A universidade carrega consigo suas próprias dinâmicas, pois falar da realidade acadêmica é discorrer sobre pluralidades. E nessa conjuntura, como se aprende a ser estudante? Como a socialização se insere nesse cenário? Ferreira (2009, p. 25) destacou que o termo ―[...] socialização deriva do vocábulo socialis, que significa camaradagem e companheirismo, e que também se refere a palavra socius, parceiro‖. Assim, segundo o autor, o sentido de pertença é profundamente ligado ao convívio e identificação com um grupo social. É o que também defende Paivandi (2014, p. 50), ao afirmar que ―toda socialização constitui um fenômeno interacional e um processo de aquisição de saberes que se impõe ao desenvolvimento de trocas e nos laços sociais‖.
A universidade oferece a possibilidade de explorar um domínio de saber, de aprender no quadro de uma disciplina fundada sobre uma linguagem e um conjunto de discursos, de teorias e de construções abstratas e complexas. A universidade propõe que se trabalhe em um projeto pessoal ou profissional, que se desenvolva uma nova autonomia intelectual e social. Essa transformação implica uma aculturação ao mundo universitário e uma mudança qualitativa de atitude diante do ato de aprender. (p. 44-45)
Para Ferreira (2014, p. 117) até mesmo os alunos com ótimo desempenho escolar se sentem estranhos nessa nova realidade. ―O que dizer, então, daqueles que chegam inseguros e com menos recursos de conhecimentos e de condições materiais, devido às suas deficiências escolares e de meios sociais populares?‖.
Coulon (2008) afirma que para muitos graduandos a dificuldade não se limita ao acesso, mas principalmente a permanência. O período inicial da vida do estudante na universidade é marcado por rupturas que se dão no processo de transição do status de aluno para a posição de estudante. Nesse contexto, filiar-se é fundamental para a continuidade nos estudos, onde se aprende o ofício de estudante para que, só assim, se torne um membro do contexto social universitário.
A primeira etapa do processo de filiação é o estranhamento, vivenciado aproximadamente até o final do primeiro mês. Durante esse período, a grande ruptura é emocional, externada com o sentimento de solidão. Outra dificuldade, vivenciada especialmente por estudantes de origem popular, são as limitações intelectuais e cognitivas. O trecho da fala do Jurista, estudante de Direito, transmite bem as aflições dessa fase.
Eu não tive professores capacitados que dessem aula de Filosofia, nem de Sociologia. Nem de Física, nem de Química. Mas eu estou em Humanas e essas são as disciplinas que interessam. Mas foi bastante frustrante, porque eu senti dificuldade inicialmente, foi algo que me desmotivou e me fez assim: ―Talvez eu não tenha nascido para o Direito‖. Porque eu não tinha essa preparação anterior.
O limitado capital econômico, social e cultural dos estudantes populares potencializa o estranhamento frente às exigências cognitivas e intelectuais da universidade. Além disso, a capacidade de concentração que deve ser aprendida, muitas vezes é insuficiente em virtude não apenas da ausência de práticas anteriores, mas de cansaço oriundo das duplas jornadas de alguns estudantes trabalhadores. Foi esse o caso de Ruth que, na tentativa de conciliar os estudos com o seu trabalho, confidenciou a seguinte situação:
Operadora de Telemarketing que é uma profissão extremamente estressante, cansativa. Eu trabalhava seis horas, mas assim… Pareciam 12 horas. Porque meu horário era de 12 as 6, eu saia de lá direto pra cá, sem jantar. Às vezes sem jantar. Aí tipo assim, isso também atrasou muito minha faculdade, porque eu já não estava mais assimilando as coisas. Minha mente a mil, só pensava em chegar em casa e dormir.
No grupo de entrevistados, Ruth e Hipotenusa foram as únicas que trabalharam formalmente durante os seus cursos. As duas abandonaram os empregos para continuarem em suas graduações. Narraram que sem essa decisão dificilmente conseguiriam a dedicação necessária para prosseguir seus estudos. Sobre essa realidade, Ferreira (2014) afirma:
Os estudantes das classes de renda superior podem ficar despreocupados com a sustentação material e têm condições de projetar percursos longos de formação, contando com o apoio financeiro e cultural das famílias. Ao contrário, no realismo cotidiano da vida acadêmica, os universitários das classes populares são constantemente atormentados pela angústia com o seu sustento material e com a cobrança moral dos familiares. Isso faz com que esses estudantes oriundos de famílias desfavorecidas economicamente, estejam mais ansiosos por uma rápida colocação profissional, estando menos disponíveis, no sentido financeiro e emocional, para uma longa formação tecnológica ou científica, evitando, normalmente, protelar o seu ingresso no mundo do trabalho. (p. 127-128)
Diante de contextos contraditórios, de resiliências e rupturas, a segunda etapa de filiação de Coulon (2008) é o tempo de aprendizagem que, segundo o autor, dura
até o primeiro ano. No período de progressiva adaptação, o estudante elabora estratégias cognitivas e institucionais para manter-se na universidade. É nesse momento que o estudante já deve perceber as especificidades da academia e as novas posturas que precisam ser adotadas.
Segundo Ferreira (2014), rapidamente os estudantes necessitam estabelecer competências mínimas no âmbito organizacional e social da universidade, ou seja, além da compreensão do funcionamento da instituição e suas instâncias, o estudante deve se integrar numa rede de interações sociais que interliga a execução de trabalhos e estudos acadêmicos e pode, muitas vezes, suscitar vínculos duradouros de amizades.
No que diz respeito às competências do estudante universitário, Coulon (2008) apresenta a terceira e última etapa: o tempo de afiliação. Para isso, o autor enfatiza dois tipos de indicadores, os institucionais e os intelectuais. No quadro a seguir, destaca-se os principais marcadores apontados pelo pesquisador.
QUADRO 3 - INDICADORES DE AFILIAÇÃO
INSTITUCIONAIS INTELECTUAIS
Saber interpretar corretamente as regras da universidade (explícitas e implícitas);
Gerência das diversas obrigações estudantis;
Habilidade de ―jogar‖ com as regras, inclusive por meios clandestinos;
Interpretação do que se espera de um estudante;
Capacidade de montar o seu currículo de acordo com suas necessidades e limitações;
Bons resultados nas avaliações;
Conhecer os dispositivos
institucionais que regem o cotidiano universitário;
Identificar e concluir trabalhos não solicitados explicitamente;
Elencar as estratégias que deve adotar no futuro a fim de atingir seus objetivos acadêmicos e profissionais.
Capacidade de criticar e contestar professores;
Conciliar a graduação com os demais aspectos da vida.
Fonte: Autoria própria a partir da obra de Coulon (2008).
Quando se elegeu a categoria de Socialização Formal, o foco foi a estrutura organizacional da universidade que visa o aprendizado das novas exigências, bem como os programas de permanência que buscam auxíliar o estudante ingressante
nesse novo cenário. Por conseguinte, os conteúdos das disciplinas, núcleos de assistência ao estudante, eventos como palestras e congressos, participações em bases de pesquisa, bolsas em programas de monitoria, tutoria, extensão e iniciação à docência, são os protagonistas em um complexo circuito formal de socialização no ensino superior.
A interlocutora Dentina frizou durante a entrevista, sua expectativa com auxílio financeiro para aquisição de instrumentos odontológicos. Para cursar os componentes práticos em sua graduação de Odontologia naquele semestre, a estudante necessitava de equipamentos no valor de três mil reais. Era março de 2016 e até aquele presente momento, o resultado do edital com a lista de deferidos ainda não havia saído. Sobre essa situação, desabafou:
[...] se você insere um aluno de nível inferior no curso... porque abriram as portas. Então se abriram as portas, porque realmente abre essa brecha de ter um aluno que não tem meios para pagar, que dê o suporte. Porque é obrigação da universidade dar esse suporte para esses alunos, que realmente necessitam e que seja providenciado logo, porque está fazendo mal tanto para psicológico do aluno como é humilhante também. E o que as pessoas não entendem é que a universidade… é que a universidade dê suporte para essas pessoas… Você dá a oportunidade, mas que o aluno possa lá dentro... Aqui... Por mais que universidade diga que vai lhe dar um auxílio, mas é uma demora, é como se fosse... ―Não estou nem aí para você, vou resolver o teu caso quando der‖. Bem descaso. É um descaso muito grande. Então, se dá o acesso, tem que dar o suporte. A gente tem que ser mantido por igual aqui. Tem que ser mantido na mesma forma, ter o mesmo respeito. E os professores justamente tem que entender que existe essa realidade.
A fala da entrevistada denota uma inquietação quando se observa a expressão ―aluno de nível inferior‖. Pelo contexto, infere-se que a estudante se referia aos aspectos econômicos. Todavia, essa interpretação pode ser ampliada à medida que se avança na leitura do fragmento, pois a sujeita salienta que os estudantes populares precisam ser tratados como iguais. Isto é, a inferioridade não se manifesta apenas nos aspectos financeiros, mas também nos âmbitos sociais, culturais e simbólicos. A narrativa carregada de sentidos complexos transmite muito pesar com as atuais condições de permanência dos estudantes populares na UFRN, além dos aspectos formais de socialização que visam o auxílio, na fala de Dentina é externada a deficiência desses programas.
Outro ponto abordado pela interlocutura é o papel dos docentes na permanência estudantil. Segundo Dentina, os seus professores não compreendiam a sua vulnerabilidade social. Partindo desse fato, é relevante destacar que imerso no processo formal de socialização, a função social do docente é determinante. Dentre as estratégias de permanência, a proximidade entre sujeitos é um diferencial para os estudantes que almejam se manter na vida acadêmica, como defende Ferreira (2014).
Aludir sobre os laços entre estudantes e professores suscita outro domínio da socialização que denominaremos de cordialidade acadêmica. Para compreendê-la, é necessário resgatar o conceito de homem cordial elaborado por Sérgio Buarque de Holanda, na obra Raízes do Brasil escrita em 1936. Nela, o historiador explicita o que, sob sua ótica, é a maior marca cultural do povo brasileiro: a cordialidade. O termo ―cordial‖ ao contrário do que se presume, não indica somente a simpatia e gentileza. A expressão vem do latim ―cordis‖, isto é, relativo a coração.
No ―homem cordial‖, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro — como bom americano — tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. (HOLANDA, 1995, p. 147)
O homem cordial pode ser definido, em linhas gerais, como um sujeito adaptado no seio familiar a objetivar vivências de simpatia e afeto, rejeitando as interações impessoais, sendo, ao contrário personalista e guiado, muitas vezes, pela passionalidade, até agressiva, característica das relações familiares. A cordialidade nega a polidez e deseja a convivência em sociedade, viver nos outros, como extensão do círculo familiar, possuindo uma grande aversão à individualidade, confundindo a vida pública como espaço privado. Assim, a cordialidade é um tipo ideal que pressupõe comportamentos da esfera afetiva como estratégias na vida social do brasileiro.
Na academia, esse traço cultural também é manifestado. Embora os estudos sobre a realidade universitária debrucem o olhar especialmente nos aspectos formais da vida estudantil, as esferas afetivas e, portanto, consideradas informais, são tão importantes quanto as demais. Ao versar sobre esse tema, Ferreira (2014)
destacou a presença da didática profana na vivência dos estudantes. Segundo o autor, é por meio dessa prática difundida nos encontros com colegas são transmitidas as ações mais recorrentes de estudos como truques, formas de negociação com os professores e também motivação para que permaneçam em seus cursos (Figura 12) Nesse cenário, as afinidades são decisivas para que os estudantes se agrupem, buscando, na maioria das vezes, conviver com sujeitos com uma trajetória de vida semelhante que a sua, como confidencia Dentina:
Sim, mas no início era extremamente difícil pela discrepância de vivência, porque eles têm uma vivência e eu tenho outra, porque... ―é‖ mundos diferentes. Então com tempo é que eu consegui inserir dentro de um grupo, eu consigo ter as amizades, mas justamente pela diferença de renda que eu me juntei com pessoas do mesmo jeito que eu.
FIGURA 12 - Amizade no setor V, UFRN. Fotografia de Dayse Araújo, UFRN, 2015.
Essa característica foi identificada em todos os depoimentos dos sujeitos. Seja pelos laços de amizade e apoios mútuos, em vários trechos destacou-se a importância da cordialidade acadêmica na jornada do ensino superior. Fato esse que pode ser constatado nos fragmentos a seguir:
Eu tenho apenas uma amiga aqui que eu ajudo ela e ela me ajuda… E a gente está sempre bem unida o tempo todo. O que ela estiver precisando, fala comigo e o que eu estou precisando, falo com ela. Então, a gente criou o vínculo de amizade nesse sentido. (Hipotenusa)
Assim, é muito bom, porque a troca de conhecimento e de vida é muito boa. É, tem uns que não são muito estudiosos, né? (risos). Aí a gente lida com isso e ajuda, eles ajudam. É muito legal assim... Você conhecer essas pessoas além do curso que você tem. (Barbotina)
Na cordialidade acadêmica, o estudante experencia, por meio das trocas com seus pares, a esfera socializadora de caráter afetivo e malandrice como uma das estratégias de permanência. Independentemente das lacunas e escassez de recursos financeiros, institucionais e simbólicos, o discente alcança, através da relação com o Outro, uma maneira positiva para sua aprendizagem e afetivamente calorosa de prolongar a sua vivência na universidade.
FIGURA 13 - Lanche e prosa no setor IV, UFRN. Fotografia de Dayse Araújo, UFRN, 2015.
Esse Outro, o indivíduo com quem se interage, não se restringe ao colega que partilha da mesma vulnerabilidade econômica ou o amigo que advém da mesma classe social privilegiada. Na teia universitária, as relações se entrecruzam em um emaranhando de conexões que ultrapassam os papéis sociais esperados. Docentes, funcionários, estudantes, mesmo com vínculos mais superficiais acabam ligados, de uma maneira ou de outra. Todavia, os laços mais firmes e duradouros não surgem
de causalidades, são frutos de escolhas por afinidades e objetivos em comum, sejam eles singulares ou múltiplos.