A Cooperativa, contexto da pesquisa, foi fundada em 2000. O grupo só assumiu o caráter de cooperativa legalmente instituída, após cinco anos de atividade, em 2005, quando constituíram a ata de constituição da cooperativa, o estatuto social e o registro de fundação e inscrição CNPJ.
A ideia de formar a cooperativa surgiu após realização de uma gincana na Escola Secundária Estadual, no bairro Nova Constituinte, da região do Subúrbio Ferroviário. Os vencedores seriam premiados com um Curso de Formação de Agentes Ambientais, promovido pela Fundação Cidade Mãe1, com incentivo de órgãos e entidades como a Secretaria Municipal de Articulação e Promoção da Cidade (SEMAP) e o Compromisso Empresarial para Reciclagem (CEMPRE).
No entanto, os estudantes vencedores da gincana não demonstraram interesse em participar do curso, sendo o mesmo ofertado aos pais dos alunos, que aderiram ao convite.
A proposta do curso incluía a formação de agentes ambientais, sendo capacitados 40 adultos. Como etapa final da capacitação, os integrantes deveriam, utilizando os conhecimentos adquiridos ao longo da capacitação, se reunir e pensar coletivamente a implantação de uma estratégia que trouxesse emprego e renda para os moradores do bairro. O grupo escolheu a temática “Resíduos Sólidos” e com o apoio técnico de uma assistente social,
1 A Fundação Cidade Mãe de Coutos é uma instituiçãode vinculada à Prefeitura Municipal de Salvador que visa
atuar como instrumento de efetivação dos direitos sociais de crianças e adolescentes em situação de risco social, disponibilizando atividades lúdico-pedagógicas e profissionalizantes. Atua por meio da Secretaria do Trabalho, Assistência Social e Direitos do Cidadão (SETAD).
uma das facilitadoras do curso, decidiu criar uma Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis.
Do total de participantes do Curso de Formação em Agentes Ambientais, 87,5%, ou seja, 35 capacitados, aderiram e concordaram em formar uma Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis. Porém, como o rendimento individual após os dois primeiros meses de trabalho foi muito baixo (R$ 0,50 e R$ 3,00, respectivamente), houve uma desistência de aproximadamente 43%, permanecendo 15 integrantes que deram continuidade à Cooperativa. Ao longo desses anos, ocorreram desistências e, atualmente, apenas três integrantes do grupo inicial permanecem à frente da Cooperativa.
O grupo decidiu que faria a coleta porta-a-porta de materiais recicláveis nas casas das ruas próximas ao bairro Nova Constituinte, faria a triagem e armazenaria o material coletado em um galpão e os venderia a intermediários.
Durante este processo, o grupo enfrentou diversos entraves como falta de treinamento em segurança no trabalho, acesso a equipamentos como carrinho para coleta e transporte de materiais e ao galpão para triagem e armazenagem do montante coletado. A solução inicial encontrada, relativa ao espaço para guarda do material, foi utilizar imóveis de propriedade da família dos próprios cooperativados.
O trabalho foi marcado pela ocupação de pequenos cômodos, a título de empréstimo, dos quais logo eram obrigados pelos proprietários a se retirarem, iniciando nova busca por um lugar para triagem e guarda de material. Familiares foram os que mais cederam pequenos imóveis, porém, devido a dificuldades financeiras vivenciadas por todos e impossibilidade da Cooperativa de arcar com um aluguel, esta permanência era por um curto espaço de tempo.
Posteriormente, com o intuito de aumentar a renda, começaram a executar um trabalho paralelo junto a um atravessador que recolhia, transportava de caminhão e depositava resíduos sólidos em um terreno pertencente à instituição Fundação Cidade Mãe. O grupo era responsável por realizar a triagem do material.
Nas horas livres, continuavam a coletar porta-a-porta o material para a Cooperativa que, nesta época, era guardado em um espaço de um único cômodo abandonado, também, de propriedade da família de um dos integrantes da Cooperativa. Esta casa estava em estado crítico de conservação e com as chuvas, houve desestabilização do terreno, provocando o desabamento da casa durante jornada de trabalho dos cooperativados ferindo uma trabalhadora que estava grávida de 07 meses, que fraturou a perna. A gravidez terminou em parto prematuro e natimorto. O grupo relaciona o óbito neonatal precoce como consequência do desabamento.
Ao longo dos anos de existência da Cooperativa, a época mais difícil relatada pelo grupo e os casos mais citados como doenças e acidentes resultantes da atividade com coleta de materiais recicláveis ocorreram durante a permanência em terreno adjacente à Fundação Cidade Mãe. Nesta época, os integrantes da Cooperativa em estudo, citam casos considerados sérios, a exemplo de acidentes com materiais perfurocortantes e doenças de pele. Citam terem sidos explorados pelo atravessador, serem mal remunerados, e expostos a riscos, como materiais sujos, trabalho na lama e opressão.
No momento em que a Fundação solicitou a retirada dos cooperativados, ameaçando com o pagamento de multa, a Prefeitura Municipal de Salvador responsabilizou-se por alugar um imóvel, no bairro Nova Constituinte. Como o aluguel não foi pago, permaneceram no local apenas dois meses, sendo, mais uma vez, despejados.
A Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE), do Governo do Estado da Bahia, responsabilizou-se por pagar o aluguel de um novo espaço por seis meses. Desde então, a Conder paga o aluguel do galpão ocupado por tempo indeterminado e estão no atual galpão há dois anos. O local é pequeno, sujeito à inundação quando chove, mal ventilado, mal iluminado e desconfortável por ter um espaço insuficiente para a guarda do material e o deslocamento dos trabalhadores. Com relação ao organograma da Cooperativa, é composto por: Presidência, Diretoria Financeira, Diretoria de Patrimônio e um Conselho Fiscal com seis conselheiros, sendo três titulares e três suplentes. As eleições são feitas a cada quatro anos, podendo haver reeleição, o que é comum acontecer. A Cooperativa não tem Conselho de Administração.
O presidente participa das reuniões com outras instituições e é o principal articulador entre a Cooperativa e os movimentos sociais e políticos.
A diretora financeira é responsável pela: venda; pagamento de serviços contratados, a exemplo do caminhão para a entrega de material; pagamento de despesas fixas como luz, água, aluguel, e partilha do rendimento entre os cooperativados. Durante a observação participante, foi observado que esta também é responsável pelo gerenciamento das atividades diárias da Cooperativa.
A diretora de patrimônio é responsável pela guarda e manutenção de todos os materiais permanentes da Cooperativa. Os conselheiros fiscalizam o funcionamento e o cumprimento do regimento interno da Cooperativa.
Durante a observação participante, no que se refere às questões administrativas, só foi detectada a atuação do presidente e da diretora financeira.
As atividades realizadas na Cooperativa incluem coleta seletiva, transporte manual do material, seleção/triagem, onde são separados por tipo de composição do material, prensagem (realizada ainda manualmente), guarda do material, limpeza do espaço físico, carregamento do caminhão, venda e participação em reuniões onde são feitas articulações com grupos que buscam levar benefícios à Cooperativa. As atividades são realizadas por todos os cooperativados, existindo distinção apenas entre os que exercem cargos administrativos, que se responsabilizam menos pelas atividades de coleta e seleção de materiais recicláveis.