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5. RESULTS

5.6. Fungal and bacterial load in healthy subjects and UC patients’ groups

Como amplamente sustentado em nosso seção anterior (cf. seção 2.2.3), a Gramática das Construções postula um continuum essencial entre Gramática e Léxico. Em termos gerais, isso significa que o tratamento construcional se estende a todas as unidades da língua, sejam elas sintáticas, lexicais, mórficas, ou mesmo discursivas. Contudo, a tradição construcionista, como discutido nas seções anteriores, vem focalizando, de modo privilegiado, o nível sintático. Assim, o tratamento de construções morfológicas é um tópico que ainda encontra espaço estreito na agenda de pesquisadores construcionistas (RHODES,1992; BOOIJ, 2010 E FRIED, 2008, 2010).

62 Rhodes (1992, p. 415) faz uma importante articulação em favor da abordagem construcionista para a Morfologia. O autor, pertinentemente, destaca que a GrC foi uma teoria criada para lidar tanto com os casos gerais e regulares da língua, quanto com os casos de desvio de regularidade, relacionando desvios e regularidades através do estabelecimento de heranças. É, então, o tratamento dos “casos especiais” o grande diferencial da Gramática das Construções que permite, de maneira tão harmônica, o tratamento das irregularidades tão presentes e reconhecidas na Morfologia.

A concepção de morfema apresentada pelo linguista (cf. subseção anterior) permite uma articulação consistente com a teoria da Gramática das Construções (RHODES, 1992, p. 414). Considerando o pressuposto de que construções podem ser formadas a partir de outras construções menores que irão influenciar as propriedades e ter suas propriedades influenciadas pela construção maior, uma palavra pode ser considerada uma construção lexical e seus morfemas, entidades constituintes, como outros tipos de construções.

Na mesma direção, tratando da Morfologia construcional, Booij (2010) reafirma a importância do papel da construção na teoria morfológica. Contudo, a abordagem desse autor é baseada na palavra e não no morfema. Nesse sentido Booij (2010), diferentemente de Rhodes (1992), não considera o morfema como uma construção, mas como um esquema que faz parte da construção lexical.

Essa diferença de perspectiva não tem grandes influências na análise do item lexical em si, mas levanta uma questão acerca da concepção de “construção”. O que, fundamentalmente, está em jogo na distinção dessas duas concepções é se formas presas podem ou não ser consideradas construções. Para Booij (2010, p. 15), tal como Croft (2007), apenas formas livres são construções, não considerando, dessa forma, morfemas como signos linguísticos. Por outro lado, Rhodes (1992), em sintonia com Goldberg (2006, p. 5), considera os morfemas como construções, uma vez que envolvem o pareamento de forma e sentido. Nesse sentido, a presente tese se alinha à concepção de Rhodes (1992) e Goldberg (2006), elegendo o morfema como uma construção importante para a Morfologia e apostando em uma perspectiva mais ampla e abrangente dos fenômenos morfológicos.

Contribui ainda na direção dessa perspectiva integrada, o conceito de Léxico desenvolvido por Jackendoff (2002). Em sua Hipótese da Arquitetura Paralela, o autor, partindo de um conceito que considera o léxico como o lugar do conhecimento – e não das idiossincrasias – promove a distinção entre o conceito de palavra (padrão fônico,

63 dicionarizável que possui um padrão gramatical, como N, V, A, P, C, F, etc.) e de item lexical (unidade armazenada na memória de longo-termo que pode ser menor ou maior que uma palavra). Tal definição de itens lexicais, implicando unidades maiores e menores que as palavras (incluindo os morfemas, portanto), reforça a hipótese da comensurabilidade entre construções lexicais, mórficas e gramaticais. Assim, nos termos de Miranda (2009, p. 17-18),

(...) construções de “tamanhos” distintos são arroladas como itens lexicais, como, afixos (x-ista); expressões idiomáticas (Tô frito!); fórmulas interacionais (Quem fala?, De nada), gêneros textuais (carta, piada), dentre outras. Posto em dimensões bem claras, neste domínio do léxico “tamanho não é documento”! Regulado por regras e princípios que apresentariam naturezas específicas, o léxico é visto como uma rede de padrões construcionais, armazenada na memória e apresentando graus diferentes de complexidade e de especificação (itens lexicais abstratos9, semiespecificados, inteiramente especificados). Essa concepção flexível do léxico traz, a nosso ver, uma contribuição de alto relevo às teorias construcionistas, emprestando- lhes mais argumentos à afirmação da linguagem (e das línguas) como uma rede de construções.

Neste cenário ainda restrito de contribuições, o tratamento de construções morfológicas proposto por Rhodes (1992) representa um avanço analítico mais direto que passamos a sumarizar. De fato, uma das facetas exploradas em seu estudo em prol de uma agenda construcionista para a Morfologia é, nos termos do autor, “how to do it” (RHODES, 1992, p. 416). Esta é, pois, uma contribuição de relevo ao nosso estudo, uma vez que, para além das possibilidades teóricas de convergência entre o tratamento oferecido pela GRC à sintaxe e o tratamento que buscamos para o campo morfológico, interessa-nos como promover, de modo efetivo, a análise de construções mórficas em interface com os modelos de descrição (formais ou informais) oferecidos pela GrC em

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O autor postula a existência de padrões construcionais abstratos, puramente formais. Este é um ponto de divergência em relação aos pressupostos que estamos assumindo no presente estudo que, de modo irrestrito, afirma não haver entidades linguísticas, no léxico ou na gramática, que não sejam simbólicas; todas têm significado comunicativo porque derivam diretamente do USO linguístico (nota de Miranda, referente ao trecho supracitado).

64 seu modelo SBCG (cf. seção 2.4.2.1 sobre as formalizações oferecidas pelo Constructicon).

Por questões de clareza, traçamos, em breves linhas, uma definição da SBCG. Entendido como uma extensão formal do projeto construcionista de gramática, tal modelo vem buscando um aparato formal para a descrição de todos os signos (ou construções) de uma língua. Tal aparato se constitui de uma matriz de traços (estruturas atômicas) e valores (funções, com estrutura interna).

Sag (2010) apresenta o seguinte conjunto de traços para a descrição de um signo: FONOLOGIA, FORMA, ESTRUTURA ARGUMENTAL, SINTAXE, SEMÂNTICA e CONTEXTO. O traço FORMA é usado para especificar as propriedades mórficas de um signo. Neste caso, com foco na sintaxe, o valor das entidades mórficas pode ser vazio (Para este projeto é o traço em questão; cabe precisar tais entidades constituídas de formantes mórficos). A ESTRUTURA ARGUMENTAL especifica os possíveis argumentos sintático- semânticos de uma expressão lexical. (‘comprar’ <SN,SN,SP>). O traço SINTAXE distingue os signos, apresentando valores para os traços Categoria (subtipos: nomes, adjetivos, verbos...) e Valência (potencial combinatório de um signo). Em relação ao significado, postula-se o traço SEMÂNTICA com os valores INDEX (seu valor é uma variável atribuída a uma entidade especifica (um SN) ou uma situação (uma S) e frame (conjunto de elementos/predicações que integram o significado do signo). O traço CONTEXTO que traduz o uso do signo, não é, de fato, desenvolvido no modelo (No caso do presente estudo, pretendemos que este seja um traço em relevo na construção mórfica em foco)

Inicialmente, Rhodes (1992) recorda que Kay e Fillmore (1999) propuseram a palavra como uma construção. A partir de uma matriz de atributos de valores positivos e negativos (Modelo SBCG), Fillmore & Kay (1995) exemplificam ainda a construção morfológica do plural em inglês, reproduzida abaixo (FILLMORE & KAY, 1995, p. 3):

65 19) syn cat n proper - sem max - lex + bounded + cnfg count numpl Syn cat n proper - max - lex + Sem bounded + cnfg count numpl Shoe s

Quadro 7: Matriz da formalização da construção do plural em inglês

O exemplo de (19) demonstra as restrições sintáticas para a formação do plural em shoes (sapatos), através de uma lista de atributos – sintático, semântico (à esquerda), estruturados hierarquicamente com seus outros atributos e respectivos valores (à direita, entre colchetes). A caixa, à esquerda, que corresponde ao nome (cat n) apresenta a matriz de atributos e valores para a valência do plural em Inglês. A opção de se colocar em caixas tanto a valência do plural como a abstração fonológica do morfema –s (à direita) se deve ao fato de que o plural é adicionado à direita do nome.

Contudo, nem todas as concatenações morfológicas são tão simples assim. Rhodes (1992: 416) destaca que a maior desafio para a GrC na abordagem da Morfologia é como colocar os morfemas de uma palavras na ordem certa, através de uma abordagem não derivacional. Isso significa que a ordem dos afixos só pode ser atribuída por determinados atributos ou por determinadas construções que diretamente codificam a ordem dos morfemas. Nesse sentido, representar a maneira como os morfemas se ligam através de uma caixa, não é apropriado para os casos mais complexos. Assim, Rhodes (1992:416), a partir da questão da não concatenação, vai promover uma outra formalização, reproduzida em (20), especificando o conteúdo fonológico e o tipo de fronteira fonológica de um morfema separadamente do significado da concatenação:

66 20) Syn Cat proper max Lex n - - + Sem bounded cnfg num + count PL #1 + Val #1 Syn cat proper max lex n - - + Sem bounded cnfg num + count sg Morph phon aff -s Suffix

Quadro 8:Matriz alternativa para a formalização da construção do plural em inglês

Na matriz (20), há um espaço para a valência da construção, possibilitando a esquematização de concatenações morfológicas mais complexas, quando necessário. Assim, abrem-se slots que serão preenchidos e ordenados de acordo com as necessidades e as restrições impostas pela construção.

Indo além, o autor reconhece a existência de um mecanismo cognitivo que agrupa entidades linguísticas em unidades, a que ele nomeia glommer (aglomeração). Na GrC (modelo SBCG), a ação do glommer é expressa através dos valores de uma série de atributos. Assim, o autor propõe estender tal mecanismo ao nível da palavra (da sintaxe para o léxico), de modo a promover a sistematização de construções mórficas e dar conta de codificar a ordem morfológica. Nesta extensão, atributos como raiz, base e palavra serão usados na matriz de atributos e valores do léxico. Em uma versão simplificada de sua proposta, tomando o nome constituição em Português, teríamos um

67 slot 1 (raiz ) e um slot 2 (sufixo) que, em nossa interpretação, poderiam ser formalizados nos termos seguintes:

“constituição” Slot 1- Raiz

Slot 2 -Sufixo

Quadro 9: Matriz de formalização para “constituição”

Apesar das análises desenvolvidas por Rhodes (1992) serem basicamente no campo da Morfologia Flexional, o exemplo do Português que apresentamos acima busca uma transposição desse modelo para a Morfologia Derivacional, antevendo a tarefa a ser enfrentada em nosso capítulo de análise.