Na Escola Libertá, os alunos têm a oportunidade de, no sexto ano, ter aulas de Alemão, Francês, Espanhol e Inglês. A partir dessa experiência com as línguas adicionais, uma delas é escolhida pelo aluno para ser estudada até o final do ensino médio. De acordo com Lucena (2012, s/p) a preocupação com o ensino de línguas nessa instituição excede a preocupação com normas linguísticas e abrange a “diversidade do próprio contexto”. A autora afirma ainda que ela e outras educadoras da Escola Libertá “focam[...] nas culturas e práticas locais, nas esferas cívicas e políticas, e acreditam[...] que o processo de aquisição de uma língua estrangeira é desenvolvido de modo muito mais significativo e efetivo quando a identidade local move nossa práxis” (LUCENA, 2012, s/p)
Importa considerar, portanto, aspectos do ambiente de sala de aula, especialmente no que concerne às interações sociais que se dão nesse contexto, como foi o caso de minha primeira interação com os alunos, cuja experiência descrevo a seguir.
Uma vez em sala, a recepção não foi diferente da que eu havia vivenciado em outros momentos, na escola. Daniela fez uma breve apresentação, explicando aos alunos que eu também era teacher, e, em seguida, passou a palavra para que eu mesma me apresentasse. Expliquei a eles que, embora teacher fosse realmente minha profissão, eu estava ali como uma estudante e pesquisadora, e que não daria aula para eles em momento algum. Tentei deixar claro qual seria o objeto de minha pesquisa, e adiantei que em determinado momento solicitaria a eles que me concedessem uma entrevista, salientando que só participariam os que quisessem e concordassem em fazê-lo, mas que falaríamos sobre isso novamente em outro momento. Por fim, questionei quanto à existência de dúvidas, ao que eles responderam não haver nenhuma, expressando um sonoro “não” (INFORMAÇÃO VERBAL)28
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Em seguida, sentei-me para acompanhar a aula, e eles continuaram suas atividades normalmente. A impressão que tive é que, alguns segundos após eu me sentar, eles esqueceram completamente de minha presença ali. Presumi que essa atitude e postura deles poderiam ser devido à constante presença de estagiários e pesquisadores nas salas de aula desta instituição. Nas aulas seguintes, no entanto, embora pouca coisa tenha mudado, em alguns momentos, alguns alunos se dirigiam a mim para um comentário breve, ou respondiam uma pergunta minha sobre alguma situação da aula, ou ainda quando tiravam dúvidas sobre vocabulário em inglês etc. Isso demonstrou que minha presença naquele ambiente não era neutra,
mesmo por que essa é uma condição impossível para o etnógrafo ou aqueles
que atuam em pesquisas de cunho etnográfico, além de ser indesejável, uma vez que de acordo com Mason (1996, p.64)29, o “objetivo epistemológico” da imersão do pesquisador no contexto pesquisado é justamente obter uma visão êmica dos acontecimentos, o que implica sua participação enquanto ator social envolvido na pesquisa com o intuito de fazer aparecer a voz dos participantes. No entanto, reconheço e corroboro com outros pesquisadores (LUCENA, 2006, por exemplo), que a visão desses acontecimentos é atravessado por minha intersubjetividade.
A naturalidade com a qual os alunos me viam na sala de aula não tornou o processo de interação mais fácil. Acerca da dificuldade de interação e relacionamento encontrada pelos pesquisadores no campo de pesquisa Mason (1996) explica que
Desenvolver relacionamentos no contexto [de pesquisa] pode ser muito difícil, e a forma como [...] [o pesquisador] o faz pode ter implicações significantes para o tipo de acesso que [ele] irá, de fato, obter. O desenvolvimento de relacionamentos em seu contexto será, ao menos em parte, governado por uma gama de normas sociais (MASON, 1996, p.66)30
Por conta dessa dificuldade, a princípio, procurei não me aproximar muito dos alunos, esperando que as relações fluíssem da
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No original: “epistemological purpose” (MASON, 1996, p.64). 30
No original: “Developing relationships in your setting can be very difficult, and the way you do this is likely to have significant implications for the kind of access you actually achieve. The development of relationships in your setting will, at least in part, be governed by a range of social norms”.
maneira mais natural possível, o que nem sempre ocorreu, devido a maneira fragmentada como se deu o período de observação, dado que a luta dos professores federais em 2012 teve como consequência a paralisação das atividades em sala de aula. Mesmo assim, o período de observação contribuiu para que eu tivesse uma visão mais apurada e mais sensível sobre o que acontecia em sala de aula. Este período foi fundamental também para que eu me ambientasse no contexto de pesquisa, de modo que, mesmo após o período de greve, meu retorno à sala de aula foi tranquilo, apesar das circunstâncias e situações que uma paralisação sempre acarreta.
Terminada a greve, que teve a duração de cerca de cinco meses, comuniquei-me com Daniela por e-mail e, em seguida, pessoalmente, pois entendia que, frente à alteração do ano letivo por conta do protesto, existia a possibilidade de que minha presença na sala de aula viesse a ser de alguma forma problemática, ou mesmo incômoda, visto que a professora e os alunos já teriam uma série de novas situações com as quais lidarem, como a mudança do calendário, por exemplo. Fiz questão de deixar claro à Daniela que entenderia perfeitamente seu posicionamento caso ela preferisse que eu não retornasse às suas aulas naquele momento. Ela, no entanto, disse não haver nenhum problema, e foi, novamente, extremamente receptiva.