4.5 Symmetry, stratification, and fundamental domains
4.5.3 Fundamental domains for P 4/mmm and I4/mmm . 63
Não creio poder haver nesta discussão consideração final, porém, apropriando-me das palavras de Luiz Guilherme Santos Neves, relato que por ora baixei as âncoras dessa viagem. Uma viagem longa de deliciosos sabores e muitos aprendizados. No caminho calmarias e tormentas. Alimento, porém, nunca me faltou, posto que do campo vasto sempre se obteve um verdadeiro “vilão farto”.
Uma sensação estranha me percorre ao escrever tais considerações. Por instantes rememoro a viagem e, como num grande telão, percorro as imagens desses dois anos de pesquisa. Seguro o “fio de Ariadne” e por vezes penso estar perdida no labirinto, travando batalhas nos mais diversos portos onde aporto. Percorro estradas compridas, a duras pedras, com paralelepípedos grandes, médios e menorinhos. Encontro, no caminho, uma cadeira e uma mesa de proporções dantescas, querendo muito alcançá-las, sinto-me menorinho. Então, desafiada, resolvo passar por debaixo, já que o contrário é quase impossível. Na ousadia, sensações extraordinárias!
Inebriada, busco mais, peço ajuda a Macunaíma, Firmiano, Anúbis e Gilgamesh. Não me esqueço também do “menino”, que nem chegou ir à guerra, mas que, como eu, sente calafrios e tremores ante o porvir. Ah, quem diria! É possível fazer História sem herói; é possível, é belo, é poético ouvir outras vozes e versões. É urgente que se abram novas caixas de Pandora e que os segredos dos passados, enterrados, lacrados, sejam literariamente (re)contados.
A perspectiva dessa viagem é evidenciar esse (re)contar. A busca de temas históricos para serem transformados em matéria de literatura é, na atualidade, uma tendência universal, porém o que Luiz Guilherme Santos Neves faz é muito mais que isso: ele retoma do passado o que ficou lacrado e esquecido, relegado ao segundo plano. Com esse tesouro em mãos, não se preocupa em focalizar o ilustre, o herói, mas o povo simples e sua história cotidiana.
De posse dessa Nova História, busca conhecer também a história das ideias, não para historiar sobre o já pensado, mas para se arriscar a pensar tal como já se pensou outrora, prestando atenção ao tempo dentro do tempo. Com sua pena a (re)visitar o passado, um elemento é fundamental – o respeito –, afinal, como nos
diz o próprio Luiz Guilherme Santos Neves, só podemos “brincar” com quem conhecemos e temos muita intimidade. Respeitando as diferenças abolidas pelo surrado discurso dos vencedores e acrescentando-lhe o contraditório, proferido pelos vencidos, as obras corpus desta pesquisa, junto a outros mitos e anti-heróis que lhes acresço ao longo de nossa viagem, vão paulatinamente respondendo aos questionamentos formulados na pesquisa.
O texto literário como documento da História ou a História como contexto que atribui sentido ao texto literário? Esse foi o questionamento apresentado. No desenrolar do trabalho, pauto a importância cada vez maior da união livre, sem amarras conceituais de Clio e Calíope. Etimologicamente, mostro que essas ciências irmãs se confundem: ambas são narração de fatos da vida dos povos, dos indivíduos e da sociedade. Com origem na oralidade, as musas provam que não podem viver separadas, visto que nos fornecem o elemento primordial dessa discussão: o texto.
Conforme Pesavento358, essa aproximação entre as irmãs é benéfica, já que uma não se confunde com a outra. Ambas correspondem a narrativas explicativas do real, que se renovam no tempo e no espaço, principalmente, por serem dotadas de um traço de permanência ancestral – o expressar-se do homem por meio da linguagem.
Nesse aspecto, ambas têm papel relevante. Mesmo que o ficcional viole pela amplitude do imaginário, Clio necessita dessa sensação para que sua narrativa seja viva, pulsante. Proporcionar sentidos novos e diferentes à vida humana é o grande mérito dessa união. Luiz Guilherme Santos Neves sabe, com maestria, traduzir e aproveitar ao máximo os benefícios dessa aproximação. Tais benefícios traduzem- se em textos inebriantes e inusitados.
Ao retomar o manuscrito do presidente Machado de Oliveira – história lacrada, passado encerrado –, o autor viola o lacre, liberta uma multidão de anônimos e usando de artifícios linguísticos e artefatos literários constrói uma nau que consegue produzir um cenário vivo e reflexivo, pela voz do narrador – um dos anônimos –
358
contestando e criticando, ao mesmo tempo em que chama o leitor à cumplicidade. Cúmplices receptores, nós, leitores, não seremos mais os mesmos, pois transgrediremos os limites da convenção, expondo a análise da relação entre linguagem literária e texto histórico oficial, a nu. Esta literatura desnuda uma Nova História que se revelará, com diferenças marcantes e significativas, com que passaremos a (re)contá-la com muito mais veracidade por meio da expressão literária.
Com Denunciações de Pernambuco, outro documento oficial, Luiz Guilherme também abre nova caixa de segredos e deixa fluir vozes antes silenciadas. Abala o pedestal de instituições consagradas e, no crepitar das chamas – de uma missa, possibilita pensamentos e vozes que, mesmo congeladas pelo medo, revelam todas as suas indignações contra o poder e a opressão dos que teimaram em ser donos da verdade em todos os tempos.
Com o episódio da Insurreição do Queimado na Serra, convoca os negros à construção de um templo, que se traduzirá também em suas forcas. Mostra nesse episódio o poder da palavra que fala e que cala. Novamente rompe o lacre e, com a liberdade imaginativa, aproxima-nos deliciosamente dos grandes atores do drama. Muito mais que conhecê-los, somos também seus companheiros na empreitada. A História é tão viva que recorremos a inúmeros relatos da histórica Babel para tentar desvendar o mistério da língua não entendida.
A caixa também se abre para Vasco Fernandes Coutinho. Com O capitão do fim, Luiz Guilherme Santos Neves proporciona-nos uma viagem ao redor de nós mesmos. Tendo o tempo como elemento exotópico, acompanhamos o Capitão em sua viagem rumo ao Juízo que, de final, nada teve, posto que por meio dele reflexões importantes tomam a cena. Calíope, mais uma vez de mãos dadas a Clio, evita que a discussão seja encerrada.
Pelos muitos caminhos que Clio e Calíope ainda terão que percorrer, percebo que a via do discurso é sempre seu ponto de encontro, local onde as possibilidades do conhecimento humano são tantas que uma não permanecerá nunca à sombra da outra. Nesse sentido, o Romance Histórico Contemporâneo, livre do rigor e da
objetividade científica, toca-as e aproxima-as, exalando a “verdade” pretendida por Clio, não com as roupagens convencionais, pois vem dissimulada, encoberta e disfarçada sob o véu de um pré-texto em que se dobra o grande texto do visto e do não visto, nas mais variadas formas, quer seja na oralidade, na escrita, na imagem, na poesia ou na música, tudo sob a pena de Calíope à espreita.
Assim, numa tessitura não muito convencional, apoiada na liberdade imaginativa que me permitem as musas, dei luz ao texto desta pesquisa. Nele, apresento muitas imagens de caráter personalíssimo, que traduzem sempre o texto de Luiz Guilherme Santos Neves naquilo e onde ele mais me toca: nos paralelepípedos me vejo menorinho, na cadeira e na mesa gigantescas, novamente me sinto menorinho – entendendo que a expressão do silenciado, do anônimo e sua grandeza no expressar-se são o coroamento das expressões de alteridade.
Por isso, falo por meio das Condenadas à fogueira de Bessonov Nicolay, grito a dor e a indignação por Chico Prego – na forca e Maria Capa-Homem – do potro à fogueira. E com a representação da Torre de Babel de Brueghel ao lado das ruínas da igreja de São José no Queimado, motivo de tanta dor e sofrimento, repenso outros grandes monumentos da História e das muitas histórias que se encontram encerradas em suas pedras, tijolos, adornos... Quantos Elisiários, Chicos, Joões, Marias, Joaninhas, Marcelinos não passaram por ali e anseiam que suas histórias tenham o lacre rompido!
Chego então ao Juízo, o que nada teve de final. Enxergo no cão-leopardo de Vasco o cão-chacal Anúbis. Entendendo o valor do autoconhecimento, proponho também a imagem do Tribunal das Culpas, onde o coração deve ser leve para se alcançar a plenitude. Omito, porém, o rolar da pedra de Sísifo, porque, propositalmente, deixo que esta imagem do capitão converse com o lendário personagem do absurdo sobre seus destinos aparentemente desastrosos e torne-se alimento para uma nova conversa.
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