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i i Généralisation et interpolation

As instituições culturais do património incorrem em muitos riscos no ambiente digital. Elas temem perder o controlo sobre recursos digitalizados assim que eles entrem para a rede. Temem também prejudicar a sua reputação se, por exemplo, imagens dos seus recursos são usadas de formas e contextos inapropriados. Estes receios contribuem para manter as instituições indisponíveis para dar acesso online aos seus recursos.

Por outro lado, tendo como pressuposto que muitas das instituições consideram a propriedade intelectual como um obstáculo ao acesso a recursos culturais, defende-se uma solução operacional para permitir o acesso a recursos de grande valor, solução essa assente em determinados pré- requisitos bem definidos. Tal solução exigiria, então, que se fizesse uma distinção clara entre usos comerciais e usos escolares e educacionais; que se chegasse a um acordo com os detentores de recursos, acordo esse que respeitasse os seus (legítimos) direitos e lhes permitisse fornecer os seus recursos para usos não comerciais. Finalmente, estes usos teriam de estar enquadrados em ambientes protegidos, cuja utilização fosse permitida apenas sob contratos de licenciamento bem definidos. Apesar das vantagens inerentes, os ambientes protegidos são, naturalmente, muito exigentes em termos de set-up tecnológico, pelo que, além das grandes instituições de memória, trata-se de um serviço utilizado por organizações de renome, de carácter associativo, tais como o

Scottish Cultural Resources Access Network (SCRAN)140 ou a Mellon Foundation141. Esta não

140www.scran.ac.uk acedido em Julho 2003

defende o uso gratuito para todos os utilizadores, mas promove e apoia o uso escolar e educacional de recursos de grande qualidade. Segundo explicações de Donald Waters (responsável da fundação), “this whole notion of a protective environment is one that has to be aimed at particular sets of users for certain purposes, and that environment may not be available for free although it may appear to be free to the end user. (…) part of our policy is aimed at ensuring very high quality images and digital products. One of the things that we keep seeing is that if you are aiming for free you typically end up with lower quality, because people are not willing to give the high quality image out for free” (ibidem).

As instituições culturais do património devem, assim, ser incentivadas a participar na construção de ambientes protegidos e permitir usos licenciados dos seus recursos digitalizados por comunidades escolares e educacionais. Neste âmbito, além do importante apoio de instituições como a SCRAN e a Mellon Foundation, os governos nacionais e as autoridades regionais deviam apoiar a criação de ambientes protegidos que permitam o acesso (gratuito) a recursos culturais de valor elevado às comunidades referidas.

Capítulo 4 – Conclusão

Secção 1 – Sumário

Os recursos de herança cultural e científica constituem um valor fundamental para o presente e o futuro de cada nação, seja esta considerada em termos individuais, seja considerada em termos associativos. Além de constituírem uma base de conhecimento sem igual, os recursos em causa têm também um potencial de difusão e utilização comercial – através do recurso às NTIC - ainda por explorar. Porém, para que este potencial se concretize e para que as ALM consigam exercer as suas principais funções nesta nova era, é imprescindível que se assegure que estas instituições tenham capacidade para explorar completamente as oportunidades criadas pelo advento das tecnologias digitais. Decorrem daqui vários desafios que as instituições, detentoras da identidade e da alma dos povos, precisam vencer.

Desde logo nasce uma preocupação: para que os recursos culturais possam ser livremente postos à disposição dos cidadãos, e estes consigam, de forma eficaz, a eles aceder, há que incentivar e criar condições para as instituições recorrerem e adoptarem aplicações tecnológicas compatíveis, de

forma a garantir a interoperabilidade entre sistemas e metadata. Assim, deve-se encorajar a convergência nas abordagens e aplicações tecnológicas para as várias instituições culturais no domínio patrimonial e serviços de rede conexos, através da promoção de concordâncias sobre padrões e linhas orientadoras essenciais à gestão, preservação e exploração de conteúdo digital cultural e científico. Além destes esforços para aumentar o acesso aos recursos culturais, passando pelo dilema da sua preservação, as instituições culturais defrontam-se com mais problemas do que os de natureza essencialmente tecnológica. Os desafios associados ao core business das instituições culturais no domínio do património assumem também uma importância significativa. Por este motivo, a atenção que a análise de mercados promissores e o desenho de campanhas de marketing merecem é também relevante para o êxito das instituições culturais na era digital em que vivemos. Contudo, para que a resolução dos desafios referidos seja alcançada, é imprescindível que as instituições culturais se auto-examinem, de forma a se reinventarem em termos organizacionais, e, com isso, distinguirem as suas funções vitais das complementares, distinção essa tornada (quase) obrigatória nos tempos de mudança que hoje se atravessam.

Porque a concepção de organização adoptada neste trabalho se prende com um conjunto de elementos inerentes a uma qualquer entidade “produtiva” (ver Esquema 16, na pág. 125), o âmago da investigação desenvolvida centrou-se em torno dos desafios organizacionais que as instituições culturais têm que ultrapassar para que possam, com êxito, adequar-se às novas premissas da sociedade e economia actuais.

Depois de apresentado o modelo de interoperabilidade organizacional (conforme Esquema 18 -, na pág. 134) e a sua importância para enfrentar a dinâmica subjacente à lógica de funcionamento em rede, típica da SI, conclui-se que a intervenção nas instituições de memória deve centrar-se nos respectivos Capital Intelectual e Capital de Cooperação. Integrando os dois esquemas, torna-se visível quais os elementos organizacionais em que deve incidir uma acção, com vista ao processo de adaptação organizacional à nova realidade.

A intervenção ao nível do Capital Humano, incide directamente sobre as Pessoas, os Processos e as Rotinas, enquanto que a intervenção sobre o Capital de Cooperação, incide sobre o Ambiente Externo. O primeiro nível de intervenção tem como objectivo interferir na essência da instituição: ao trabalhar a sua ”alma”, reinventa-se a instituição, conseguindo-se a sua reorganização interna.

Esquema 20 - Níveis Recomendados de Intervenção para Adaptações Organizacionais à Era Digital

Fonte: EC, 2002b (adaptado)

Quando a acção recai sobre o Capital de Cooperação, a pretensão é destrancar o valor das colecções e recursos culturais da organização, incentivando o aumento da cooperação entre os detentores de conteúdo cultural (nomeadamente, as instituições de memória), a comunidade investigadora e os criadores de aplicações tecnológicas. Este incentivo materializa um objectivo deveras importante no contexto de incerteza em que se vive actualmente. Nele, as novas organizações culturais intermediárias que surgem, assumem um papel de relevo no êxito do processo de adaptação organizacional das instituições de memória. Com o auxílio governamental, lançado através de políticas de coordenação, estas organizações surgem para produzir e tornar as colecções digitais mais acessíveis e/ou para desenvolver ambientes digitais protegidos, constituindo uma fonte de segurança para as entidades subcontratantes. Estes são alguns dos exemplos que justificam que se encoraje as instituições detentoras de conteúdo cultural, as comunidades de

Missão e Valores Cultura Estratégia Gestão/Liderança Estrutura Capital Intelectual Capital Humano Pessoas Processos e Rotinas Capital Infra-estrutural TIC Procedimentos Colec ções Capital de Cooperação Ambiente Externo Capital do Utilizador Ambiente Externo INSTITUIÇÃO DE MEMÓRIA

investigação e as indústrias de TIC e multimédia a formar redes de cooperação e colaboração, com vantagens quer para a cultura, quer para o sector educativo, quer para a economia.

Tornar a eCultura uma realidade significa, portanto, inovar; adoptar uma postura de flexibilidade organizacional, de abertura e confiança no mercado, aderindo a redes de cooperação; fazer uso de métodos inovadores para se gerir, aceder, interpretar e preservar a valiosa herança cultural de que dispomos. Trata-se, no essencial, de transformar a informação espalhada em vários repositórios de herança em conhecimento activo, prontamente acessível através de novos canais - tais como a Internet ou os telemóveis - e adaptado às novas necessidades surgidas com o advento das NTIC. Desta forma, pomos a tecnologia ao serviço da cultura, pois, recorrendo a ela, a cultura fica disponível, independentemente da hora e do local, estando à distância de um clique.

As inovações decorrentes deste processo de renovação proporcionarão igualmente benefícios inestimáveis para o cidadão, para as comunidades e regiões que detêm esse património cultural e para o público em geral. Abrem novas perspectivas de intercâmbios culturais, possibilidades de acesso da informação a escolas e universidades, criação de novos itinerários turístico-culturais e o aparecimento de novas profissões no domínio da museologia e da gestão cultural, reforçando o papel das instituições nos serviços e produtos da economia e sociedade digital.