APRES AVOIR DELIBERE DECIDE
M. François-Gilles CHATELUS :
A obra de Hebreus foi construída a partir de uma perspicácia na escrita percebida em cada palavra. Os textos se inscrevem no construto lógico e fonético. Em Hb 1,1 há a predominância da consoante pi que atribui ao texto uma rima. Desse modo, por se tratar de um grego apurado, também se aproximou do clássico, apesar de sua escrita ser fundamentada no vocabulário do grego koinê. Barrera
(1995) atesta essa articulação, ao pontuar os traços do grego koinê, embora o texto grego em Hebreus se diferencia dos padrões presentes no Novo Testamento.
De acordo com Bittencourt (1993, p. 48) o “koinè possui três qualidades distintas: (1) a qualidade temporal de ser pós-clássica; (2) a qualidade „comum‟ de não ser dialética; (3) a qualidade de ser „comum‟ no sentido cultural, de ser „vulgar‟”. No entanto, a escrita complexa da obra de Hebreus possuía uma linguagem diferenciada no que diz respeito às suas características literárias. Apesar de a escrita de Hebreus ser do grego koinè, o redator trabalhou com as relações das palavras, no estabelecimento do sentido entre Protohebreus e a redação final.
Koester (2005) entende o gênero literário de Hebreus como um sermão, especificamente um sermão cristão que facilita o acesso às pessoas comuns. Isso significa que a escrita de Hebreus é complexa de padrão intelectual para aqueles que analisam sua formação estrutural, porém as conclusões na redação são perceptíveis. A sua linguagem é compreensível, sendo profundo o meio pelo qual se chega a tal conclusão.
Dana (1990) consubstancia com essa concepção, ao assinalar que o grego do Novo Testamento se torna notável por se distinguir da literatura tipicamente helênica ou até mesmo das literaturas do grego clássico. Esse, mesmo possuindo uma considerável linguagem grega, mostra-se acessível a vários grupos da sociedade. Dessa forma, de acordo com a linguagem e a preocupação com os destinatários influenciaram a redação final de Hebreus. Porém esses fatores não são, por si sós, conclusivos para afirmar que o redator sabia de fato o hebraico. Mediante essa lacuna, é possível analisar duas situações: a primeira é a confirmação de que o Redator Final cita a Septuaginta, como se vê no exemplo do quadro 3.
Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2019).
As duas citações dos textos do Primeiro Testamento em Hb 1.5 elucidam que o redator fez uma cópia de Sl 2,7 e 2Sm 7,14 (Septuaginta). Nesse sentido, Mazzarolo (2011, p. 29) reconhece que a obra de Hebreus é a do Novo Testamento que mais cita o Primeiro Testamento pela Septuaginta. Considera-se que o redator de Hebreus fez algumas alterações quando necessário. O Redator Final articulou o Primeiro Testamento com as novas realidades, estabelecendo o seu princípio hermenêutico, contrapondo à percepção judaica helenizada30. As citações são da Septuaginta em Hb 1,5. Porém, quando se observa Hb 1,6, a situação é diferente, pois requer mais atenção, sendo que se identificam as divergências nas comparações.
Quadro 4 - Diferenças de Hb 1,6 com a Septuaginta
Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2019).
Em uma observação visual do Sl 96.7 e da tradução da Septuaginta, destacam-se algumas alterações: a conjugação verbal, a supressão do artigo e a substituição do pronome pelo substantivo. Logo, pode-se afirmar que essas seriam adequações realizadas pelo autor, como postula Mazzarolo (2011).
Por sua vez, Barrera (1995, p. 611) entende que o livro de “Hebreus e os manuscritos do Mar Morto apontam a possibilidade de que tais citações conheçam variantes de uma recensão da LXX que se baseara em textos hebraicos perdidos”. Isso justificaria algumas diferenças entre as citações idênticas e as com distinções. Porém, é relevante a consideração de que a obra de Hebreus foi composta pelo texto básico da Septuaginta. Assim, as alterações estabelecidas em Hb 1,6 podem corresponder aos fundamentos gerados pelo texto em hebraico, o que é perceptível quando se comparam aos três versículos no quadro 5.
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Koester (2005) trata da ideia de que o Judaísmo se adaptou às estruturas helênicas pela tradução da Septuaginta e das adaptações feitas, a partir da busca de liberdade religiosa tanto no império grego como romano.
Quadro 5 - Comparação de Hb 1,6 com a Septuaginta e o texto hebraico
Fonte: Elaborado pelo pesquisador (2019).
A partir dessa comparativa, percebe-se que o termo Elohim é traduzido por aggelos ( ) - anjos. É uma interpretação da Septuaginta aceita pelo autor de Hebreus. Porém, na conjugação do verbo prostrar proskuneo ( ), tanto em Hebreus como na Septuaginta aparece no imperativo, designando uma ordem, ou seja, todos os anjos deveriam se prostrar perante Deus.
Nesse panorama, a palavra proskuveo é a traduzida por hishtaranu ( ) - prostrar - em hebraico, que se encontra no plural Hitpael31
. Na compreensão do termo hebraico, o escritor da Septuaginta fez a tradução para a segunda pessoa do plural, enquanto em Hebreus empregou-se a terceira pessoa do plural que é completamente plausível ao se referir ao hebraico. Nesse movimento, em Hebreus, o redator assumiu essa particularidade. Primeiro, porque sua interpretação se deu a partir do texto original em hebraico. Segundo, a sua tradução aludiu a conotação mais pessoal. Por conseguinte, as alterações propostas pelo Redator Final não fazem parte apenas de uma conjectura, de paralelos, mas de uma conferência dos textos em hebraico, haja vista que o redator se utilizou de características particulares, distintas da Septuaginta, no meio tradutório.
Tal entendimento de que a obra de Hebreus dialoga diretamente com os textos em hebraico é fundamental para a construção do monoteísmo cristão do primeiro século. Em Hebreus, com a dualidade entre transcendência e imanência descrita nos textos hebraicos, construíram-se os princípios da transcendência e da imanência, do absoluto e do antropomórfico. A construção interpretativa e as estruturas hermenêuticas na visão de Jesus Cristo como criador e Filho de Deus manifestaram-se em uma das vertentes hebraicas do sagrado. Como sequência do construto, nota-se que a compreensão de quem é Jesus Cristo em Hebreus foi
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fundante para estabelecer a sua relação com as categorias constituídas nos escritos hebraicos. Assim, tem-se a concepção cristológica em que estão inseridos os autores do livro.