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5.2. A NÁLISIS DE LAS INTERACCIONES DEL TABLERO ELECTRÓNICO

5.2.2. Estudio de casos

5.2.2.1. Foro completo de Cristian

Não representar, a indeterminação, empecilho inaceitável, inviabilizador da própria existência (afinal, objetos humanos existem, e este texto é uma prova, embora filosoficamente fraca, disso), não significa que não haja incômodo em relação a ele.

Contudo, talvez justamente pelo senso prático que parece guiar a humanidade, aliado a um tanto de conformismo (ou mediante um conformismo que advém do senso prático, o que de todo modo possui o mesmo efeito), as indagações mais basilares a respeito dessa indeterminação parecem ter sido silenciadas em algum ponto da década de 1960, quando a filosofia das ciências humanas e sociais, tal como hoje se conhece, abandonou, ao menos em grande parte, as questões pertencentes ao reino das ciências naturais.

De fato, ao longo do final do século XIX e durante a primeira metade do XX, houve uma considerável aproximação entre as duas disciplinas, com autores como Bertrand Russell164,

os irmãos Karl165 e Michael Polanyi166, Popper167 e Kuhn168, discutindo, em pé de igualdade

(ou quase) e no campo das ciências naturais, com figuras associadas fortemente à física e à matemática, como Einstein (1879–1955), Bohr (1885–1962), Pauli (1900–1958), Heisenberg (1901–1976), Von Neumann (1903–1957), Gödel (1906–1978), Feynman (1918–1988) e tantos outros169.

164 1872–1970. Refere-se especialmente, aqui, à obra The Impact of Science on Society, publicada originalmente,

em inglês, em 1953, traduzida para o português (O Impacto da Ciência na Sociedade), pela primeira vez, em 1976.

165 1886–1964. Refere-se […] à obra The Great Transformation, publicada originalmente, em inglês, em 1944,

traduzida para o português (A Grande Transformação), pela primeira vez, em 1980.

166 1891–1976. Refere-se […] à obra Science, Faith and Society, publicada originalmente, em inglês, em 1946,

traduzida para o português (Ciência, Fé e Sociedade), pela primeira vez, em 2014.

167 1902–1994. Refere-se […] à obra Logik der Forschung, publicada originalmente, em alemão, em 1935,

traduzida para o inglês (The Logic of Scientific Discovery) primeiramente em 1959 e para o português (A Lógica

da Pesquisa Científica), a partir de versão em inglês, pela primeira vez em 1975.

168 1922–1996. Refere-se […] à obra The Structure of Scientific Revolutions, publicada originalmente, em inglês,

em 1962, traduzida para o português (A Estrutura das Revoluções Científicas), pela primeira vez, em 1975.

169 Conforme opina Alain Aspect (2010, p. xvii, tradução nossa), “O desenvolvimento da mecânica quântica no

início do século XX foi uma aventura intelectual única, que obrigou cientistas e filósofos a mudar radicalmente os conceitos usados para descrever o mundo.” No original: “The development of quantum mechanics in the beginning of the twentieth century was a unique intellectual adventure, which obliged scientists and philosophers to change radically the concepts they used to describe the world.” Cf. ASPECT, Alain.

Essa aproximação entre ciências sociais e humanas (ainda influenciadas pelos dogmas da religião) e ciências naturais havia ocorrido, contudo, muitos séculos antes. Michael Polanyi (1946, p. 12) chama atenção ao fato de que geralmente se esquece que a filosofia católica medieval foi estabelecida em um mundo imbuído de racionalismo científico, e que Santo Agostinho, que teria vivido entre os anos de 354 e 430 e que acima de tudo estabeleceu as bases da filosofia católica, testemunhou amplamente em suas Confissões seu profundo interesse pela ciência antes de sua conversão.

Quanto a essa aproximação, convém ainda lembrar que no relativamente próximo final do século XVII foi publicado o conhecido Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica de Newton (1687), no qual se fundamentaram, por meio dos preceitos que ficariam conhecidos como Leis de Newton, os princípios da mecânica clássica que permaneceram vigentes até a relatividade especial de Einstein (1905), a qual foi proposta em um artigo de 31 páginas publicado apenas no início do século XX.

Michael Polanyi (1946, p. 12) esclarece ainda que a batalha travada na mente de Agostinho por volta do ano 380 foi vencida por seu ardente desejo por uma certeza da existência de Deus que ele, Agostinho, sentia estar em perigo pelo orgulho intelectual dos homens que buscavam a cadeia de segundas causas.

Certamente não foi um desejo semelhante ao de Agostinho que, na metade do século XX, causou o afastamento entre filosofia social e humana e ciências naturais. Por exemplo, o pragmatismo dos físicos e matemáticos referenciados mais atrás parece ter sido à prova de religião, muito embora em alguns momentos eles apelassem para exemplos religiosos ou dogmáticos que, se analisados em conjunto com outras opiniões dos mesmos autores, revelar- se-iam meras elucubrações conotativas, algumas delas inclusive tendendo ao chiste.

Essas conotações arriscadas (como elas sempre são no processo comunicacional – eis aqui novamente o problema linguístico) serviram, de qualquer modo, à manutenção do elo entre filosofia e ciências naturais. É bastante conhecida, por exemplo, ante a proposição do princípio da incerteza de Heisenberg, a afirmação indignada de Einstein (EINSTEIN; BORN, 1971, p. 90-91), em correspondência de quatro de dezembro de 1926 destinada a Max Born – Deus não estaria jogando dados com o universo –, pois para ele, Einstein, não fazia sentido, sob o ponto de vista científico, qualquer equação que tendesse à indeterminação, em que não fosse possível calcular, no caso, simultaneamente e com precisão absoluta, a velocidade e a posição de certa partícula. Para Einstein (EINSTEIN; BORN, 1971, p. 148-149), era inconcebível não haver leis

Introduction. In: BELL, J. S. Speakable and Unspeakable in Quantum Mechanics. With an Introduction by Alain Aspect. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2010 [First published 1987]. p. xvii-xxxix.

naturais subjacentes que pudessem ser traduzidas e utilizadas em tal cálculo, e para ele a existência, tradução e utilização dessas leis acabaria, em dado momento170, por jogar por terra

o princípio de Heisenberg e, com ele, toda a base então vigente da mecânica quântica, cuja interpretação mais conhecida (a chamada interpretação de Copenhague) (SCHLOSSHAUER; KOFLER; ZEILINGER, 2013) funda-se justamente nessa indeterminação171. Einstein de fato

nunca aceitou essa característica da mecânica quântica, mas suas afirmações diretas deixam claro, em diversos momentos, antes e depois da afirmação indignada, que sua utilização do termo Deus há de ter sido tão somente metafórica172.

Por exemplo, em correspondência datada de dois de janeiro de 1915, a um colega suíço chamado Edgar Meyer, Einstein (1998, p. 57, tradução nossa) questiona

Por que você escreve para mim: “Deus puna o inglês”? Eu não tenho conexões estreitas nem com um nem com outro. Apenas vejo com profundo pesar que Deus pune tantos de Seus filhos por suas numerosas tolices, pelas quais só Ele mesmo pode ser considerado responsável; na minha opinião, apenas Sua inexistência poderia desculpá-lo.173

E, em outra carta, escrita em 1954 e remetida ao filósofo Eric Gutkind, Einstein (1954, tradução nossa) afirma que

170 Conforme se observa a partir da paginação informada, Einstein fez novamente referência ao “Deus que joga

dados” em outra correspondência a Max Born, datada de sete de setembro de 1944. Einstein ainda faria a Born a mesma referência uma terceira vez, em correspondência de 12 de outubro de 1953 (EINSTEIN; BORN, 1971, p. 199). Curiosamente, Born não parece ter se deixado impressionar com a argumentação, e tampouco deixou de manifestar seu próprio ponto de vista, apontando para a impropriedade do mundo determinístico defendido por Einstein. Em correspondência de resposta, datada de 10 de outubro de 1944, Born (EINSTEIN; BORN, 1971, p. 155, tradução nossa) deixa claro que “Eu também acho sua expressão, o ‘Deus que joga dados’, completamente inadequada. Você também tem que jogar dados no seu mundo determinístico; essa não é a diferença. Você sabe qual é realmente essa diferença, assim como eu […]”. No original: “I also find your expression, the ‘dice-playing God’, completely inadequate. You have to throw dice as well in your deterministic world; this is not the difference. You know what that difference really is, as well as I do […]”. Cf. EINSTEIN, Albert; BORN, Max. Briefwechsel 1916–1955 = The Born-Einstein Letters: Correspondence between Albert Einstein and Max and Hedwig Born from 1916 to 1955. With commentaries by Max Born. Translated by Irene Born. New York: Walker and Company, 1971 [München: Nymphenburger Verlagshandlung, 1969].

171 É interessante pensar que o simples fato de o universo não ser, ao menos diante de toda evidência disponível,

estático, sugere o indeterminismo, pois a teorização em contrário teria de estar baseada na crença de que as condições de contorno iniciais do universo determinam tudo o que acontece, o que, por sua vez, parece entrar em conflito com questões metafísicas como o livre arbítrio, sobre o qual se discutiu brevemente na seção 3.1.1 deste trabalho.

172 Quanto à própria afirmação indignada atrás mencionada, Krista Tippett (2010, p. 3, tradução nossa) argumenta

que “Seu [de Einstein] famoso trecho de que ‘Deus não joga dados com o universo’ é muitas vezes erroneamente imaginado como uma declaração de fé, quando na verdade foi uma farpa inteligente lançada contra um argumento estritamente científico.” No original: “His [Einstein’s] famous quip that ‘God does not play dice with the universe’ is often wrongly imagined as a statement of faith, when in fact it was a clever barb tossed in a strictly scientific argument.” Cf. TIPPETT, Krista. Einstein’s God: Conversations About Science and the Human Spirit. New York: Penguin Books, 2010.

173 No original: “Why do you write to me, ‘God chastise the English’? Neither to the former nor to the latter do I

have any close relations. I just see with great dismay that God punishes so many of His children for their ample folly, for which obviously only He Himself can be held responsible; I think, His nonexistence alone can excuse Him.”

A palavra Deus para mim nada mais é do que a expressão e o produto da fraqueza humana; a Bíblia é uma coleção de lendas honrosas, mas ainda puramente primitivas, que são, no entanto, bastante infantis. Nenhuma interpretação, por mais sutil que seja, pode mudar isso para mim.174

Esses são apenas dois exemplos, ambos referentes ao conhecidíssimo Einstein, para quem há, em apenas uma das obras175 compiladoras de suas citações, seção exclusiva intitulada

On Religion, God, and Philosophy, a qual ocupa 28 páginas.

Não é diferente quanto aos demais cientistas. Por exemplo, Bertrand Russell (1968, p. 14-15, tradução nossa) aponta, quanto ao impacto da ciência na sociedade, que

No mundo pré-científico, o poder era de Deus. Não havia muito que o homem pudesse fazer, mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, e as circunstâncias poderiam tornar- se desfavoráveis se os homens incorressem no desagrado divino. […] Mas o Deus diante de quem você se humilhou foi concebido à semelhança do homem, para que o universo parecesse humano, quente e acolhedor, como o lar, se você é o mais novo de uma grande família, doloroso às vezes, mas nunca alienígena e incompreensível. […] Vamos continuar com o trabalho de fertilizar o deserto, derretendo o gelo do Ártico e matando uns aos outros com uma técnica de aperfeiçoamento perpétuo. Algumas de nossas atividades farão bem, outras causarão alguns danos, mas todas mostrarão nosso poder. E assim, neste universo sem deus, tornaremo-nos deuses.176

A propósito, em meio ao embate entre relatividade e alguns preceitos da mecânica quântica, entre Einstein e o grupo de Copenhague, Popper (2005, p. 302, 482-484) imiscuiu-se em favor do primeiro, inclusive procurando colocar em xeque o princípio da incerteza, para o que chegou a trocar correspondências com o próprio Einstein. Quanto a isso, convém considerar que o já mencionado princípio da incerteza foi enunciado por Heisenberg177, em artigo de 27

páginas, em 1927, e a obra por meio da qual Popper (2005) apresentou o seu ataque foi Logik der Forschung (A Lógica da Pesquisa Científica), publicada originalmente em 1935 – não muito distanciados entre si, portanto.

Convém, neste ponto, ponderar sobre a força retórica argumentativa de Popper (2005). Não se tratou de mero inconformismo não científico com o princípio, mas, ao contrário, de algo que rendeu uma longa exposição, de quase 40 páginas, n’A Lógica, exposição essa dividida em

174 No original: “The word God is for me nothing more than the expression and product of human weakness, the

Bible a collection of honorable, but still purely primitive, legends which are nevertheless pretty childish. No interpretation, no matter how subtle, can change this for me.”

175 Trata-se, no exemplo, de CALAPRICE, Alice (ed.). The Ultimate Quotable Einstein. With a foreword by

Freeman Dyson. Princeton: Princeton University Press, 2011.

176 No original: “In the pre-scientific world, power was God’s. There was not much that man could do even in the

most favorable circumstances, and the circumstances were liable to become unfavorable if men incurred the divine displeasure. […] But the God before whom you humbled yourself was conceived in the likeness of man, so that the universe seemed human and warm and cozy, like home if you are the youngest of a large family, painful at times, but never alien and incomprehensible. […] Let us get on with the job of fertilizing the desert, melting Arctic ice, and killing each other with perpetually improving technique. Some of our activities will do good, some harm, but all alike will show our power. And so, in this godless universe, we shall become gods.”

177 Cf. HEISENBERG, Werner. Über den anschaulichen Inhalt der quantentheoretischen Kinematik und

seis partes que compõem uma seção específica, intitulada Some Observations on Quantum Theory (Algumas Observações sobre Teoria Quântica) (POPPER, 2005, p. 209-247), além da apresentação, em apêndices na parte final da obra, de exemplos práticos que refutariam o princípio da incerteza conforme proposto por Heisenberg (1927).

Finalmente, anos depois (em data imprecisa, mas certamente antes de 1974), Popper (1982, p. 15, tradução nossa) reconheceria ter incorrido, em relação à argumentação utilizada, em “um erro grosseiro pelo qual tenho me sentido profundamente envergonhado desde então”178, algo de que o próprio Einstein já havia dado sinais na mencionada correspondência

que faz parte d’A Lógica (POPPER, 2005, p. 482-484), mas isso não invalida – não houve, ao que se sabe, quem afirmou o contrário – o perfeito trânsito que o filósofo Popper (2005) teve com a complexa (e complicada) física da mecânica quântica que se desenvolveu a partir dos anos de 1930.

O contrário é verdade: há quem afirme que o argumento de Einstein (EINSTEIN; BORN, 1971) contra a incompletude da mecânica quântica teria sido influenciado pelo próprio Popper, algo que este humildemente negou – “Isso eu acho extremamente lisonjeiro; mas devo dizer que […] a possibilidade de que um erro grave cometido por um ninguém (como eu) possa ter influenciado um homem como Einstein nunca entrou na minha cabeça.” (POPPER, 1982, p. 15, tradução nossa)179.

Observa-se, assim, que não há de ter sido o temor religioso o responsável pelo afastamento recente, de meados do século XX, entre filosofia social e humana e ciências naturais – os filósofos de então já não enfrentavam, há muito, os dilemas que teriam afligido Agostinho. O que houve, isto parece evidente, foi uma crescente especialização das ciências naturais, as quais, ao adotar métodos de pesquisa que se valem de cálculos matemáticos especializados, afastaram-se das ciências humanas e sociais, e estas então se viram diante do dilema de adotar forçosamente os métodos científicos daquelas ou, não o fazendo, atraírem para si a fama de não científicas, ou, quando muito, de ciências fracas, o que parece ainda pior.

De fato, do estudo daquilo que viria a ser conhecido como mecânica clássica, durante a revolução científica do século XVII, adveio o cálculo diferencial e integral, desenvolvido de forma independente, no final daquele século, por Isaac Newton (1642–1726) e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) (BARDI, 2006). Já no final do século XIX, Gregorio Ricci e Tullio Levi-Civita (1901) desenvolveram o cálculo tensorial, que foi utilizado por Einstein na

178 No original: “a gross mistake for which I have been deeply sorry and ashamed ever since”.

179 No original: “This I find extremely flattering; but I must say that […] the possibility that a gross mistake made

teoria da relatividade geral e hoje encontra aplicação, por exemplo, na teoria quântica de campos. De modo mais singelo, e mesmo bucólico, Feynman (2006, p. 58, tradução nossa) – o famoso físico mencionado mais atrás, que inclusive é um dos responsáveis pela própria teoria quântica de campos – afirmou que “Para quem não conhece matemática, é difícil transmitir um sentimento real quanto à beleza, a beleza mais profunda, da natureza.”180 E com a mesma verve

que lhe era característica, mas de modo mais prático, Feynman (FEYNMAN; LEIGHTON; SANDS, 1963, p. 22-1, tradução nossa) também apresentou o seguinte raciocínio:

Agora você pode perguntar: “O que a matemática está fazendo em uma aula de física?” Temos várias desculpas possíveis: primeiro, é claro, a matemática é uma ferramenta importante, mas isso nos justificaria apenas por dar a fórmula em dois minutos. Por outro lado, na física teórica, descobrimos que todas as nossas leis podem ser escritas em forma matemática, e que isso tem uma certa simplicidade e beleza. Portanto, para entender a natureza, pode ser necessário ter um entendimento mais profundo das relações matemáticas.181

É justamente devido a esse necessário “entendimento mais profundo” que, parece, ocorreu a separação entre ciências naturais, de um lado, e filosofia e ciências sociais, de outro. Os cálculos necessários ao entendimento da natureza tornaram-se simplesmente complicados demais, o que não significa, certamente, que eles sejam capazes de dar conta de algo que é provavelmente menos complicado, mas muito mais complexo182: o próprio humano e suas

idiossincrasias, tomado como objeto das ciências sociais.

De fato, coisas tidas como complicadas até mesmo nas ciências naturais, se observadas cuidadosamente, demonstrar-se-ão muito menos complexas que outras, aparentemente simples, mas inclinadas às ciências sociais ou humanas. Exemplificativamente, pode-se usar, como demonstração, as chamadas Equações de Campo de Einstein (1916). Essas equações, contidas na equação tensorial 𝐺𝜇𝑣 + 𝑔𝜇𝜈Λ = 8𝜋𝐺

𝑐4 𝑇𝜇𝜈, foram apresentadas em um artigo publicado

em 1916 e descrevem a relação entre gravidade, massa, energia e curvatura do espaço-tempo (EINSTEIN…, 2018). O primeiro componente (𝐺𝜇𝑣) da equação é determinado pela curvatura do espaço e do tempo em um determinado ponto no espaço e no tempo, e é igualado à energia

180 No original: “To those who do not know mathematics it is difficult to get across a real feeling as to the beauty,

the deepest beauty, of nature.”

181 No original: “Now you may ask, ‘What is mathematics doing in a physics lecture?’ We have several possible

excuses: first, of course, mathematics is an important tool, but that would only excuse us for giving the formula in two minutes. On the other hand, in theoretical physics we discover that all our laws can be written in mathematical form, and that this has a certain simplicity and beauty about it. So, ultimately, in order to understand nature it may be necessary to have a deeper understanding of mathematical relationships.”

182 A diferenciação utilizada nesta tese é a trivial: processos complicados podem ser codificados, enquanto

processos complexos não podem. Quanto aos primeiros, há um conjunto finito de etapas a serem seguidas e cada etapa é bem definida, enquanto os complexos não podem ser codificados, envolvem muitas incógnitas e muitos fatores inter-relacionados para reduzir a regras e processos. Cf. NASON, Rick. The Art and Science

e ao momento naquele ponto. As soluções para essas equações são os componentes do tensor métrico (𝑔𝜇𝜈), que especifica a geometria do espaço-tempo (EINSTEIN…, 2018; WALTERS, 2016, p. 1).

Einstein (1916) apresentou, ao final do artigo, as seguintes aplicações/constatações acerca da equação: o tensor de energia-momento para a gravidade e a matéria respeita a lei de conservação de energia; para aproximações de primeira ordem, há compatibilidade da equação com as leis de Newton; foi possível calcular a precessão da órbita de Mercúrio com uma precisão equivalente a 43 segundos de arco por século; foi possível calcular a flexão de luz, bem como seu desvio para o vermelho, em um campo gravitacional (algo que foi verificado experimentalmente em 1919, três anos depois de o artigo ter sido publicado); foi possível calcular a diminuição de ritmo dos relógios em um campo gravitacional (algo que foi verificado pelo experimento de Eötvös, do qual Einstein já tinha conhecimento) (WALTERS, 2016, p. 1, 7). Há, ainda, numerosos testes e aplicações da Teoria Geral que o próprio Einstein (1916) não previu, embora ele tenha previsto a existência de ondas gravitacionais, que recentemente (em 2015–2016) foram detectadas a partir de intensas batalhas gravitacionais entre dois buracos negros (WALTERS, 2016, p. 7).

A partir desses exemplos, observa-se que, conhecendo-se as minúcias da disciplina, e dispondo-se dos valores dos componentes necessários, pode-se usar, satisfatoriamente e mesmo descomplicadamente, a equação tensorial de Einstein, a despeito de quão complicadas possam ser as equações de campo que a ela deram origem, pois mesmo essas são, relativamente, pouco complexas183. De fato, como bem teria observado von Neumann (1947 apud ALT, 1972, p.

694, tradução nossa), na condição de orador principal no primeiro encontro nacional da

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