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Article 2 : La sécrétion locale de GDNF par les astrocytes striataux transduits par

II. Futur de la thérapie de protection par le GDNF de la MP

Como dito antes, Van Gogh fez parte de uma série de eventos comemorativos ao centenário do pintor holandês, um documentário elaborado a partir de uma encomenda, fato que não diminui seu valor artístico, na verdade, por mais que tenha nascido em tal contexto, e mesmo sendo uma das primeiras obras de Resnais, tem grandiosidade em sua criação. Nessa última etapa da pesquisa, vamos promover uma junção entre o texto do filme e as pinturas selecionadas e combinadas na atribuição formal e significativa que constituíram no documentário.

Em Van Gogh temos uma relação muito próxima entre a imagem cinepictural e o texto biográfico narrado. Porém, quando analisamos o documentário percebemos que a imagem-fonte para a sua produção já trata de material sintetizado com valores significativos que, quando inseridos no contexto audiovisual, tem seu sentido de origem parcialmente afetado, já que a pintura em sua forma primeva, como unidade ‘narrativa’, passa a compor um grupo de imagens que detém uma discursividade pautada pelo encadeamento, ou seja, na sequência de planos que formam o todo.

Essas propriedades semânticas são comuns aos objetos que mesmo em suas formas mais simples já carregam algumas qualidades de leitura. As imagens figurativas são mais aceitas em sua interpretação em relação às abstratas por tal motivo, “qualquer objeto já é um discurso em si (...) qualquer figuração, qualquer representação chama a narração, mesmo embrionária, pelo peso do sistema social ao qual o representado pertence e por sua ostentação” (AUMONT: 2012 a, 90).

Se o cinema é um veículo de ‘contar história’, também o é a pintura. Narrar é contar algum acontecimento que pode ser real ou imaginário e para que esse evento seja relatado são necessários segundo Jakobson, seis fatores: o remetente, o destinatário, o contexto, a mensagem, o canal e o código, e a maneira como esses serão selecionados e combinados na construção da mensagem nos devolverá um determinado tipo de texto narrativo, como exposto no primeiro capítulo.

133 Apesar da influência primeva da narração literário teatral sobre o cinema, esse sistematizou um discurso que atende às suas necessidades audiovisuais.

A narrativa é um enunciado (...) que, no romance, é formado apenas por língua, no cinema, compreende imagens, palavras, menções escritas, ruídos e músicas” (AUMONT: 2012 a, 106, grifo nosso), o que implica em um corpus narrativo mais complexo.

A diegese está presente em qualquer mensagem discursiva, mesmo de forma elementar, e é caracterizada por um conjunto de elementos que são dispostos dentro de uma ordem formal (início, meio e fim) com o intuito de gerar significação. Essa ordenação é pertinente a qualquer criação, seja ela artística ou não, mediada pelo trabalho, ou seja, uma energia intencional depositada em uma ação criadora. “Nas configurações, sempre a ordem há de alterar o produto, pois ela própria é o produto. Pela ordenação dada, contexto e conteúdo passam a se interpenetrar e a corresponder-se” (OSTROWER: 2014, 97), é a disposição dos códigos mediada por um propósito que atribuirá um conceito a eles.

Entendemos que a ordem estabelecida pela seleção e combinação varia de acordo com a materialidade, por exemplo na pintura temos os elementos visuais, na verbal a palavra, no cinema, a imagem e o som em movimento. Porém, no documentário de Resnais em estudo, temos a junção desses códigos sígnicos distintos, que, apesar de incorporados no audiovisual, ainda mantém seus aspectos particulares. É o que faremos a partir desse capítulo, apresentar a relação entre a imagem pictural, o audiovisual e os textos: oralizado no filme, biográfico e a correspondência de Van Gogh.

Identificamos o texto de Van Gogh pela presença da voz-over, interpretada por nós, como a própria voz do tempo, histórica e cronológica. O texto narrado assimilado às pinturas eleitas supostamente refazem os rastros de uma vivência, que recuperam por meio de seus vestígios pictóricos e verbais a vida e a arte do pintor, o que possibilita a montagem de um mosaico estético – biográfico. O texto fílmico sonoro é definitivo na estruturação do curta-metragem, pois relembrando que as disposições das pinturas não obedecem aos critérios cronológicos, contudo, a voz over promove as amarras de forma linear, cronológica e histórica.

Vincent Van Gogh registrou em cartas seus diálogos familiares; questionamentos existenciais; sonhos e expectativas; devaneios e frustrações e ainda seus pensamentos e

134 ações artísticas. As produções biográficas sobre o pintor recorrem não apenas à sua obra, mas também às mais de seiscentas cartas deixada pelo artista. Encontramos o pintor nos mais diversos signos. Quando apreciamos as criações cinematográficas que o retratam, deparamos com suas pinturas e suas cartas direta e indiretamente: assim como há pinturas em suas palavras, há palavras em suas pinturas.

Os signos que configuram cartas e pinturas, ao serem possuídos por uma terceira forma artística, neste caso o cinema, passam por uma nova corporificação, em que a alteração estrutural é clara e os sentidos podem permanecer ou transformar-se totalmente. Esse evento pode ser percebido quando analisamos a obra ‘Pomares em flor cercado por cipreste’, em três campos da criação distintos: na palavra e na pintura de Van Gogh e no audiovisual de Resnais que os transcria. Segue o exemplo abaixo:

Arles

(fevereiro de 1888 – maio de 1889)

Esta manhã trabalhei num pomar de ameixeiras em flor; de repente começou a soprar um vento formidável, um efeito que eu nunca tinha visto aqui, e que voltava de tempos em tempos. Entrementes o sol, que fazia resplandecerem todas as ‘florzinhas’ brancas. (...) – há neste efeito branco muito de amarelo com azul e lilás, o céu é branco e azul (VAN GOGH: 2007, 201).

Nas palavras de Van Gogh é possível notar sua euforia pelo tema representado, esse momento é marcado por várias pinturas que tiveram como ‘modelo’ os pomares em flor: pereiras, ameixeiras, pessegueiros etc., que marcam sua chegada a Arles. As pinturas trazem em suas cores a excitação do pintor pelo local, mas em Resnais foram recriadas com sentido duplo: o entusiasmo e o declínio.

Entre a pintura e o fotograma ocorre obviamente uma maior proximidade pela representação imagética, porém, a palavra não se distancia muito delas, pois, ao descrever sua cores e modelos florais, Van Gogh evoca uma memória visual, e ao relatar detalhes cromáticos do tema arbóreo é possível ‘visualizar’ sua palheta, e o vento mistral que o obrigava a cravar com mais força seu cavalete ao chão e muitas vezes a ser rápido na execução de um tema.

135 A relação intersemiótica entre a palavra e a imagem que carregam o mesmo conteúdo, apesar da discrepância de suas fisicalidades, pode ser ‘vista’ como uma tradução que muda completamente a estrutura do signo, por exemplo, do texto literário para o cinema. E ainda, parcialmente alterado, numa forma hibrida como é o caso em Van Gogh, onde a palavra (texto narrado) caminha equidistante da imagem, porém, em diversos momentos a tange guiando seu sentido. Apesar das duas maneiras manterem vínculo com o objeto primeiro, no segundo caso a alteração mantém aspectos físicos da obra traduzida, pois percebemos valores pictóricos em Van Gogh, como a pincelada do artista plástico, o empaste de tinta, a escolha dos ângulos, dos enquadramentos etc., mesmo em se tratando de uma composição audiovisual.

É essa convivência sígnica mútua que define a diegese do documentário em estudo, que vamos discutir adiante. Para analisar a relação texto narrado oralmente e as imagens (audiovisuais e pictóricas) vamos utilizar os conceitos de diegetização, narração e psicologização, de Jacques Aumont, com o intuito de investigar como ocorre a junção, a montagem do verbal com o não-verbal.