalho; 3) prestígio: referente a exercer influência sobre outros e ao sucesso no trabalho; 4) estabilidade: referente à segurança e estabilidade financeira pelo trabalho. O quadro 6 apresenta os tipos de valores, tipos motivacionais e as respectivas motivações e valores básicos correspondentes.
Quadro 6
Tipos de Valores do Trabalho, Tipos Motivacionais e Respectivas Correspondências Motivacionais com os Valores Básicos de Schwartz
Valores do
trabalho Tipos motivacionais Motivações Valore Básicos de Schwartz
Realização Intrínsecos (auto-atualização) Abertura à mudança Hedonismo, estímulo, autodeterminação.
Relações sociais Relacionais Autotranscendência Universalismo, benevolência
Prestígio Exercício do poder Autopromoção Hedonismo, realização e poder
A figura 2 apresenta o esquema de correspondências de valores descritas no quadro 6.
Figura 2 - Estrutura de Relações Entre Valores Individuais Básicos e Valores do Trabalho
Do quadro 6 e da Figura 2 ressaltam as relações previstas de afinidade e de conflito entre os valores do trabalho a seguir descrito:
• Valores do trabalho de prestígio e de relações sociais igualmente colaboram para a busca de metas de valores de realização no trabalho e de estabilidade, mas conflitam entre si quanto à maneira de cooperar. Enquanto valores do trabalho de prestígio cooperam por meio de valores de poder e hedonismo, valores do trabalho de relações sociais cooperam por meio de valores de universalismo e de benevolênc ia.
Poder Segurança Conformidade Tradição Benevolência Universalismo Autodeterminação Criatividade e crescimento Estimulação Hedonismo Realização de sucesso pessoal Valores de Autopromoção
Valores do Trabalho de Prestígio
Valores de Conservação
Valores do Traba lho de Estabilidade Valores de Autotranscendência
Valores do Trabalho de Relações Sociais Valores de Abertura à Mudança
• Valores de realização no trabalho e de estabilidade ambos cooperam com as metas de trabalho associadas a prestígio e metas de trabalho associadas a relações sociais, mas conflitam entre si quanto à maneira de cooperar. Enquanto valores do trabalho de realização cooperam por meio do hedonismo e da autodeterminação, valores do trabalho de estabilidade cooperam por meio da segurança, conformidade e tradição.