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A ética espinosiana busca o livre exercício do corpo e da alma. Sua espinha dorsal é a idéia de que o homem é parte imanente da natureza que possui a peculiaridade de não ser apenas parte e sim capaz de tomar parte na atividade da própria natureza. A natureza é a expressão imanente de uma atividade absolutamente infinita ou a substância, una e única, unidade infinitamente complexa constituída por infinitos atributos infinitos, isto é, por infinitas ordens de realidade diferenciadas, unificadas pela potência infinita de autoprodução e de produção de todas as coisas.

Os seres humanos, constituídos pela união de um corpo e uma mente, não são substâncias criadas, mas modos finitos de Deus. Ou, como demonstra Espinosa, são partes da natureza infinita de Deus.

O corpo humano é um modo finito do atributo extensão, isto é, um indivíduo extremamente complexo constituído por uma diversidade e pluralidade de corpúsculos relacionados entre si pela harmonia e equilíbrio de suas proporções de movimento e repouso. Sobretudo é um indivíduo dinâmico, pois o equilíbrio interno é obtido por mudanças internas contínuas e por relações externas contínuas, formando um sistema de ações e reações centrípeto e centrífugo, de modo que, por essência, o corpo é relacional: é constituído por relações internas entre seus órgãos, por relações externas com outros corpos e por afecções, isto é, pela capacidade de afetar outros corpos e ser por eles afetado sem se destruir, regenerando-se com eles e os regenerando. O corpo, sistema complexo de movimentos internos e externos, pressupõe e põe a intercorporeidade como originária.

Grosso modo, entende-se por substância o ser que existe em si e por si mesmo. A essência da substância é a existência em si e por si, a auto-suficiência (Chauí, 2001).

Se Espinosa subverte a tradição negando que o homem seja uma substância e um composto substancial, e afirmando que o corpo é uma individualidade dinâmica e intercorpórea, maior ainda é a subversão quanto à alma, pois não a define como substância simples alojada ou aprisionada no corpo, mas como idéia do corpo e idéia de si mesma. Expressão finita de uma força infinita, a mente humana é uma idéia de seu corpo e idéia dessa idéia, ou idéia de si mesma como idéia de seu corpo.

Espinosa começa negando que corpo e alma sejam substâncias finitas e demonstra que são modificações ou expressões singulares da atividade imanente de uma substância única e infinita. Portanto, a comunicação corpo e alma, de um lado, e de outro, a singularidade do homem como unidade de um corpo e de uma alma são imediatas. Em outros termos, a união corpo e alma e a comunicação entre eles decorre do fato de serem expressões finitas determinadas de uma mesma e única substância, cujos atributos se exprimem diferenciadamente numa atividade comum a ambos. Porquanto são efeitos simultâneos da atividade de dois atributos substanciais de igual força, corpo e alma não estão numa relação hierárquica de comando, o corpo comandando a alma na paixão e no vício, a alma assumindo o comando sobre o corpo na ação e na virtude.

Considerando que corpo e alma estão sob as mesmas leis e sob os mesmos princípios, expressos diferenciadamente, rompe-se, portanto, a longa tradição hierárquica que definira a alma como superior ao corpo e devendo ter comando sobre ele.

A alma (mens, a mente, na linguagem de Espinosa) é uma força pensante. Pensar é conhecer alguma coisa afirmando ou negando sua idéia. Pensar é ter consciência de alguma coisa e ser consciência de alguma coisa. Isso significa que a alma, como potência pensante, está natural e essencialmente voltada para os objetos que constituem os conteúdos ou as significações de suas idéias ou imagens. É de sua natureza estar internamente ligada a seu objeto porque não é senão atividade de pensá-lo. Assim, pode-se avaliar a inovação espinosiana ao

definir e demonstrar que a alma é idéia do corpo e idéia da idéia do corpo, ou seja, de si mesma como consciência de seu corpo.

A alma não é idéia de uma máquina corporal que ela observaria de fora e sobre a qual ela formaria representações. Espinosa demonstra com precisão: ela é idéia das afecções corporais. Em outros termos, é consciência dos movimentos, das mudanças, das ações e reações de seu corpo na relação com outros corpos, das mudanças no equilíbrio interno de seu corpo sob a ação das causas externas. A alma é consciência da vida de seu corpo e consciência de ser consciente disso. Deixa de existir, portanto, o problema metafísico da união entre a alma e o corpo: a essência da alma consiste na ligação a seu objeto de pensamento, o corpo. No entanto, não se deve considerar que a alma seria e teria imediatamente um conhecimento verdadeiro de seu corpo e de si. Pelo contrário. A alma começa e vive num conhecimento confuso de seu corpo e de si. Tem idéias imaginativas e vive imaginariamente.

Tal como os demais pensadores do século XVIII, Espinosa emprega as palavras "imaginar" e "imaginação" com o sentido de "perceber" e "percepção", ou seja, imaginar não é inventar pela fantasia (como hoje se pensa), mas perceber sensorialmente as coisas. Imaginar não é uma atividade da alma, mas do corpo. Afetando outros corpos e sendo por eles afetado de inúmeras maneiras, o corpo cria imagens de si a partir da maneira pela qual são afetados pelos demais corpos. Imaginar exprime a primeira forma da intercorporeidade, aquela na qual a imagem do corpo e de sua vida é formada pela imagem que os demais corpos oferecem do nosso e pelas imagens que ele produz deles. A imagem, por originar-se do sistema das afecções corporais, é instantânea e momentânea, volátil, fugaz e dispersa, não oferecendo a duração contínua da vida do próprio corpo, mas instantes fragmentados dela.

Desse modo, segundo Chauí (2000),

"a marca da imagem é a abstração, no sentido rigoroso do termo: a imagem é o que está separado de sua causa real e verdadeira e que, por esse motivo, leva a alma a fabricar causas imaginárias para o que se passa em seu corpo, nos demais corpos e nela mesma, enredando-se num tecido de explicações ilusórias sobre si, sobre o seu corpo e sobre o mundo porque fornece explicações parciais, nascidas do desconhecimento das

verdadeiras causas. Isso não significa, porém, como sempre afirmou a tradição intelectualista, que a alma esteja impedida do conhecimento verdadeiro de seu corpo, de si e do mundo, porque estaria essencialmente ligada a seu corpo como se encarcerada numa prisão" (Chauí, 2000, p.16). Nesse sentido, durante a Idade Média, Santo Tomás de Aquino (1225- 1274), já ressaltava a diferença entre as artes que dirigem o trabalho da razão e as que dirigem o trabalho das mãos: uma vez que somente a alma é livre e o corpo é para ela uma prisão, constata-se, por conseguinte, a superioridade das artes liberais em relação àquelas mecânicas.

Torna-se imprescindível dizer que o bloqueio à verdade não nasce do dualismo corpo-alma, e sim do fato de que a alma deixa a iniciativa do conhecimento ao corpo e este só é capaz de imaginar, pois não é de sua natureza pensar. O acesso ao verdadeiro abre-se para a alma quando esta assume sua natureza própria, isto é, o poder para pensar, quando, então, toma a iniciativa do conhecimento.

Aqui, mais uma vez, Espinosa inova de maneira radical. Longe de afirmar, como faria a tradição intelectualista, que tal iniciativa depende de um afastamento da alma com relação ao corpo, Espinosa demonstrará que, pelo contrário, será aprofundando essa relação que a alma poderá tomar a iniciativa do conhecimento. Para tanto, é preciso que se compreenda a forma originária da ligação corpo-mente.

Utilizando um conceito caro aos pensadores seiscentistas, Espinosa se refere ao desejo de vida do corpo e da alma com o termo conatus, que significa

esforço para se conservar na existência. Os humanos, como os demais seres,

são dotados de conatus, com a peculiaridade de que somente os humanos são conscientes de possuir o esforço de perseveração na existência. O conatus possui uma duração ilimitada até que causas exteriores mais fortes e mais poderosas o destruam. Definindo corpo e alma pelo conatus, Espinosa os considera como potências de existir e agir internamente indestrutíveis, portanto como vida. Assim, na definição da essência humana, não entra a morte. Esta é o que vem do exterior, jamais do interior.