2. THE ZEEBRUGGE HUB: PRESENTATION
2.3 GAS TRADING AT THE HUB
Atuando na cena musical alternativa do Recife desde os anos 2000, Juvenil Silva desenvolveu seu fascínio pela música motivado pelas músicas de Reginaldo Rossi que o pai ouvia e pelo grupo musical que tocava na igreja em que sua mãe o levava. Autodidata, ao mesmo tempo que começou a aprender violão, passou a ter maior contato com os discos de rock emprestados pelos amigos mais velhos que já tinham referências musicais mais consolidadas. Assim como a sua alcunha de Juvenil, os amigos, quase dez anos mais velhos que Juvenil, também foram responsáveis pela construção do seu gosto musical, formada basicamente por cânones do rock da década de 60 e 70, como the Doors, Jefferson and Airplane‟s e Beatles. A partir daí, ele foi procurando as produções locais mais ligados ao rock da década de 60. “Eita, porra, essa psicodelia aqui nordestina. Esse Ave Sangria aí lembra, tá ligado? Jefferson Airplane‟s. Aí foi tipo vendo referência da galera que você gostava com a galera daqui, aí foi tipo, se identificando. De maluco e psicodélico mesmo”. (SILVA, 2019).
Aos 15 anos começou a tocar com a banda The Caves, que depois se transformou em Canivetes, fazendo um rock autoral, em português, e a maioria das músicas era de Juvenil. Com a ida do vocalista Marcionílio para São Paulo, Juvenil assumiu os vocais e, com o passar do tempo, foi assumindo a sua carreira solo.
Em 2013 Juvenil lançou o seu primeiro disco, o Desapego, que foi gravado sem muitas pretensões. Ele nos conta um pouco mais sobre o seu processo de gravação:
Eu gravei de maneira muito despojada. Assim, só curtindo mesmo, tomando uma, na casa de amigos, bem Lo-Fi assim. (...) Eu ia gravar um negócio meio folk e acabei tipo: „Não, velho, vou fazer um disco de rock and roll aqui‟. Aí deixei ele pra lá, com as gravações embriônicas assim. E peguei uma promoção no estúdio que estava rolando e falei: „Opa, essa promoção aí‟. Eu tinha acabado de sair da empresa que trabalhava, aí ganhei aquele negócio de seguro desemprego, FGTS. Aí falei: „Porra…‟. Aí gastei uma graninha pouca… Aí fui para o estúdio eu e o baterista só. Ele na batera, ensaiei duas vezes, eu na guitarra... Aí escolhi as músicas mais simples que eu tinha. Foi um disco meio que tipo só pra fazer, pra dar um start assim, tipo: „Vou fazer essa porra e pronto‟. Eu não tinha muita pretensão não.
Lançado logo no começo do ano, inicialmente Desapego não teve muita projeção, contudo, logo depois do carnaval, Juvenil se depara com a matéria60 do jornalista Silvio Essinger falando do seu disco no jornal O Globo, causando uma verdadeira transformação na carreira do artista recifense. Sobre a repercussão, Juvenil diz:
O disco, pra mim, nem é um disco interessante como os outros, mas, até então, foi um dos que mais teve projeção. Aí pronto, aí começou sair em várias imprensas, imprensa falando de imprensa, maior doideira e eu no meio. Aí eu comecei também a juntar a galera e dizer tipo: „Olha, não é só eu não, tem uma galera aí‟. E eu comecei a morar num estúdio feito esse, aí a galera começou a ensaiar na minha casa. Então, rolou, naturalmente, um grupo assim, um encontro de gente tocando e ensaiando. (...) Rolou de eu tocar em vários festivais, festival, festival… E aí rolou de começar a ganhar um grana com música na primeira vez na vida. Tipo, fui tocar no Rio ganhando doze conto, um cachê do caralho. (SILVA, 2019)
Logo na primeira faixa, a Hitchcock Rock, é perceptível sonoridade não muito polida do disco, possivelmente pelas limitações orçamentárias e/ou proposta estética Lo-Fi. A música que já vai num rock mais suingado, mais blues, lembrando um Chuck Berry mais comedido, mas que segue bem, de maneira simples, clara e sem muitas firulas. Na realidade, como Juvenil já apontou anteriormente, o álbum se trata de um registro com músicas simples, sem arranjos complexos e diretas. E acredito que a proposta funciona muito bem. Transitando entre o rock como em Hitchcock Rock e Mixturado; um folk mais enérgico vide Pomba Gira Violeta; e baladas tipo Meu Freewheeling do Bob Dylan e Desapego. E até transita entre sons mais suingados como a instrumental Tire o Peixe da Gaiola. Penso que Desapego, seja a
60
mais redonda, uma balada com arranjos mais simples, mas que funcionam bem. Numa intenção mais blues, os timbres do hammond brincam com os floreios das guitarras e, concomitantemente, dão a sustentação e para que Juvenil possa emanar os seus versos desapegados. Musicalmente, mesmo que seja um disco classificado como rock, não percebi referências diretas ao som das bandas do Udigrudi, contudo, conjecturo que seja, como o próprio Juvenil citou, mais uma questão de identificação com o que estava sendo produzido aqui na década de 1970. Isto é, buscando outras referências, outras tradições que não as já estabelecidas. Como ele sugere:
A gente está começando o negócio da gente, a gente não está imitando Alceu Valença e nem Lula Côrtes, não. Talvez a geração tenha dito: Não, a gente não está nem aí para o Manguebeat, não. O negócio da gente é… a gente tem os negócios da gente, a gente curte mais os anos 70. E lembro muito bem de eu negar muito o Manguebeat, tipo: „Que porra nenhuma. Odeio Manguebeat, não gosto, não escuto‟. Quando eu era mais novo… Eu sentia muito isso, de conflito de geração. É até uma coisa que eu estou confessando assim… tipo… de ser uma pirraça, de não parar para dar atenção direito, de ouvir direito. Tá ligado? (SILVA, 2019).