Sempre que compartilhava com algum nativo que estava interessada na narrativa biográfica da Mestra Paulina, era quase que inevitável ouvir mais uma vez a pequena narrativa36 que conta a trágica história da menina órfã que precisou se prostituir para sobreviver.
Eles diziam:
Mestra Paulina era uma menina cigana que perdeu os pais cedo durante uma viagem de navio com destino ao Porto de Jaraguá, em Maceió, Alagoas. Ao desembarcar, foi vendida para a dona de um prostíbulo, onde era obrigada a se prostituir em troca de comida e moradia. Durante a juventude, Paulina manteve contato com ciganos que habitavam as proximidades do porto do Jaraguá, e com eles aprendeu sobre a magia do oriente.
Conta-se que Paulina vendia frutas na beira do cais na intenção de juntar dinheiro e fugir da exploração e dos maus-tratos no prostíbulo. Dizia-se, ainda, que Paulina não media esforços para proteger as outras meninas das maldades de sua tutora – motivo pelo qual, posteriormente, veio a ser reconhecida como protetora das mulheres. Até que então a bela moça conseguiu fugir para Recife – PE, onde veio a habitar a rua da Guia e a trabalhar no cais do Apolo, onde era desejada por muitos homens e odiada por suas esposas. Paulina morre
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É muito comumente contada pelos adeptos do culto a Jurema - e pode ser encontrada em sites e blogs que se dedicam a apresentar a mitologia e a tradição da Jurema, como citado na introdução deste trabalho.
tragicamente, assassinada com sete facadas por um de seus amantes, acredita-se que por motivo de ciúmes.
De fato, não poderia ter passado ilesa pelos significados produzidos por essa narrativa tão difundida entre os adeptos do culto. Não somente pela quantidade de vezes que a escutei como pela estética narrativa tão parecida com as histórias trágicas que ouvimos quando ligamos a televisão em noticiários ou quando abrimos as páginas policiais dos jornais. É claro que com as devidas diferenças, ligadas à cultura e ao tempo histórico em que se deu. Os eventos narrados, porém, não me pareciam acontecimentos extraordinários, reafirmando-me a proximidade que as entidades presentes no culto à Jurema têm da natureza humana.
Porém assemelhar-se não significa igualar-se. Com o tempo de convivência, fui compreendendo que a aproximação dessas entidades da Jurema com os aspectos humanos jamais poderia colocá-los em situação de igualdade com a natureza e a subjetividade humana. Ao contrário, o saber da Jurema possui uma conceituação bastante elaborada e complexa a respeito do que compreende o universo material e o universo espiritual, e, apesar destes dois mundos estarem implicados um no outro, o sagrado na Jurema está muito bem definido em torno do seu panteão de divindades e entidades espirituais.
Se o nosso encontro com eles se dá frequentemente, mesmo que não exclusivamente, através de sua incorporação em médiuns, a realidade de sua presença é compreendida como distinta daquela de seu médium. Ou seja, os espíritos são considerados sujeitos dotados de agência própria e realidade distinta daquelas dos sujeitos que os incorporam. Para dizer de outra forma, mesmo se os espíritos estão ligados aos médiuns que os incorporam, sua realidade não está subjugada a (apenas) esta relação. (CARDOSO, 2012, p. 44).
O processo de individuação descrito acima por Vânia Z. Cardoso (2012) – referente à sua experiência etnográfica com Ana e a “sua” Maria Padilha – se tornou muito evidente para nós a partir da possibilidade de incorporação daquela entidade, pertencente à corrente espiritual de Cristal, por outra pessoa. Se pararmos para pensar que aquela Paulina, que mãe Dita se propunha a invocar, poderia ser qualquer uma das muitas que carregam esse nome e podem aparecer nas mais diversas mesas de Jurema – ou ainda a possibilidade de existir mais de uma Paulina incorporada no mesmo ritual – com médiuns diferentes, mas foi exatamente a “Paulina de Cristal” que se apresentou para conversar comigo... Torna-se evidente inferir que a entidade se constrói em relação ao médium e vice-versa e que são sujeitos diferentes e de natureza diferentes, com agências interdependentes, porém próprias. Abro aqui um parêntese para contextualizar o uso nativo dos pronomes possessivos com relação às entidades. Quando falo a “Paulina de Cristal” ou quando Cardoso (2012b) fala em “Ana e sua Maria Padilha”
não se trata de identificar o médium enquanto sujeito possuidor daquela entidade, em uma relação de sujeição; trata-se apenas de identificar aquela entidade diferenciando-a de outra que possua o mesmo nome, ou seja, faça parte da mesma falange e acompanhe outro médium.37
Pensando as narrativas biográficas compartilhadas e recontadas, Cardoso (2009) faz uma observação interessante sobre as estórias de espíritos das macumbas do Rio de Janeiro, da qual compartilho com relação à Jurema Sagrada:
Ouvidas entre práticas rituais e inseridas nos fluxos de outras conversas, tais narrativas são fragmentadas e dispersas, e marcadamente distintas daquilo que consideraríamos como um corpus mitopoético ou tradução narrativa. (...) tais estórias são contadas não só pelos próprios espíritos, mas também por clientes e filhos-de-santo. Neste narrar a um só tempo disperso e coletivo, objetos e sujeitos se confundem, e a própria prática narrativa constrói a socialidade que narra (CARDOSO, 2009, p.201).
Se na Jurema é prática comum os espíritos contarem suas histórias no momento de sua incorporação nos corpos dos médiuns, faz parte também do exercício de socialização e de construção dos saberes e das práticas rituais o ato de contar e recontar essas histórias por parte dos adeptos ao culto.
De fato, o exercício de escuta da narrativa biográfica de Paulina fazia com que o meu desejo em a ouvir crescesse. Meu objetivo era compreender quais os sentidos que ela atribuía às suas experiências vividas e como ela se (re)construía a partir dessa narrativa.