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O Tomo I de doação inicia-se com uma carta de Manuel do Cenáculo ao Príncipe Regente, a quem oferece a biblioteca e da qual podemos extrair aspectos interessantes desse ato de mecenato:

Ao Principe Nosso Senhor

Rogo eu Bispo de Beja humildemente seja servido Aceitar a livre Doação, que faço à Real Bibliotheca Pu blica de Lisboa pelo seo inspirado Estabelecimento e Utilidade Credito Nacional dos Livros, em que me pareceo haver dignidade, raridade, e de alguma proporção, os quais separei daqueles, que para os estudos próprios desta Diocese nella se devem conservar, não havendo nesta dilatadíssima Provincia Livraria alguma Publica, sendo necessária a cada instante: Assim como também comprehendo na mesma Doação, pelo meu amor pátrio o Monetario de mais de três mil medalhas não duplicadas, de cobre, prata, e oiro em que há raríssimas, algumas desconhecidas, e gregas e outras raridades dignas do Museo Real e Publico, pois que o animo do bom, e Augusto Principe não he para menos do que repetir em sua felicíssima Corte o Museo de Alexandria, e tanto mais quanto vejo não hir a coisa aprecipitar-se por descuidos, e provisões [?] mas sim estar entregue a hum Perfeito de vocação notória para tão Grande

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DENIPOTI, Claudio; PEREIRA, Magnus Roberto Mello. Sobre livros e dedicatórias: D. João e a Casa Literária do Arco do Cego (1799-1801). História Unisinos, V. 17. Nº3. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Unisinos, 2013.p. 260.

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DENIPOTI, Claudio. Possibilidades combinatórias da condução da leitura em uma biblioteca: José Maria Dantas Pereira e o “Catálogo sistemático da Biblioteca da Companhia dos Guardas-Marinhas”. Acervo. V. 26. Nº 2. jul./dez. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2013.

Obra, acompanhado de Pessoas intelligentes, e activas que hão de conservar, melhorar e augmentar hum Instituto pelo qual te cham ado os votos de todos os bons e zelosos Patriotas, de índole beneficentíssima se Digne Approvar, e Aceitar esta demonstração das minhas inclinações ao Credito Nacional, e queria favorecer -me, eu pediria a S. Alteza Real em consideração do que tenho despendido dom a minha Igreja no espaço de vinte e sette annos,me fizesse a outra graça, a Exemplo do Presidente, e Deputado da Real Mesa da Comissao extinta, Mandasse dar-me os cahidos, e continuar na forma que parecer justa ao mesmo Senhor, os meos ordenados, e pois eu nella fui Presidente desde o anno de mil settecentos e settenta até mil settecentos settenta, e sette com as fadigas, que não desmerecem contemplação, e creando por nova forma as Escollas Menores com muito esplendor, e ao mesmo tempo fui Presidente do Subsidio Litterario, cuja colheita, e Arrecadação creei com muitíssima vantagem da Fazenda Real, e meios para esta se não gravar. E como a tudo excede a Graça do Melhor dos Principes, a Ella me conformo com a submissão de dependente, e respeito de fiel Vassalo. Beja em 24 de março de 1797. Frei Manuel Bispo de Beja.155

Muitos aspectos do mecenato podem ser reconhecidos nas linhas traçadas por Cenáculo, mas antes de nos atermos a elas, faz -se necessária uma rápida abordagem a respeito da questão da auto ria junto ao catálogo.

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CENACULO, Manuel do. Catalogo Methodico dos Livros, que o Ex.mo e R.mo D. Fr. Manoel do Cenaculo Villas-Boas, bispo de Béja Doou à Real Bibliotheca Publica da Corte No anno de 1797 Tom. I: Que contém os Livros impressos de Historia, Bellas Letras, Filosofia, Medicina, Mathematica, Officios, e Art es, e Sciencias Civis, e Politicas. Tomo I. Beja, 1797. Biblioteca Pública Nacional de Lisboa. p. 11 -13.

Carta de Frei Manuel do Cenáculo ao Príncipe D. João

Primeiramente questionamos a produção do catálogo como composta por António Ribeiro dos Santos, por já ter produzido tantos outros catálogos de acordo com suas concepções de organização de bibliotecário, por exemplo, a Lista de livros e jornais estrangeiros que a Biblioteca Nacional

de Lisboa deve adquirir156, e por pensarmos ter sido composta com a

chegada da doação a Lisboa.

Entretanto, vista a existência da carta dedicada ao príncipe regente, ativemos a questão de que o catálogo deveria ter vindo junto das doações, listando-as. Quando da leitura de bibliografia sobre a correspondência de Cenáculo – que não aquela objeto desta pesquisa – por outros autores, nossa surpresa foi a afirmação de que o bispo vinha compondo um catálogo no qual anotava todo espólio que pretendia doar à Biblioteca Real, quando resolveu enviar tudo que pudesse separar a doação sem catalogação, acelerando a transição dos mais de 90 caixotes, e a

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BIBLIOTECA NACIONAL DE LISBOA. Lista de livros e jornais estrangeiros, que a Biblioteca Nacional de Lisboa deve adquirir. (De novo ou para complement ar collecções.) São notas da administração de António Ribeiro dos Santos. Original. Cod. 565.

separação a cargo de António Ribeiro dos Santos, tornando-se este autor do catálogo.157

A questão da autoria de um determinado escrito ou obra não foi uma questão muito sensível aos homens de letras anteriores à modernidade. Essa necessidade aparece mais do reconhecimento da função social de produtores do conhecimento. Badinter coloca a questão do clérigo estudioso do medievo, como privado de sua “autoria”, quando se refere a seu posicionamento em debate público, visto que o orgulho da ideia ou da obra – intrínseco na autoria – era imposto como pecado frente aos dogmas da Igreja158.

Mas não só nos é relevante saber do autor das categorias de conhecimento, para que possamos compreender melhor o delinear da classificação de conhecimentos a esses dois sujeitos, como também é questão importante na composição desse tipo de documento, no qual ficam arrolados os nomes dos produtores de manuscritos e, principalmente, de impressos. No século XVIII, a ideia de autor relacionar-se-ia com a possibilidade da punição pelos textos considerados perigosos, mas também com o reconhecimento de sujeitos cuja função seria ler a sociedade através das letras. É uma interessante reflexão, pois temos em nossos dois personagens, também, a figura de autores.

A questão do reconhecimento também nos é cara ao distinguir a figura do mecenas, representada aqui por Cenáculo. A competência de bibliófilo estava muitas vezes ligada ao mecenato

A filantropia que vemos fortemente apoiada no valor simbólico do livro e nas potencialidades instrutivas da lei tura. No primeiro caso, porque será recorrente nos séculos XIX e XX, muitos beneméritos e benfeitores doarem as suas coleções a bibliotecas públicas, preocupados em assegurar a memória e garantir para os seus gastos e esforços um fim nobre, a utilidade pública q ue já orientava D. Manuel do Cenáculo. E quanto ao valor instrutivo da leitura, ontem como hoje, alguém duvida que ler é a competência imprescindível para obter a sabedoria ou conhecimento?159

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DOMINGOS. Casa dos Livros de Beja…

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BADINTER, Elisabeth. As Paixões Intelectuais: desejo de glória 1735-1761. Tradução: Clóvis Marques. Vol.1. Rio de Janeir o: Civilização Brasileira, 2007.

A paixão pelos livros e pelas leituras provocava vocação de proporcionar a outrem os prazeres que o conhecimento os trazia. Cenáculo era um ativo e generoso mecenas, doando livros a várias bibliotecas e letrados.

Contudo, a questão de ser reconhecido como doador, na carta ao príncipe, parece perpassar muito mais questões políticas e financeiras. Ao relembrar a D. João VI dos cargos que ocupou junto à administração de seu avô José I, Cenáculo impõe a importância nas decisões político- reformadoras, frente ao esquecimento que lhe foi imposto n a retirada do Ministro Pombal do governo, ao que se refere de maneira amarga em seus diários.160 Além disso, contava com a gratificação e valores, prometidos a ele e a sua paróquia, que parecem também não terem sido reconhecidos tão prontamente.161 O reconhecimento, em prática, veio apenas em 1802, quando nomeado Arcebispo de Évora, aos 78 anos, onde também fundou uma biblioteca pública.

Na carta podemos ler também duas questões cruciais à ideia de biblioteca, tão cara a Cenáculo: a formação de uma biblioteca nacional e que fosse pública. Em trechos das cartas antes tratadas pudemos notar o reforço no quão importante essa questão era:

D. Manuel do Cenáculo leu os tratados biblioteconômicos que no seu tempo eram recomendados e que tinham reputação em toda a Europa. Essas leituras serviram para se documentar sobre as bibliotecas da Europa, ver no papel as mais reputadas e, naturalmente, para formar as suas ideias neste domínio e pôr em prática os ensinamentos das autoridades na matéria. O que deixou como reflexão nos seus textos permite -nos com provar que via a biblioteca como o meio privilegiado de apoio ao estudo e como tarefa patriótica, mas que só faz sentido quando na sua criação o patrono se orienta pelas causas apontadas por Morhof: amor à sabedoria e a utilidade pública. A utilidade pública, ou uso público, que Cenáculo aponta como finalidade para as bibliotecas é uma ideia recorrente na sua obra […].162

160VAZ. Os Livros e a Biblioteca de Espólios de Frei D. Manuel do Cenáculo: repertório

de correspondência, róis de livros e doações a bibliotecas. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2009.

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DOMINGOS. Casa dos Livros de Beja…

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Morhof: Plyhistor, sive de auctorum notitia et rerum commentarii . Tratado em alemão que se apresentava como um guia sobre o conhecimento e o ensino, pre sente em muitos escritos de Cenáculo como necessário de ser lido por seus pares. VAZ, Francisco António Lourenço. A ideia de Biblioteca na obra de D. Frei Manuel do Cenáculo. Acervos Patrimoniais Novas Perspectivas e Abordagens. Campo Arqueólogico de Mértola: Portugal, Mértola, 2012. p. 87.

Contribuir na Real Biblioteca Pública pareceu importante a Cenáculo, tanto em seus ideais de bibliógrafo, como de reformador, e ainda , pensando uma pedagogia para além das instituições de ensino. Poder participar do novo projeto de instituição o traz de volta ao meio o quão importante foi aos dois letrados, como pudemos notar nas palavras de oferecimento:

Reconhecer e sublinhar os esforços desenvolvidos pelo „primeiro Benfeitor e Director‟ – há décadas afastado do centro da Corte –, pela parte de quem era de iure o novo Director, demonstrava como assumia a herança directa de passado tão honroso.163

Assim, através do catálogo, podemos nos aprofundar mais nos planos de conhecimento que Manuel do Cenáculo e António Ribeiro dos Santos, letrados de destaque em diferentes momentos da história de Portugal, convergiram nas obras que achavam de valia a formação da “Casa de Sabedoria” do reino português.

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