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O conceito de adolescência tem sido menos utilizado nas ciências sociais do que o de juventude (RIBEIRO, 2004), contudo este termo tem uso empírico muito expressivo, nas normas jurídicas e na própria condução das políticas públicas, além disso, alguns estudos que tratam deste grupo geracional nas ciências sociais também adotam o conceito de adolescência e juventude indiscriminadamente a exemplo de Adorno (1999 e 2000) e Mead (1988). Também há estudos relevantes que tratam de “adolescentes em conflito com a lei” (SCHUCH, 2003; M. NASCIMENTO, 2002; BRITTO, 2000a e 2000b; ASSIS, 1999).

Assim, quem escreveu sobre adolescentes e usou esse termo trouxe informações e influencias relevantes que não gostaria de desprezar. Privilegio uma terminologia que implica em maior afinidade com o caminho interpretativo que elegi, desta forma, utilizarei preferencialmente o termo juventude. Se eu uso adolescência no corpo do texto, sem fazer referência a como falaram os outros, será uma evidencia que deseja comunicar para que não me entendam como rígido nas minhas definições desta categoria.

É importante delinear que a perspectiva de juventude/ adolescência que trabalho rompe com explicações teóricas biologizantes e considera a adolescência/juventude, um fenômeno relativamente recente na história (aparecendo intensamente, tal qual se expressa hoje em nossa cultura, por volta do século XX), uma categoria edificada a partir de várias condições que a cultura ocidental-capitalista constrói para o ingresso no mercado de trabalho, as especialidades profissionais, ampliação do tempo de estudo, necessidade de mercado de consumo, enfim vários outros fatores que vão dosando a institucionalização deste grupo como uma etapa geracional da vida que se estende da saída da infância para o ingresso na vida adulta (ARIES, 1981; AGUIAR, BOCK e OZELLA, 2001; OZELLA, 2002; FRANCH, 2004; ALVIM, FERREIRA e QUEIROZ, 2004; RIBEIRO, 2004 e 2006). As modalidades de passagem para a vida adulta, a indefinição do futuro, dificuldades para ingressar no mundo do trabalho, relação com instituições de ensino, estigmas associando adolescência à “problema” (inconseqüente, bagunceiro, irresponsável), mobilidade, seu posicionamento familiar, são fatores que dizem deste grupo.

Feixa comenta que a juventude/adolescência é uma “construção cultural, relativa no tempo e no espaço”(1998:18)30. Ademais, acrescenta que “as distinções de gênero, merecem

uma atenção particular, pois o acesso a vida adulta nunca tem o mesmo significado para os homens, para as mulheres ...”(i1998:19)31. Além disso, não há apenas uma

adolescência/juventude (adolescente/jovem), mas várias. Irei tratar especificamente neste meu trabalho é a adolescência/juventude de homens de bairros populares de Olinda.

O termo “homem jovem” que adoto aqui não é uma construção pessoal, mais uma nomenclatura que vem sendo cada vez mais utilizada por especialistas (LYRA, 1997; LYRA e MEDRADO, 1999 e RIBEIRO, 2006 para citar alguns) e organizações sociais32 para especificar

de que grupo está tratando, levando em consideração situações, fatos, vivências e demandas específicas deste grupo, que tem sido analisado basicamente a partir de dois referenciais (gênero e geração) e sendo sensíveis a fatores de classe, raça e sexualidade.

Por fim, gostaria de fazer referencia que boa parte da literatura que trabalha com histórias de vida e narrativa procura trabalhar com sujeitos adultos e idosos, bem como histórias de pessoas que já morreram (QUEIROZ, 1953; 1988; PISCITELLI, 1993; KOFES, 2001 e CORREIA, 2003 para citar alguns). Enfim, retratam uma vida que atingiu uma certa maturidade e esta idéia permeia as produções, porque se acredita que neste estágio tem histórias e experiências para narrar. A opção por trabalhar com jovens com esta técnica parte de um referencial metodológico explicitado no capítulo anterior, mas também gostaria de dar evidencia ao fato deste grupo que pesquiso a juventude pode ser a última fase de suas vidas – dado o enorme contingente de homens jovens, pobres e negros que morrem. Estes homens jovens deste trabalho expressam esta realidade, as histórias por ele narradas e aqui focalizadas não deixam dúvidas. Neste sentido, a maturidade alcançada com a vida adulta ou a senilidade, não representa a vida de muito destes jovens, apesar de em muitas histórias emergirem enquanto projetos de vida.

30 Original: “construcción cultural”, relativa em el tiempo y em el espacio.”

31 Original: “las distinciones de género, merecen una atención particular, pues ele acceso a la vida adulta nunca ha significado lo mismo para los hombres, para las mujeres ...”

32 Algumas organizações nacionais e internacionais vem adotando este termo homem jovem em publicações

específicas. PROMUNDO; PAPAI; ECOS e Salud y Género. Projeto H – Série Trabalhando com homens jovens. São Paulo: 3 Laranjas. 2001. WORLD HEALTH ORGANIZATION, Department of Child and Adolescent Health and Development. What about Boys, a literature review on the health and development of adolescent boys. WHO/FCH/CAH/00.7 Geneva, WHO, 2000.WORLD HEALTH ORGANIZATION, Department of Child and Adolescent Health and Development. Boys in the picture. WHO/FCH/CAH/00.8 Geneva, WHO, 2000. WORLD HEALTH ORGANIZATION, Department of Child and Adolescent Health and Development. Working with adolescent boys, a

workshop report. WHO/FCH/CAH/00.9 Geneva, WHO, 2000. Estas publicações tem interesse informativo e

educativo principalmente no que se refere a dar visibilidade e importância em ações que focalizem este público devido a vulnerabilidades constatadas no se refere a exposição a situações de violência, risco e vulneralidade em DST/AIDS e drogas e o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos.

Na introdução houve um mapeamento do perfil dos homens jovens “infratores” atendidos pelo sistema sócio-educativo, abaixo tem um pequeno quadro geral com algumas características dos quatro homens jovens que foram participantes centrais desta pesquisa.

Quadro 1: Características gerais dos homens jovens entrevistados Nome Idade Última

série concluída

Ocupação atual Raça /

Cor Situação conjugal Filhos Pessoas com quem mora (parentesco)

Will 21 3ª série Educador de Hip-

hop e Diarista de uma Pizzaria

Negro Casado 01 Companheira e

filho.

Toco 21 3ª série Vendedor de

Algodão-doce Negro Solteiro 0 Mãe, um irmão e uma irmã.

Derick 19 1º grau

completo Técnico em manutenção de microcomputadores

Moreno Solteiro 01 Mãe

Dinho 22 4ª série Segurança de uma

banda de Brega Moreno Solteiro 01 Mãe, um irmão, uma irmã e um filho.

Os nomes atribuídos aos jovens também foi alvo de negociação com eles mesmos. Todos foram consultados em relação a como gostariam de ser apresentados nesta pesquisa. Alguns preferiram ser reconhecida por um apelido que não os deixa totalmente anônimos Dois dos jovens (Will e Toco) sugeriram ser nomeados com seus pseudônimos/apelidos, usualmente utilizado em suas relações comunitárias, os dois também participaram do vídeo comentado no tópico anterior. DDL também participou do vídeo e manteve-se interessado em mostrar sua imagem, contudo optou por utilizar suas iniciais. Já com Dinho, estou utilizando um nome fictício, por um interesse pessoal em preservar seu anonimato.

A princípio tive dúvidas quanto à dimensão ética de utilizar nomes que possam reconhecer os próprios jovens, já que muitos episódios pessoais foram aqui retratados. Não seria possível medir o impacto positivo e/ou negativo desta experiência em suas vidas. Como um dia comentou Will (um dos jovens que fez esta opção), ao criticar “Cardinot” um apresentador de Programa televisivo local, “ele não mostra o desespero que o ladrão vive, sua vida, os preconceitos, para chega a roubar.... só rotula de alma-sebosa e diz que não deveria ter existido”. Will, em outro momento também comentou que se não pudesse colocar o seu nome, poderia utilizar “qualquer um”. A dimensão da visibilidade e reconhecimento social, parece ser algo bastante relevante para estes jovens, fator que já vem sendo apontado por algumas

pesquisas (a exemplo de SOARES, 2000). Assim, resolvi acatar suas solicitações levando em consideração a autonomia de suas vidas e principalmente a dimensão política desta ética de enfrentamento às “imagens” de jovens infratores que percorrem a maioria dos meios de comunicação33. Na próxima parte da dissertação, à medida que for apresentando as histórias

dos jovens, irei pontuando um pouco mais como se deu a nossa relação.

33 Além disso, esta postura não fere o código de ética profissional, os Direitos das populações que são objeto de pesquisa a serem respeitados pelos antropólogos são: Ser informadas sobre a natureza da pesquisa; Recusar-se a participar de uma pesquisa; Preservação de sua intimidade, de acordo com seus padrões culturais; Garantia de que a colaboração prestada à investigação não seja utilizada com o intuito de prejudicar o grupo investigado; Acesso aos resultados da investigação, e; Autoria das populações sobre sua própria produção cultural. (fonte: http://www.unicamp.br/aba/secretaria/03_etica.htm . Acessado em: 25/02/2007).

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