O litoral norte paulista é cortado no município de Ubatuba pelo Trópico de Capricórnio, fato que confere a região uma área de transição climática entre sistemas atmosféricos.
A posição geográfica tropical confere à área abundante suprimento de radiação solar, fato que, aliado à proximidade do oceano Atlântico fornece condições ideais para evaporação intensa, suprindo a atmosfera adjacente com importante fluxo de umidade (VICENTE, 2010, p. 23).
A Serra do Mar, parte mais elevada do relevo regional, funciona como barreira orográfica dos fluxos atmosféricos vindos do oceano e influencia diretamente na dinâmica climática local. A topografia exerce profundos efeitos nos padrões espaciais da precipitação (VICENTE, 2010). Segundo Monteiro (1973), a partir de sua divisão climática, o litoral norte (São Sebastião), cujo clima é controlado por massas equatoriais e tropicais, é regionalmente caracterizado por climas úmidos resultantes da exposição da costa a sistemas tropicais.
Em São Sebastião, área de estudo, o clima predominante na classificação Climática de Koeppen é Am que caracteriza o clima tropical chuvoso, com inverno seco onde o mês menos chuvoso tem precipitação inferior a 60mm. O mês mais frio tem temperatura média superior a 18°C. A Tabela 4.1 apresenta os dados de precipitação e temperatura para o ano de 2013 em São Sebastião destacando as informações de mês menos chuvoso e mais frio.
Clima em São Sebastião
Mês Temperatura Chuva (mm)
min. Média máx. Média Média
Jan 21,8 34,1 27,9 178,6 Fev 22,0 34,4 28,2 164,2 Mar 21,2 33,8 27,5 173,4 Abr 18,4 31,6 25,0 126,3 Mai 15,7 29,1 20,4 98,1 Jun 14,1 27,7 20,9 59,2 Jul 13,4 28,0 20,7 46,8 Ago 14,9 30,2 22,6 44,2 Set 16,9 30,5 23,7 67,0 Out 18,3 31,7 25,0 89,6 Nov 19,4 33,0 26,2 87,6 Dez 21,0 33,2 27,1 154,8 Total 1289,8
Tabela.4.1: Dados de precipitação e temperatura em São Sebastião para o ano de 2013. Organização: o autor. Fonte: CEPAGRI/UNICAMP, 2013.
O Gráfico 4.1 apresenta o comportamento das variáveis chuva e temperatura em razão dos meses do ano de 2013 em São Sebastião.
Gráfico.4.1: Climograma de São Sebastião para o ano de 2013. Elaboração: o autor. Fonte CEPAGRI/UNICAMP, 2013. 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 0,0 20,0 40,0 60,0 80,0 100,0 120,0 140,0 160,0 180,0 200,0
Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Chuva (mm) Temperatura
Precipitação e temperatura média em São Sebastião para o ano de 2013
De acordo com Monteiro (1973), o litoral norte está sujeito a menor participação das massas polares (30 a 40% de participação anual) e sofre menos invasões de frio do que os setores central e sul do litoral paulista. No entanto, as ZCAS (Zonas de Convergência do Atlântico Sul) tem atuação fundamental nos totais positivos de chuvas no Litoral Norte e consequentemente em São Sebastião.
Os tipos de precipitação da área dependem da época do ano, o período de outubro a março é chuvoso e úmido, com chuvas frequentemente convectivas e associadas a trovoadas, as temperaturas mais altas do ano ocorrem neste período, o verão. O período de abril a setembro é menos chuvoso e um pouco mais seco, enquanto que as chuvas são em geral de origem frontal e mais uniformes, nesse período (inverno) apesar de, na média ser acima de 18º, as temperaturas são baixas, caracterizando um inverno ameno (ROCHA, 2011).
O Serviço Geológico do Brasil (CPRM), empresa pública ligada a Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM) do Ministério de Minas e Energia, publicou no ano de 2010 o Atlas Pluviométrico do Brasil que compõem o Programa de Levantamentos de Geodiversidade. Este levantamento foi organizado a partir de informações sobre as chuvas obtidas junto a rede de hidrometeorologia nacional. A seguir apresenta-se um trecho da apresentação do Atlas onde é descrito quais suas informações básicas:
O Atlas, apresentado em um sistema de informações geográficas (SIG), permitirá o conhecimento em grande parte do território nacional do comportamento das precipitações anuais, trimestrais, mensais e diárias máximas anuais, do número de dias chuvosos, da Precipitação Máxima Provável (PMP) e das relações intensidade-duração-frequência (CPRM, 2017, web site).
Os dados do Atlas supracitado possibilitam a visualização das informações de precipitação média e total entre os anos de 1977 e 2006 para a área de estudo. O Mapa 4.5 apresenta a distribuição das isoietas dos totais trimestrais entre 1977 e 2006. Na sequência apresenta-se a análise sobre os dados.
Os totais trimestrais de precipitação no período de dados disponível qualificam a tese de que há duas áreas distintas em relação ao volume de chuvas: o sul e o norte do município. Nos quatro trimestrais é possível observar que as isoietas com os maiores valores se concentram ao sul. Para explicar este comportamento recorre-se ao fato de que as áreas ao norte sofrem influência direta da barreira orográfica de Ilhabela. As frentes frias que avançam pelo litoral são influenciadas por esta barreira e não atingem com maiores volumes de precipitação as localidades ao norte do município de São Sebastião.
Os dados de chuva e clima em São Sebastião possuem extrema relevância quando associados à dinâmica populacional local. Almeida e Carneiro (1998), afirmam que o Litoral Norte, e por consequência São Sebastião, apresenta uma coluna geológica quaternária que assevera que os episódios mais recentes de movimentos de massa espalhados pelas encostas íngremes, representam a continuidade de uma longa sucessão que antecede a presença do homem, mas que, no entanto, a sociedade local tem intensificado os processos por suas ações de retirada da proteção do solo e pelo uso inadequado de técnicas de corte de taludes.
As chuvas que são originárias de sistemas atmosféricos de escala regional e local, interagem com as características da superfície na área e podem levar a situações catastróficas. Cita-se aqui como exemplo a enchente que ocorreu no Bairro de Boiçucanga no dia 24 de fevereiro de 2013 (Figura 4.3). O Rio Boiçucanga transbordou inundando sua várzea imediata, infelizmente uma criança de 11 anos perdeu sua vida. Um ano depois, dia 14 de maio de 2014, em visita de campo, foi retirada uma fotografia que demonstra a mesma localidade com o mesmo diagnóstico, a ocupação urbana está “dentro do rio” (Figura 4.4).
Figura.4.3: Enchente no Bairro de Boiçucanga. Destaque para a ocupação das margens do canal. Fonte: Portal R711.
11 Disponível em: http://noticias.r7.com/sao-paulo/fotos/diluvio-em-sao-paulo-aguas-de-fevereiro-causam-
Figura.4.4: Rio Boiçucanga um ano após a enchente. A ocupação das margens persiste. Fonte: o autor, 2016.
A dimensão do planejamento territorial deve tomar parte dos conhecimentos sobre as interações entre atmosfera, superfície e uso e ocupação da terra, pois esta é uma combinação que leva a quadro de vulnerabilidade, riscos e ampliação de fragilidades potenciais e emergentes dos ambientes. A equação que coloca em um mesmo plano o uso inadequado da terra pela falta de planejamento, uma condição climática de chuvas intensas e um sítio natural com fragilidades potenciais e emergentes, pode resultar em um produto trágico para os habitantes e irreversível para o ambiente.