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Comment le gérant peut-il innover ?

Dans le document L'avenir des gérants de fortune en Suisse (Page 46-49)

4. Futur lointain

4.5 Comment le gérant peut-il innover ?

Os estudantes, em suas entrevistas, demonstraram, em alguns momentos, impotência diante da situação de reprovação e também diante das situações que acontecem em sala de aula, referentes aos comportamentos e posturas dos educadores, com as quais não concordavam.

A discente de Psicologia, Carolina, afirma que foi reprovada e que não procurou fazer revisão de provas, mas aponta como um erro da professora o de disponibilizar a vista de notas somente de última hora, impossibilitando seu comparecimento:

Quando foi feita a última vista de prova todo mundo já tinha entrado de férias, foram dois dias depois das férias e eu já tinha ido pra minha cidade. Então eu cheguei lá na internet e olhei que eu tinha sido reprovada e, de última hora, a professora falou assim... ela soltou hoje e era hoje de tarde que era a vista de prova. Eu não tinha como voltar pra Uberlândia de novo. Fui reprovada sem nem tentar conversar com ela, fazer vista de prova, ver se podia fazer algo; porque eles falam que pode fazer algum trabalho, dependendo do professor, mas no meu caso não teve nada disso.

A estudante universitária afirma não ter tentado conversar e nem ter procurado depois, demonstrando ter se conformado à situação de reprovação embora, em outro momento de sua

entrevista, evidencie ter medo da marca negativa que isso possa ocasionar por ter que carregar tal vivência no currículo acadêmico.

Wellington, embora afirme ter sentido muita “raiva” de seu professor pela postura assumida em sala de aula e pelo sistema de avaliação, ao ser questionado sobre o que sentiu ao ser reprovado afirma que “não sentiu nada de mais” e que a reprovação foi para ele vista como “normal”, afirmando inclusive, com naturalidade: "reprovei (sic), faço de novo". Ao discorrer sobre sua “raiva” do educador quanto ao método avaliativo, conceituado por ele como "idiota", o discente ressalta: "já que eu tenho que fazer de novo com ele, não vai

adiantar nada...", demonstrando ter consciência que terá que deixar seus sentimentos de lado devido à situação concreta na qual se encontra.

Tais posturas remetem ao conto literário de Telles (1998) intitulado “O crachá nos dentes” que, juntamente com outros, constitui sua obra, “A noite escura e mais eu”. A elucidação de aspectos desta obra literária, em diálogo com alguns conceitos de Guareschi (1996; 1999), possibilita que algumas questões referentes às relações estabelecidas entre alunos e estudantes, relatadas em entrevistas, sejam compreendidas e analisadas de forma mais aprofundada e coerente.

O conto “O crachá nos dentes” é narrado por um cão adestrado de circo que, para obter sustento, precisava se exibir com um saiote de tule azul no picadeiro (Telles, 1998). Ao mesmo tempo em que parece que o drama pertence ao mundo animal, ele nos remete a visualização da real condição humana. A principal relação que o cachorro, personagem principal do conto estabelece, é com o dono do circo. Este é caracterizado como um “hábil treinador de roupa vermelha com botões dourados” (Telles, 1998, p. 52); o animal trabalha no circo e, quando resiste às suas tarefas, é punido com queimaduras em suas patas dianteiras (também chamadas de patas transgressoras) com a ponta de um cigarro aceso.

A relação que aqui se configura é marcada pela dominação, que, conforme nos esclarece Guareschi (1999), é a relação gerada pela cisão entre as pessoas, resultante da Revolução Industrial, onde algumas se tornaram proprietárias e outras passaram a oferecer a única coisa que possuíam, o trabalho. Neste conto de Telles (1998), o proprietário é caracterizado explicitamente como o dono do circo, e o cachorro é o que oferece o seu trabalho, sendo dominado, com requintes cruéis de exploração (visualizado no momento em que suas patas são queimadas por não conseguir atingir o potencial desejado para as tarefas que se submete a cumprir). Essa exploração, conforme Guareschi (1999), é uma consequência das relações de dominação e ocorre na maioria das vezes, o que caracteriza o modo de produção capitalista. Como resultado do capitalismo, sobra uma multidão de pessoas empobrecidas e descartáveis.

Em outros termos, Guareschi (1996) caracteriza a dominação como uma relação entre grupos e/ou pessoas, nas quais uma das partes expropria, ou seja, apodera-se das capacidades do outro, passando a tratá-lo de maneira desigual, o que configura uma relação de assimetria, injustiça e desigualdade. Essa forma de relação é facilmente visualizada em “O crachá nos dentes” (Telles, 1998), onde o personagem principal tem suas potencialidades roubadas, sua dignidade agredida e é tratado injustamente e de forma desigual.

O docente Alfredo, entrevistado, diz ter consciência de que na universidade existem problemas sérios no que se refere à relação entre professores e alunos, afirmando que:

Existem professores que são inflexíveis em relação ao atendimento, a marcar provas, tanto referente as datas quanto ao conteúdo etc; existem também professores muito rígidos, que chegam no primeiro dia de aula e informam aos alunos que as provas são tais, em tais datas, com determinado conteúdo e enfim, aquilo lá é lei e pronto acabou, não se mexe.

Alfredo diz presenciar, no Instituto do qual é oriundo que, havendo este tipo de tratamento direcionado aos estudantes por parte dos educadores, tais professores, “rígidos

neste sentido, costumam ter problemas com os alunos, existindo uma relação de antipatia em relação a eles”. As formas de relacionamento exemplificadas pelo educador entrevistado remetem às teorias supracitadas de Guareschi (1996) sobre dominação, que são marcadas pela desigualdade de um indivíduo no trato com outrem, configurando relações assimétricas e não pautadas em parâmetros de justiça.

Guareschi (1996) afirma que, para que o mecanismo de dominação seja entendido, faz-se necessário o entendimento do conceito de ideologia, que é definido por ele (e pela maioria dos autores, de acordo com ele), “como sendo o uso, o emprego de formas simbólicas (significados, sentidos) para criar, sustentar e reproduzir determinados tipos de relações” (p. 91). Tendo esta idéia como base, a ideologia serve para dar significado às coisas, para criar e sustentar relações justas, éticas, como também relações desiguais, injustas e assimétricas, ou seja, de dominação.

A ideologia vai criando sentidos, significados e definições de realidades determinadas. Tais significados apresentam-se dotados de uma conotação de valor, que pode ser positiva ou negativa, o que resulta em juízos de valor, estereótipos, discriminação e preconceito; as qualidades e características valorativas vão se unindo a determinadas pessoas ou coisas, e estes estereótipos, quando negativas, geram e dão sustentação as relações de dominação (Guareschi, 1996).

O personagem principal de “O crachá nos dentes” apresenta-se da seguinte forma: “Começo por me identificar, eu sou um cachorro. Que não vai responder a nenhuma pergunta, mesmo por que não sei as respostas, sou um cachorro e basta” (Telles, 1998, p. 51). Parece que o personagem expõe-se conformado com o estereótipo que carrega, de cachorro, mesmo

dando a impressão de ser humano em alguns trechos do conto, o que demonstra que a sua percepção de si mesmo está afetada.

Não fica claro se o personagem é um animal ou ser humano, e as pessoas ao redor do personagem duvidam, muitas vezes, de que ele seja um cachorro, o que se exemplifica pelo trecho: “Aprendi também a rezar. Gosto muito de ouvir música e de ficar olhando as nuvens. Mas sou um cachorro e quando alguém duvida, mostro as palmas das minhas patas queimadas.” (Telles, 1998, p. 54). Talvez a forma como vive o leve a comparar-se com um animal ou talvez ele se veja assim, sem o ser, considerando-se o processo de dominação adestrador.

Na sociedade atual, o adjetivo cachorro, quando dirigido a uma pessoa, apresenta sentido pejorativo. Tendo isto em vista, o fato de que o personagem principal do conto literário de Telles (1998) se vê como um cachorro e se conforma com isto, demonstra sua estereotipação negativa, o que justifica a relação de dominação à qual se encontra submetido. O personagem, inclusive, acredita ser melhor viver sem indagar o que lhe acontece, o que se explica pela fala do personagem “Melhor assim. Fico na superfície, sem indagar da raiz, agora não” (Telles, 1998, p.51), o que sustenta a relação de dominação vivenciada.

Parece existir uma necessidade de “adestramento” em busca de um indivíduo dirigido para a correta prestação do trabalho e, considerando isto, pode-se observar que o personagem se encontra neste processo, quando afirma:

Às vezes, fico raivoso, meu pêlo se eriça e cerro os maxilares rolando e ganindo, quero fugir, morder. Mas as fases de cachorro louco passam logo. Então, componho o peito, conforme ouvi o treinador dizer, não sei em que consiste isso de compor o peito, não sei, mas é o que faço quando desconfio que não estou agradando: componho o peito e volto à normalidade de um cachorro manso. Doce. (Telles, 1998, p. 52).

A estudante de Psicologia, Carolina, parece ter se conformado com o fato de que fora reprovada e não buscou outras alternativas para que a situação pudesse ser modificada, embora tenha demonstrado conhecer a existência de professores, no Ensino Superior, que ofereçam oportunidades para que o aluno recupere as notas que tenha perdido nos processos avaliativos e possam então reverter a reprovação.

Wellington, ao afirmar sentir “raiva”, parece se comportar como o personagem do conto, aparentando não acreditar valer a pena que sua raiva seja manifesta, tendo em vista o fato de ter que cursar novamente a disciplina com o referido professor. Seria o conformismo que motiva este tipo de postura do aluno? Ou seria o medo de que, o fato de expressar sua forma de pensar quanto àquilo que não concorda referente a forma de agir e ministrar as aulas e avaliações de um professor possa gerar perseguição por parte deste?

Estaria o discente, então, subordinado a uma dominação ideológica que o impede de se manifestar e de discordar de seus professores? Será que, como o personagem, o estudante também assume a postura de não questionar o que lhe acontece, de preferir seguir o exemplo do personagem, que decidiu não questionar e justificou, dizendo: "Melhor assim. Fico na superfície, sem indagar da raiz, agora não” (Telles, 1998, p. 51). Estaria o aluno universitário, em muitas situações, motivado pelo medo e pela submissão, silenciando sua voz para aquilo com o qual não concorda? Estaria a educação universitária caminhando, em algumas situações, para os preceitos encarados por Bohoslavsky (1997) como a psicopatologização do vínculo entre o professor e o aluno?

Ao falar sobre o Ensino Infantil, Fontana (2005) afirma que na instituição escolar o professor (adulto) e o grupo de alunos (crianças) ocupam lugares hierarquicamente definidos e que, em função disso, a ação pedagógica docente “imprime marcas nessa relação, instaurando modos de interlocução e controlando (de diferentes formas e com nuances diversas) os sentidos em circulação no processo de elaboração conceitual” (Fontana, 2005, p.

30). Será que no Ensino Superior a realidade é equivalente, ou seja, a hierarquia na relação entre docente e graduando se mostra suficiente para proporcionar um distanciamento que influencie de forma negativa nos processos de ensino-aprendizagem?

Se para o adulto a relação de ensino é explícita, para a criança esta relação de mediação também o é, pois ela carrega a imagem, estabelecida socialmente, de que ela e o professor têm papéis bem definidos. Na infância, o indivíduo possui seus conceitos espontâneos e, por meio deles, procura acompanhar o professor, raciocinando, buscando reproduzir as operações lógicas que ele utiliza e, assim, cumprindo o papel a ele designado, a saber: de seguir as explicações dadas pelo educador e realizar as atividades que forem por ele propostas (Fontana, 2005). Este delineamento da realidade a partir da ótica infantil remete à idéia de um indivíduo visto como mero receptor do conteúdo no processo educacional, e não como agente no seu processo de aprendizagem.

Esse panorama parece se repetir quando se visualiza a forma como muitos estudantes se comportam na fase adulta, sem questionar e sem buscar o que está além do conteúdo proposto, aceitando as explicações e atividades indicadas pelos docentes como se fossem a única possibilidade, o que ocasiona uma formação pautada em pensamentos de que a forma adequada de se estudar e aprender é determinada pelo educador, e que o aluno não passa de um receptor que está à mercê de suas vontades. Muitos discentes sequer reclamam da condição atual na qual se encontram, mesmo que estejam insatisfeitos com ela, demonstrando uma condição de subordinação à figura do professor e de um processo educacional que, talvez, não tenha ocasionado emancipação. E podemos questionar: como ficará o futuro profissional se ele continuar trilhando este caminho, com esta postura subserviente? É este profissional que a universidade almeja formar?

A educadora Vera discorre sobre a relação entre professor e aluno no Ensino Superior como não podendo ser pautada em parâmetros de amizade - embora deva ser amigável - e

justifica que sua postura se ancora no desejo de proteger o aluno de submissão cega à autoridade do professor. Poderíamos dizer que seu posicionamento seria no sentido contrário ao panorama apresentado em algumas reflexões de alunos supracitadas, de não dominar ideologicamente os discentes com os quais entra em contato na situação de sala de aula, tendo em vista demonstrar existir em sua atuação, conforme outros trechos de sua entrevista, a valorização da reflexão e do diálogo em sua prática educacional.

Meira (2003, p. 63-64) postula com propriedade sobre esta questão42:

a universidade deveria colocar-se como um centro de atividade intelectual crítica, no qual se garantisse a socialização e a construção de conhecimentos, mas também, e principalmente, o exercício de reflexão e de conquista da autonomia intelectual que pudesse constituir-se em um germe fecundo do desenvolvimento do pensamento crítico.

As questões sobre a relação entre professores e alunos durante o processo de ensino- aprendizagem apresentadas neste capítulo apontam para o cuidado que a Universidade precisaria dedicar à dimensão humana que também constitui o aprendizado de uma profissão. Somente com a incorporação deste aspecto será possível a conquista, pela academia, dos importantíssimos aspectos acima elencados.

8. CONSIDERAÇÕES SOBRE A FORMAÇÃO DOS DOCENTES DO ENSINO

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