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Dans le document Digital Technical Journal (Page 49-58)

A noite era escura e fria, naquele 14 de agosto de 1791. O céu sobre Bois Caïman (Ver mapa introdutório) era iluminado apenas pela luz dos raios, enquanto que o ressoar dos trovões anunciava a violenta tempestade por chegar. O vento frio soprava castigando os corpos das duas centenas de indivíduos presentes no encontro - representantes enviados das plantations da região. Enquanto a tempestade aumentava sua força, todos se mantinham em volta de um homem chamado Boukman, atentos a doce sonoridade de suas palavras conspiratórias. Enquanto os céus eram castigados pelas descargas elétricas dos relâmpagos, uma mulher negra, alta, deslocou-se para o centro da reunião, movimentando seu corpo de forma sinistra, sua dança gritava as palavras que as almas de todos os presentes necessitavam ouvir: sedição! Liberdade! Enquanto brandia e rodopiava um longo facão afiado que lhe servia como companheiro de dança, ela cantava os sons da distante África. De cara para o chão, os presentes repetiam em coro a canção da terra distante há muito deixada para trás. Um porco negro foi arrastado até a presença da mulher, que o sangrou. O fluído vermelho do

19 Entre os brancos, tanto os Grands Blancs (grandes proprietários de terra, a burguesia marítima e burocratas

nascidos na França) quanto os Petits Blancs (sem propriedades), gozavam da cidadania plena, enquanto que para os mulatos, essa cidadania era parcial, privando-os, por exemplo, do direito ao voto e ao acesso a cargos públicos

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animal foi compartilhado por todos numa tigela de madeira, e então, de joelhos, juraram lealdade a Boukman e às suas palavras de liberdade.21

Aqueles que estiveram na reunião em Bois Caïman disseminaram a palavra e esperaram o sinal. Dias depois, quando os escravos em Le Cap (Cap Haïtien) viram as plantations em chamas, eles sabiam que a revolta tinha sido iniciada – ali estava a tão sonhada vingança (ver figura 3). A reação inicial contra a escravidão foi tão sangrenta, humilhante e degradante quanto a própria escravidão (JAMES, 1989. p. 88),22 embora segundo James (JAMES, 1989. p. 89), essa sede por sangue tenha sido apenas no começo da revolta e que a violência deste não se comparasse com a da escravidão (JAMES, 1989. p. 89).

Figura 3: Incendie de la Plaine du Cap. - Massacre des Blancs par les Noirs, 1833.

Fonte: France Militaire. Histoire Des Armèes Françaises de terre et de mer de 1792 a 1833. Ilustração francesa retratando o ataque dos ex-escravos aos brancos em Cap Haïtien e a queima das plantations.

Paralelamente, mulatos e escravos se rebelaram por razões distintas. Enquanto que ao norte, os escravos lutavam por liberdade, os mulatos lutavam pela igualdade de direitos23 com

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Texto adaptado da descrição da cerimonia vodu a qual se atribui o inícioda revolução haitiana. Texto original em: (BELLEGARDE, 1953 apud: LÓPEZ, 2009, p. 75.

22 “In the frenzy of the first encounters they killed all. Yet they spared the priests whom they feared and the

surgeons who had been kind to them. They, whose women had undergone countless violations, violated all the women who fell into their hands, often on the bodies of their still bleeding husbands, fathers and brothers. ‘Vengeance! Vengeance!’ was their war-cry, and one of them carried a white child on a pike as a standard” (JAMES, 1989. p. 88).

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A luta por igualdade entre brancos e mulatos baseava-se, entre outras coisas, no decreto de 15 de maio, pelo qual a Assembleia Nacional na metrópole francesa reconhecia a atribuição de direitos de cidadania plena aos

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os brancos. Quando a situação tornou-se insustentável e o medo de que negros e mulatos se juntassem contra os brancos, estes ofereceram aos mulatos o direito a cidadania plena (MONTENEGRO, 2013, p.24). Contudo, dois dias após o acordo assinado em outubro entre Brancos e mulatos, chegou um novo decreto da metrópole revogando o decreto de maio (HERRMANN, 2005). Quando o acordo entre brancos e mulatos falhou, não demorou muito até que eles se juntassem com os escravos.

Diante da destruição na colônia, a Assembleia Nacional, votou em 1792, pela atribuição da cidadania completa as pessoas de cor livres. A notícia foi acompanhada por uma força militar. Os escravos, não contentes com uma paz que não lhes traria liberdade, continuaram o conflito (HERRMANN, 2005). Diante da situação caótica e frente a ameaça representadas por Espanha e Inglaterra, o enviado francês na colônia cedeu e extinguiu a escravidão em Saint-Domingue. Decisão que posteriormente foi endossada pela Assembleia Nacional (HERRMANN, 2005, p. 78).

Em 1801 Toussaint Louverture promulgou uma constituição colonial na qual reafirmava o fim da escravidão (SCOTT, 2011, p. 1065). Governador-geral de Saint- Domingue entre 1795 e 1802, Louverture não visava quebrar os laços da colônia com a França (PONGNON, 2013, p. 28-29). Paralelamente aos acontecimentos no Haiti, Napoleão chegou ao poder na França. Confrontado com a grande autonomia do general haitiano, Napoleão enviou, ainda em 1801, um contingente de mais de 20.000 soldados para retomar o controle da colônia e prender Louverture (MONTENEGRO, 2013, p. 26). Detido, o líder haitiano morreu na França, levando consigo o projeto de um Saint-Domingue de homens livres ligados à França24 (PONGNON, 2013, p. 30).

A prisão de Louverture, uma reação da metrópole à autonomia adquirida pela colônia, levou os libertos novamente às armas. A notícia de que Napoleão reestabelecera o trabalho escravo nas demais colônias no Caribe (Martinica e Guadalupe) (SCOTT, 2011, p. 1066), incendiou ainda mais a luta (MONTENEGRO, 2013, p. 27).

A não aceitação da lógica imposta pela metrópole culminou na guerra de independência. Ao final do conflito a França perdeu sua principal colônia no Atlântico.25

mulatos (HERRMANN, 2005). Contudo, os brancos da colônia resistiram até onde puderam para não permitir que isso acontecesse, até que o medo dos escravos os fez ceder.

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“ ... L’Ouverture, por outro lado, projetava a nação haitiana não como um foco de resistência anti-ocidental do colonialismo, mas via nele mesmo a base de sustentação política do Haiti livre. [...] Assim, o projeto autonomista de Toussaint queria construir a nação haitiana sem ruptura total com a França”. ( PONGNON, 2013, p. 30).

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Ao final, a decisão de Napoleão custaria a base do império francês no Caribe, a colônia mais rica que dispunha e uma perda em vidas humanas estimada em 50.000 soldados e marinheiros. Do lado dos insurgentes e dos civis,

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A independência foi proclamada em primeiro de janeiro 1804 por Jean-Jacques Dessalines, que havia lutado sob comando de Toussaint Louverture. O novo país rompia com a França e com a Europa. Negou o nome Saint Domingue, atribuído pelo colonizador, e adotou o nome de Haiti, o nome utilizado pelos antigos habitantes da Ilha, os taínos (POPKIN, 2012, p. 135). Entre as medidas tomadas por Dessalines para eliminar a presença francesa na nova nação consta o massacre dos brancos que não partiram da colônia, com a exceção de alguns poucos casos.26 Nas palavras do próprio Dessalines: “Nós demos a esses verdadeiros canibais guerra por guerra, crimes por crimes, ultraje por ultraje. Sim, eu salvei meu país, eu vinguei a América” (ARDOUIN, 1958 apud POPKIN, 2012, p. 137).

Figura 4: Representação de Dessalines feita por Manuel Lopez Lopez Lodibo, no livro Vida de J.J. Dessalines, gefe de los negros de Santo Domingo, de 1806.

Tanto nesta imagem quanto na figura 3, é notável as representações do Haiti a partir da violência contra os brancos. Fonte: DUBROCA, Louis. Vida de J. J. Dessalines, gefe de los negros de Santo

Domingo. Traducida del francês. Oficina de D. Mariano de Zúñiga y Ontiveros. 1806.

as perdas foram semelhantes (POPKIN, 2012, p.134). Um senso após a declaração de independência apontou que o novo país tinha uma população de 380.000 habitantes (POPKIN, 2012, p.134), quase 100.000 pessoas a menos que a população total da colônia antes da revolução - dependendo da referência adotada (ver tabela 1).

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alguns desertores do exército polonês que veio combater os haitianos, alguns profissionais necessários ao novo país e uma colônia alemã a noroeste (POPKIN, 2012, p.137).

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A violência da luta contra o colonizador europeu foi um choque, uma afronta a noção de que os brancos, por sua civilidade, estariam destinados a controlar o mundo (POPKIN, 2012. P. 158). De repente o mundo “civilizado” se viu derrotado por aqueles a quem atribuíam o estado de barbaridade e selvageria. Por conta disso, o Haiti surgiu isolado. O rompimento do poder da metrópole sobre o território era um risco aos interesses europeus no restante do continente, e a vitoriosa sublevação de escravos mostrou-se uma preocupação para os escravocratas, que temiam que o exemplo haitiano servisse de inspiração para outras revoltas. Assim o Haiti surgiu forçosamente isolado por Estados Unidos e França, que não reconheceram o novo estado de imediato e posteriormente não o fizeram sem duras penas aos haitianos. Mesmo para as novas nações que surgiriam no continente, o Haiti era um vizinho incômodo e as representações a respeito do novo país tendiam a seguir tal perspectiva (ver figuras 3 e 4).

Seja de maneira consciente e planejada, ou como uma reação natural de um grupo que vê o seu prestígio ameaçado, após a derrota dos franceses para os haitianos, surgiu uma série de livros sobre o assunto. O interesse natural pelo acontecimento foi acompanhado pela construção de imagens bem negativas a respeito do Haiti (POPKIN, 2012. P. 163). O livro Vida de J.J. Dessalines, escrito por Louis Dubroca deixa transparecer essa visão negativa a respeito do Haiti (ver figura 4):

“A desunião dos nativos brancos daquela ilha foi uma das causas de os negros terem se apossado dela, e que eles perecessem em suas mãos infames com diferentes martírios inventados por uma crueldade que estremece... infelizes europeus e crioulos... vítimas desgraçadas” 27

(DUBROCA, 1806, p. 1).

Como pode ser aferido no texto, o autor não apenas atribui a vitória dos negros a uma falha dos brancos, como os colocam, juntamente com os mulatos, nas condições de vítimas. A escrita corrobora com a distinção existente entre os brancos (aos quais se atribui uma responsabilidade e consequentemente maior importância) e os crioulos. Aos negros recai a caracterização negativa, a crueldade, a violência. A própria vitória dos negros é descrita como consequência das falha dos brancos e não pela capacidade de articulação e resiliência dos negros durante o conflito.

Os massacres (de brancos) ocorridos causaram um choque num mundo eurocêntrico. A imagem do Haiti foi manchada a partir destes episódios (ver figuras 3 e 4). A imagem de

27 No original: La desunion de los nativos blancos de aquella isla fué una de las causas de que los negros se apoderasen de ella, y que ellos pereciesen à sus infames manos com diferentes martírios inventados por uma crueldade que estremece... ¡ Infelices Europeos y criollos... víctimas desgraciadas!

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um país violento foi criada e alimentada pelos jornais franceses. As disputas internas por poder que se sucederam no Haiti foram utilizadas para agravar ainda mais a imagem do país como incapaz de se autogerir e a caminho do barbarismo (POPKIN, 2012. P. 163). A única exceção na série de adjetivos negativos atribuídos ao Haiti recai sobre a figura de Toussaint Louverture, que foi comparado com a figura de George Washington. Mas Louverture só adquire essa imagem positiva por, além de suas próprias habilidades como líder, sua proximidade com o mundo dos brancos (POPKIN, 2012, p. 164). É válido lembrar que, Louverture não queria cortar os laços com a França para a formação de uma nação independente (POPKIN, 2012. P. 30), mas mudar a relação existente entre a metrópole e a colônia. Assim, é crível que sua imagem positiva se deve, ao menos em parte, a atribuição de uma suposta civilidade à sua pessoa, expressa na aceitação da ordem estabelecida pelos homens brancos. Do contrário, aqueles que tentaram romper esta ordem, ou seja, os demais líderes da revolução e posteriormente o país inteiro, foram retratados de forma negativa.

Contudo, a construção da imagem de um país de barbaridades e atrocidades não se deu sem resposta. Baron de Vastey28 foi um dos primeiros autores não-branco a escrever condenando o colonialismo europeu. Este que seria uma “conspiração para oprimir populações de cor ao redor do mundo” (POPKIN, 2012. P. 148). Thomas Madiou em 1847, e Alexis Beaubrun em 1853, publicaram respectivamente Histoire d’Haïti e Études sur l’histoire d’Haïti (POPKIN, 2012. P. 156), contando uma nova versão da história haitiana.

Em 1805, Dessalines proclamou-se imperador do Haiti e outorgou uma constituição com caráter militarista29 e sem limites aos seus poderes (POPKIN, p. 138). No comando, o líder haitiano tinha duas opções a seguir, uma que levava à reforma agrária e outra que mantinha o sistema das plantations. Ele optou pela segunda (MONTENEGRO, 2013, p. 28). Dessalines era políticamente radical (PONGNON, 2013, p. 32), de modo que sua postura reforçou ainda mais a caracterização do Haiti como um estado Bárbaro – Enquanto preparava- se para defender-se de uma possível agressão militar, o Haiti era vítima da propaganda. Quando Dessalines marchou sobre Santo Domingo, na porção oriental da ilha, até mesmo os escravos ficaram receosos de recebê-lo (POPKIN, 2012, p. 144). Ao retirar-se da porção oriental, temeroso de um ataque após se deparar com uma esquadra francesa, ele empregou a

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representante de Henri Christophe.

29 “Art. 9 – A pessoa não é digna de ser haitiana se não é bom pai, bom filho, um bom marido, e acima de

especialmente um bom soldado; Art. 15 – O Império do Hayti é único e indivisível. Seu território é distribuido em 6 divisões militares”. Art. 38 – Os generais de Divisão e de Brigada, são membros diretos do Concelho de Estado e eles o compõe” (HAITI, 1805).

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tática da terra arrasada30, o que foi utilizado para agravar ainda mais a imagem que o país de negros livres era um perigo para os vizinhos (POPKIN, 2012, p. 144).

Em 1806 Dessalines foi morto por uma conspiração de seus homens de confiança e o Haiti dividiu-se em um reino ao norte, governada por Henri Christophe, e uma república ao sul, governada vitaliciamente por Alexandre Pétion. (POPKIN, 2012, p. 145), tendo este contribuído com a independência das colônias americanas31.

Tanto Christophe quanto Pétion haviam realizados esforços, cada um a seu modo, pela educação. A concepção de educação para Christophe englobava toda a população, não que ele tenha conseguido alcançar seu objetivo. Pétion, por sua vez, concentrou os esforços numa educação europeia voltada para os filhos da elite, uma educação em língua francesa. A barreira linguística excluía boa parte da população (POPKIN, 2012, p. 148). Ainda hoje, (como aponta Pongnon), tais barreiras ainda são existentes, e isso se torna mais visível quando ele distingue dois setores da sociedade haitiana: os educadores e os camponeses. Aqueles cuja “socialização” se dá em francês e cultivam “valores do mundo ocidental” enquanto estes reproduzem seus valores de um “estilo de vida não ocidental”, O crioulo, “isolados da capital, com forte precariedade da vida social” (PONGNON, 2013, p. 17).

A divisão acima citada também serve para pensar em como as ideias de civilização, seguindo um modelo europeu estavam disseminadas e impregnadas na mentalidade da elite haitiana. A mesma França que foi tida como inimigo e constantemente uma ameaça, ainda servia como modelo cultural para a elite do país (POPKIN, 2012, p. 154). Tanto o código civil quanto o criminal assinados pelo governo Boyer foram fortemente influenciados pelos códigos franceses de Napoleão (POPKIN, 2012, p. 155). Somente com a ocupação americana em 1915 a classe intelectual haitiana deixaria de tomar a cultura europeia como referência principal e passaria a dar mais atenção a sua ancestralidade africana (POPKIN, 2012, p. 165).

Em 1820, com Jean-Pierre Boyer reunificando o Haiti, a agricultura de subsistência expandiu-se para o norte (MONTENEGRO, 2013, p. 29-30). Em 1825 o líder haitiano aceitou pagar uma “indenização” a França em troca do reconhecimento da independência. O valor cobrado pelos franceses foi de 150 milhões de francos, um valor exorbitante para a república

30 Tática de devastar a terra para que o inimigo não tenha como subsistir nela.

31 Em 1816, Pétion recebe Simon Bolívar em sua república. Lá, Bolívar reorganizou suas tropas – ele chegou ao

Haiti após ser derrotado pelos espanhóis em sua primeira tentativa de expulsá-los. Derrotado mais uma vez, Bolívar retornou ao Haiti para recompor suas forças e finalmente conseguir sua vitória na Venezuela. Pelo apoio em armas e homens o desejo de Pétion era que a escravidão fosse abolida, Desejo que não foi atendido (SEITENFUS, 2014, p 51-52). Os “libertadores temiam o possível contágio das ideias e da violência de Santo Domingo” (SEITENFUS, 2014, p. 52).

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negra, que teve de pegar empréstimos com bancos franceses e estadunidenses para cumprir com a responsabilidade assumida.32 Mediante o acordo, a França reconheceu o Haiti em 1825, os Estados Unidos só o fariam em 1862 (MONTENEGRO, p. 30). Em seu nascimento o país caribenho sofreu com o embargo econômico francês e americano (MONTENEGRO, p. 30), embora à época da negociação pelo reconhecimento da independência, já existisse um crescente comércio entre a França e a sua ex-colônia (POPKIN, 2012, p. 151).

Contudo, o acordo não era nocivo ao Haiti unicamente pelo alto endividamento do país caribenho, mas também pelo agravamento da dependência do comércio externo que dava a França termos favoráveis (POPKIN, 2012, p. 156).

Diante das dificuldades em conseguir pagar o débito forçosamente contraído, o Haiti se viu sob ameaças de uma intervenção francesa a fim de que o débito fosse devidamente quitado. Em 1838, a França reviu o seu acordo com o Haiti, reduzindo a quantia “devida”, o prazo para o pagamento e renunciou as ameaças de uma intervenção (POPKIN, 2012, p. 153). Mais de um século e meio depois, em 2003, o controverso presidente haitiano, Jean-Bertrand- Aristide iniciou uma campanha para que a França reembolsasse o valor pago pelos haitianos. O valor total atualizado era de 21 bilhões de dólares (POPKIN, 2012, p. 153). No ano seguinte Aristide foi deposto do poder.

Diante do medo de uma invasão francesa, o exército detinha um papel importante no Haiti. De fato, até ter sido dissolvido por Aristides, ao retornar ao governo em 1994, o exército desempenhou um papel de peso, influenciando os rumos políticos do país caribenho.

O estado haitiano ainda hoje mantem uma heterogenia que descende desde a colônia. À época do domínio francês, Brancos, mulatos e negros formavam três grupos distintos. Quando estourou a revolução, mulatos e escravos tinham em comum unicamente a presença do branco como barreira aos seus objetivos, para um a cidadania plena, para o outro a liberdade. Segundo Casimir, “A combinação de forças políticas presentes em Santo Domingo no final do século 18 só conseguiu encontrar um efêmero equilíbrio, quando uniram força pela destruição do domínio colonial” (CASIMIR, 2009, p. 241. Apud PONGNON, 2013, p. 73). Efêmero, por que como é perceptível, os dois grupos ocuparam posições distintas dentro do país.

Diferente do que aconteceria no restante do continente, a independência haitiana não foi conduzida de forma exclusiva por uma elite dominante, mas pelo conjunto formado por

32 para se ter ideia, a Louisiana e seus 2.150.000 Km² de terra (LOPES, 2012, p. 13), foi vendida pelos franceses

aos Estados Unidos pelo valor de 80 milhões de francos (QUIGLEY, 2010) enquanto que os haitianos tiveram de pagar quase o dobro pelo reconhecimento do seu país que não tinha mais que 76.00032 km².

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negros (representantes de um mundo) e crioulos (representantes, ou ao menos, intermediários de outro mundo). Assim, percebe-se a situação haitiana não como fruto unicamente de uma disputa de poder por dois grupos distintos, mas por um confronto entre duas concepções distintas: Uma que buscou se reinventar ao romper com a lógica ocidental33 (a dos negros) e outra que buscava justamente manter-se nele, agora por conta própria (a dos mulatos). Essa diferença entre negros e mulatos, herdada do regime colonial, impediu a formação de uma concepção de bem comum e a “impossibilidade da formação de um contrato social” entre as partes34 (CASIMIR, 2008, p. 8).

O código rural de 1826 classificava a população rural como um grupo distinto, com direitos limitados e alvo de uma legislação especial – por esse mesmo tipo de distinção os mulatos se revoltaram contra os brancos da colônia 40 anos atrás – (POPKIN, 2012, p. 153). Vale lembrar que ainda hoje há sérias diferenças entre a população urbana e camponesa, que se comunica principalmente em Kreyól35, carecem de assistência e vivem um estilo de vida não-ocidental (PONGNON, 2013, p. 17).

O período entre 1843 e 1915 foi um período de muita instabilidade política, marcada pela morte ou deposição de 22 líderes (GIRARD, 2010, p. 60 apud HOFFMANN, 2013). Em 1914 foram três os presidentes que assumiram o país (MONTENEGRO, 2013, p. 30). Em meio ao caos, tropas francesas, alemãs e norte-americanas desembarcaram em Porto-Príncipe sob alegação de protegerem seus cidadãos no país. Em 1915, sob o pretexto de reestabelecer a ordem e manter a independência haitiana, os Estados Unidos ocuparam o país (MONTENEGRO, 2013, p. 31).

A invasão americana (ver figura 5) foi apenas uma de outras tantas intervenções na América Latina ao longo do século XX. Os estadunidenses transformaram o Haiti num protetorado, impondo a ele as modificações que necessárias ao atendimento de seus interesses. Além das motivações econômicas, desde 1847 – antes mesmo de reconhecer a independência haitiana – políticos estadunidenses demonstravam interesse pela antiga colônia francesa em razão de seu posicionamento geográfico, situada na rota do Canal do Panamá (PONGNON, 2013, p. 70). Durante a intervenção estadunidense, pela primeira vez desde a

33 Por lógica ocidental queremos dizer relação de trabalho, governo, e a desproporcionalidade nas relações entre

países nas relações internacionais.

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« C’est ce non-dit de nos intellectuels sur le caractère de l’État qui sous-tend l’infranchissable distance entre les élites et les masses, qui ne permet pas de traduire en pratique politique une conception quelconque du bien commun et qui explique l’impossibilité de formuler un contrat social. » em : (CASIMIR, 2008, p. 8).

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Kréyol, ou Crioulo, é uma língua falada no Haiti, tem sua base no Francês embora contenha fortes elementos

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