A experiência só pode ser interpretada narrativamente, diz Larrosa (2004) aproximando-se da ideia de que é na construção de um curso da vida, na organização dos acontecimentos vividos segundo uma trama de sentido por nós desenhada em um espaço temporal, que a experiência ganha sentido. Em suas palavras,
É na história das nossas vidas que os eventos têm acesso a uma ordem e a um significado. Em uma trama é como articulamos os acontecimentos de nossa vida em uma sequência significativa. E é também em uma trama que construímos a nossa própria continuidade, ou descontinuidade, ao longo dos acontecimentos de nossas vidas. (LARROSA, 2004, p. 17).
Por assim ser, nesta narrativa, a própria narrativa (ou o ato de narrar) é assumida como fio. Parto da ideia de que as escritas que percorrem este trabalho são quase todas de natureza narrativa: fazer memorial de formação é assumir a tarefa de narrar a sua própria vida. O próprio Walter Benjamin (1994), em seu famoso escrito O narrador, anuncia que é na narração que a memória encontra o lócus central para os seus jogos.
Para se fazer fio, a narrativa foi pensada tendo como foco os narradores que aqui estão, narradores que são narradores da sua própria vida. O deslocamento de papéis exercido por quem narra é a ação que caracteriza de forma mais específica esse tipo de escrita. É neste ponto que se justifica, inclusive, a grafia tal como colocada aqui para caracterizar os memoriais de formação frente as diversas possibilidades da escrita biográfica: (auto)biografia. Os parênteses usados entre o termo auto funcionam para expor este trabalho interno exigido pela escrita de si, essa capacidade que o homem, ao narrar-se, tem de colocar-se como produtor de sentido da sua própria vida. A grafia (auto)biografia e o destaque nela empregado servem para sempre nos lembrar da figura do narrador, os deslocamentos daquele que, apresentando a sua história de vida, também a realiza, fazendo com que ela ―ganhe forma e conteúdo, adquirindo consistência e sentido ao se cimentar em torno de um eu‖. (SIBILIA, 2008, p. 32, grifos da autora).
Narrar experiências perpassa, entendo, por uma fase inicial que corresponde ao reconhecimento dessas experiências. Se coloco que nesta narrativa estão relatadas as vivências e experiências colocadas pelo professor como significativas para a compreensão da sua formação, perpasso pela ideia de que o professor identifica, reconhece e organiza as suas experiências na escrita. É deste ponto que parto para reconhecer que
A experiência de si como um eu se deve à condição de narrador do sujeito: alguém que é capaz de organizar a sua experiência na primeira pessoa do singular. Mas este não se expressa unívoca e linearmente através de suas palavras, traduzindo em texto alguma
entidade que precederia o relato e seria ―mais real‖ do que a mera narração. Em vez disso, a subjetividade se constitui na vertigem desse córrego discursivo, é nele que o eu de fato se realiza. Pois usar palavras e imagens é agir: graças a elas podemos criar universos e com elas construímos nossas subjetividades, nutrindo cada mundo com um rico acervo de significações. (SIBÍLIA, 2008, p. 32)
Ter como tendência organizar o caos em que a vida vivida se instala é o que há de rico na narrativa, já que, assim entendo, é na tentativa de estabelecer a coerência do vivido que o narrador, o professor-narrador, lança mão dos saberes e das referências que fazem a sua formação. Eis então o que aqui entendo como caráter formativo da narrativa memorialística: a compreensão que envolve a ação de fazer do vivido o curso da vida. Por ser organizador e produtor de sentido, Delory-Momberger chega a dizer o narrador como hermeneuta, ao colocar que
A autobiografia fornece um modelo tangível do modo como nossa consciência trabalha o material da vida, díspar, heterogênio, fragmentado, para constitui-lo em um conjunto dotado de unidade e coerência. O trabalho da reflexidade biográfica é de natureza hermenêutica assim como o hermeneuta considera o texto como totalidade com a qual se relaciona cada uma de suas partes, o autobiográfico representa para si sua vida como um todo unitário e estruturado com o qual relaciona os momentos de sua existência. Ele faz da vida vivida (erlebtes Leben, Erlebnis) o curso da vida
(Lebensverlauf). (DELORY-MOMBERGER, 2008, p. 58, grifos da
autora).
Somente narrando dizemos o que somos, mas, ao dizê-lo, não dizemos sozinhos, por ser a narrativa uma criação intertextual. O exercício de interpretar-se, por vezes chamado como um voltar-se a si mesmo, não deve ser confundido com um movimento em que o eu, este eu do narrador que é também o eu narrado, surge como único a figurar no relato. Mesmo quando assumida, enquanto lugar em que o autor é também aquele que narra e figura a ação, a narrativa continua sendo um jogo intertextual, já que o hermeneuta coloca o vivido para ser narrado tendo como referência as suas relações com o mundo e
a linguagem não só ajuda a organizar o tumultuado fluir da própria experiência e dar sentido ao mundo, mas também estabiliza o espaço e ordena o tempo, em diálogo constante com a multidão de outras vozes que também nos modelam, coloreiam e recheiam. (SIBILIA, 2008, p. 33).
Interpretar-se narrativamente seria, antes de um movimento de interpretação de si próprio fechado em uma subjetividade, um movimento de interpretação das histórias que compõem esse si próprio, em um jogo intertextual, como propõe Larrosa (2004) ao assumir que
La construcción del sentido de nuestras vidas es, fundamentalmente, um proceso interminable de oir y leer historias, de mezclar historias, de contraponer umas historias a otras, de vivir como reses que interpretan y se interpretan em tanto que ya están constituídos em esse gigantesco hervidero de historias que es la cultura. [...] la posición de autor, incluso la del autor de si mismo, es la de alguien que construye textos em relación a otros textos. (LARROSA, 2004, p. 19).
O ato de narrar é formativo, pois é na linguagem, tendo a narrativa como suporte, que o eu se desenha, em um jogo intertextual que faz dessa interlocução de histórias a sua própria história de vida. É quando em jogo com outras narrativas e histórias que ―a experiência da própria vida ganha forma e conteúdo, adquire consistência e sentido, ao se cimentar em torno de um eu” (SIBILIA, 2008, p.32, grifos da autora)