I ERROR I DETECTION
CHAPTER 3 FUNDAMENTAL SYSTEM STRUCTURES
Mediação em museus não representa somente as ações de atendimento ao público. São vários os contextos em que se efetua este processo. O museu pode ser visto, ele próprio como recurso de mediação entre o indivíduo e o mundo; a exposição é recurso mediador entre o indivíduo e o museu, ou mesmo entre o indivíduo e o objeto das coleções; os objetos são mediadores de contextos, passados e presentes, num palco, também ele mediador, que é o museu, como já de resto se afirmou.
Apesar de ser um conceito sujeito a inúmeras definições, consoante os domínios do saber e formação dos teorizadores, o conceito de mediação aqui subjacente é o de mediação cultural, que tem como fundamento o encontro entre o sujeito e o objeto enquanto bem cultural17, isto é elemento de um conjunto mais vasto de bens, designado de património cultural.
Desvallés (2013, p. 53) refere a mediação como um processo que designa todo um conjunto de intervenções com o fim de estabelecer pontos de contacto entre os objetos os seus significados, o conhecimento. É, então uma estratégia de comunicação de carácter educativo que mobiliza diferentes técnicas tendo como base a coleção, para fornecer ao público os meios de melhor compreender os objetos e construir significados, perspetiva defendida também por Grispum (2014, p. 273-4).
Sendo a mediação uma estratégia de comunicação, é também diálogo, pois pressupõe sujeito, objeto e meio para transportar a mensagem. Esta perspetiva é defendida por autores como Semedo (2014, p.173) e Andrade (2012, p. 18) que referem a mediação como um “estar entre”, um estar ativo e flexível. Uma ponte, um interface, nas palavras de Davallon (2007, p. 4), entre dois universos diferentes, o do objeto e o do público que permita a construção de significados pela apropriação, interpretação, do primeiro pelo segundo, possível devido à triangulação de diferentes tipos de linguagem – verbal, visual, áudio e táctil – com os suportes de interpretação e com os contextos (Bina, s/d, p. 80).
Ainda na perspetiva do conceito de mediação como um “estar entre”18
, Ferreira (2014, p.4-6) refere a necessidade de existirem objetos mediadores, entendidos como recursos auxiliares interpretativos, que permitam ao visitante/participante contruir ligações, significados, conhecimento, nas suas experiências. A autora alude ao objeto mediador como aquele que pode
17 De acordo com o descrito da Lei n.º 107/2001 (p. 5808), um bem cultural é um testemunho com valor de civilização ou e cultura, portadores de interesse cultural relevante, isto é, que seja portador de valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade.
- 32 -
ser trazido pelo visitante/participante ou facultado pelo museu e que medeia a relação entre o sujeito e os objetos da coleção. Neste ponto de vista, os kits de objetos manuseáveis são, eles próprios, objetos mediadores, porque funcionam, por um lado, como intermediários, estabelecendo ligação, diálogo, entre contextos distintos do visitante/participante e dos objetos, e, por outro, como agentes transformadores, porque orientam para a utilização de competências do pensamento crítico e criativo, mediante estratégias que incentivam à participação ativa. É neste diálogo, que deve ser constante, que a construção de significados pode acontecer. Marandino (2008, p. 22) refere que neste diálogo a interatividade é um elemento essencial, porque é necessário que o sujeito esteja física, intelectual e emocionalmente envolvido.
Nesta perspetiva, e no contexto dos programas desenvolvidos pelos serviços educativos de diferentes instituições, mormente internacionais, argumenta-se que os kits de objetos manuseáveis são, assim, fortes recursos de mediação, mormente patrimonial, em museus.
A importância dos Kits portáteis19 de objetos manuseáveis é referida por vários autores (Measures e Bland, 2014, p.9; Chatterjee e Nobel, 2008-b, p.219; Talboy, 2005, p. 117-122; Molyneaux e Stone, 2006, p. 148-158; Ambrose e Paine, 2006, p. 53; Clark, 2002, p.32) e em vários sites de museus e de organizações que envolvem na aprendizagem e no bem-estar social a utilização dos objetos, especialmente no Reino Unido.
Devido às suas caraterísticas ímpares da portabilidade, versatilidade e especificidade, têm-se manifestado, segundo Talboy (2005, p.118) uma forma excelente de proporcionar a toda a comunidade, experiências de aprendizagem no exterior. Providenciar estes recursos, diz, tem implícita uma atitude educativa, uma vez que se pretende que a comunidade trabalhe com os objetos para conhecer e explorar a herança cultural e aprender a respeitá-la, e assegura a igualdade de acesso ao património. Sem este serviço, parte dessa comunidade, via-se impossibilitada de contactar com parte da sua herança cultural, pois não têm facilidade em deslocar-se. Neste contexto encontram-se as escolas que, atendendo às cada vez mais apertadas metas curriculares e questões burocráticas relacionadas com as saídas, colocam de parte as visitas a museus.
Os kits proporcionam, igualmente, uma variedade de atividades que permitem a interação com as coleções, com os museus e com a comunidade. Possibilitam, em sessões exploratórias que incidem no manuseamento, experienciar de uma forma diferente os objetos, contribuindo, desta forma, para aprendizagens distintas, curriculares e de competências, e para o bem-estar de todos os envolvidos, em espaços distintos dos museus com destaque, neste estudo, para a sala de aula.
Atendendo ao conceito de educação patrimonial apresentado por Gallardo (2003, p.26) como a ação pedagógica não formal e sistemática destinada a dar um novo sentido ao espaço do educando
19 Tradução livre de handling kits/boxes. Também é comum o termo Loan Boxes ou Loan Services, referindo-se ao mesmo.
- 33 -
a partir do seu património, com o objetivo de preservar e estimular a compreensão, tolerância e respeito intercultural, os kits portáteis são recursos de mediação cultural, que se inserem numa abordagem metodológica de educação patrimonial. Esta abordagem utiliza uma estratégia interativa, fundamentada no espaço geográfico local e com o contributo da arqueologia e que implica tocar, sentir, explorar, experimentar e aprender fazendo, potenciando aprendizagens diversas, nas quais se incluem valores, atitudes e relações, que poderão ser decisivos quanto ao futuro do património cultural.