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Dans le document Statement of the main theorem (Page 2-10)

Na capa de uma obra coletiva2, duas fotografias são apresentadas.

A primeira teria resultado de um olhar sobre a desolação de lugares sem alma gerados por uma expansão urbana. A segunda seria a evocação da sociedade harmoniosa, bela de se olhar, que estaríamos em vias de perder se nos “re-centrarmos”. De um lado o mal, do outro o bem. Aqui a doença, ali a saúde. É assim, ao menos, o que estas ilustrações de uma capa de livro podem ser interpretadas: tudo se passa como se a fotografia do alto, que mostra os confins de um mundo urbano, estragasse com sua presença o prazer de olhar o quadro artístico da Bordeaux de antigamente.

A fotografia mostra cascalhos, ervas daninhas, arcadas de ferro sem utilidade (não servem de entrada de um estacionamento nem de trave para futebol), postes de iluminação que não servem sequer para demarcar a via expressa dos automóveis, e um resto de construção em chapa de ferro, que abriga não se sabe o quê. Um terreno baldio poderia ter mais unidade ou sentido. Algum tipo de bordel execrável poderia ter mais encanto. Aqui, parece que estamos diante de um estacionamento abandonado e tornado inutilizável. Compreende-se facilmente: a fotografia foi tirada em uma zona “peri-urbana”, enquadrando suas vizinhanças sem ornamentos. Ela mostra o que o habitante das grandes aglomerações conhece dos cenários antiestéticos das proximidades das zonas comerciais.

O quadro mostra a Bordeaux do começo do século XIX. Vêem-se o rio Garonne, barcos de pescadores, homens trabalhando nas margens, mas também uma sociedade burguesa passeando de vestido branco ou chapéu-coco, sem que essa justaposição da elegância e do trabalho, da ociosidade e dos esforços físicos dê a impressão de uma sociedade fraturada ou conflituosa. Muito ao contrário, predomina um sentimento de harmonia. Uma impressão de convívio é o que está sendo exibido. Reina uma felicidade compartilhada: a de estar junto em um mundo que reúne todos seus elementos. Compreende-se também que essa atmosfera pacífica seja a garantia de uma sociedade de progresso e de prosperidade.

Esse quadro é o de Pierre Lacour. Está exposto no Museu de Belas Artes de Bordeaux. Data de 1804. Intitula-se “Vista de uma parte do porto e dos cais de Bordeaux, dito dos Chartons e de Bacalan”. Pierre Lacour não pintou sua época, como se poderia crer. Ele executou uma encomenda política. Era preciso inscrever nas memórias futuras a lembrança de um mundo exemplar, no qual a paz social estivesse de acordo com o dinamismo econômico. Mas a cena que o quadro mostra simplesmente jamais existiu. A fotografia foi realizada por Jean-Louis Garnell. Ela faz parte de uma série intitulada “aglomeração de Bordeaux”. A associação Arc-en-Rêve a havia encomendado. Foi exposta no âmbito da exposição “Mutações” organizada no Entrepôt Lainé em 2000. Jean- Louis Garnell já tinha feito um trabalho para a Datar sobre paisagens urbanas parecidas com o que mostra a fotografia.

Talvez se possa dizer que, mesmo sendo essa imagem a obra de um artista e não de um ilustre desconhecido, ela é, ainda assim, de uma feiúra incontestável. Não estamos, aliás, habituados a conhecer essa inclinação própria dos artistas contemporâneos que os leva a mostrar o sujo, ou até mesmo o repugnante? É, pois, no âmbito de uma estética do pavoroso que é preciso classificar essa foto, e é preciso compreender a mensagem como sendo a de um contestador? Garnell estaria querendo botar diante de nossos olhos o horror da sociedade mercantil que suja o planeta e provoca a desolação do ser? Pode-se bem imaginar que essa intenção governe o enquadramento da fotografia. E que o sentimento de vazio e de incompreensão – temos dificuldade de ver o que vemos, porque sequer sabemos o que é preciso ver – seja o objetivo buscado. Ou, então, seria o caso de compreender que se trata de desvio ou ironia. Quando se pede ao artista para mostrar paisagens, este se dedicaria a fotografar lugares-lixo – de resto, como qualquer pessoa poderia fazê-lo com uma máquina fotográfica descartável.

O periurbano não seria a gangrena das cidades? Uma ameaça exterior parece fotografada por Garnell, como se o inabitável, por enquanto relegado aos limites das cidades, pudesse penetrá-las. Uma podridão estaria cercando o espaço civilizado e seria capaz de carcomê-lo. Então, seria preciso compreender que a obra de restauração, que o

restabelecimento das fachadas ou o esforço paisagístico no interior das cidades, lutam continuamente contra uma ação deletéria, que não conseguimos acreditar que seja apenas externa ao “corpo social”. Garnell estaria nos mostrando, pois, muito concretamente, contra o quê se organiza a preservação dos centros das cidades. Uma continuidade precisaria ser mantida contra o desmantelamento ou a desagregação, e a fotografia de um pedaço da cidade mostra que o perigo se situa em seu próprio seio.

Mas, é necessário de fato crer que a fotografia é feia? É preciso concluir – porque o olho não constrói imediatamente diante dele uma bela imagem a partir do que lhe é mostrado – que a desordem é mais forte. Outra questão: não se poderia achar que a bonita pintura de Pierre Lacour é, à sua maneira, de uma particular feiúra? Não seria possível criticar a imagem da sociedade harmoniosa, simplesmente pelo fato de ela jamais ter existido. Não é a mentira que se deve depreciar. É a própria estética da pintura caprichada que pode parecer de mau gosto.

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