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A agroecologia é o paradigma norteador da Nova ATER. Representa uma nova abordagem da agricultora e do desenvolvimento agrícola, fundamentada no conhecimento tradicional local, aliada a conhecimentos e métodos ecológicos modernos (ROCHA, 2006). Gliessman (2000, p. 54) define a agroecologia como sendo “a aplicação de conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis”. Tal construção que culminou na agroecologia teve diversas contribuições, de distintas origens, que constituíram a base teórica e conceitual atual. Theodoro et al (2009) afirmam que o movimento ambientalista foi, sem dúvida, o maior incentivador intelectual da agroecologia, pois, à medida que temas ambientais pertinentes surgiam, era construída uma relação clara destas com o modelo convencional de agricultura. Segundo Costa Neto (1999), a agroecologia

bebe em diversas disciplinas científicas e pretende estudar a atividade agrária sob uma perspectiva ecológica.

Segundo Guzmám (1997, p. 4), “a agroecologia baseia-se no manejo ecológico dos recursos naturais que, incorporando uma ação social coletiva de caráter participativo, permite projetar métodos de desenvolvimento sustentável”. Além disso, proporciona a possibilidade de explicar a teoria para que sejam desenvolvidos modelos que possibilitem o desenho, o teste e a avaliação de agroecossistemas sustentáveis. Proporciona, também, o desenvolvimento histórico das atividades agrícolas de uma região, pela via da seleção de práticas mais sustentáveis que a elas se adaptem àquela região (GLIESSMAN, 2000, apud ALBÉ, 2002).

Costa Neto (1999) aponta algumas características da agricultura agroecológica: enfoque holístico, emprego de ótica sistêmica e ênfase nas inter-relações. Os objetivos são de longo prazo, apoiam-se no agroecossistema, incorporam o “custo ambiental”, baseiam-se em sistemas complexos de elevada diversidade, sendo assim, considerados estáveis. As técnicas adotadas correspondem à fertilização orgânica, à reciclagem de nutrientes, ao uso conservacionista do solo, à rotação de cultivos e criação, aos poli cultivos, ao manejo integrado e biológico de pragas e ao manejo da biodiversidade para o controle de pragas (COSTA NETO, 1999).

Sempre que possível, os recursos externos, tais como “químicos” e combustíveis adquiridos por via comercial, são substituídos por recursos encontrados na unidade de produção agrícola ou próximos a ela. Esses recursos internos podem ser também, energia solar ou eólica, controles biológicos de pragas e outros nutrientes liberados da matéria orgânica ou das reservas do solo. As opções da agricultura orgânica encontram-se baseadas, tanto quanto possível, em rotações de cultura, resíduos de lavouras, esterco animal, uso de leguminosas e adubos verdes, resíduos externos à unidade produtiva e cultivo mecânico e rochas moídas que contenham minerais (COSTA NETO, 1999).

Entre os principais efeitos e benefícios da incorporação de práticas agroecológicas destacam-se: (i) proteção do solo por cobertura vegetal; (ii) sustentabilidade da produção e variedade constante de alimentos; (iii) preservação dos recursos hídricos; (iv) intensificação dos controles biológicos; (v) aumento da capacidade de uso múltiplo do território (THEODORO et all, 2009). A agroecologia demanda, para a apropriação social de seus princípios, práticas e métodos, condições socioculturais e econômicas favoráveis nas comunidades rurais e que a identidade local seja respeitada em sua aplicação.

O desafio de unir processos ecológicos com estruturas sociais e econômicas no desenvolvimento da agricultura sustentável faz com que a agroecologia seja essencialmente

uma ciência interdisciplinar, conforme advoga Costa Neto (1999). Nesse sentido, o autor apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias que permitem estudar, analisar, dirigir e avaliar agroecossistemas. De acordo com Altieri e Nicholls (1995, citado por THEODORO; DUARTE; ROCHA, 2009), é preciso um entendimento das relações de complexidade do desenvolvimento sustentável, o que exige o estudo de temas multidisciplinares em relação à conservação de recursos e aos impactos ambientais ligados a fatores socioeconômicos e a aspectos culturais que determinam o processo de decisão dos agricultores. Exige assim, segundo Leff (2002), diálogo de saberes e intercâmbio de experiências, hibridação de ciências e técnicas e interdisciplinaridade. Na visão de Leff (2002, p.39),

A agroecologia surge como um conjunto de conhecimentos que incorporam princípios ecológicos e valores culturais, conhecimentos ecológicos e antropológicos, econômicos e tecnológicos que confluem na dinâmica dos agroecossistemas. É importante destacar que a agroecologia não pode ser validada apenas conforme as regras da produção científica convencionais, mas sim por meio da experiência dos saberes práticos de cada agricultor. Apesar de pesquisas cientificamente convencionais estarem sendo feitas com relação aos sistemas agroecológicos e demonstrarem dados concretos sobre as vantagens destes sistemas, o que realmente pode validar as práticas agrícolas não são os resultados obtidos em laboratórios ou estações experimentais, mas sim as práticas de cultivos de populações tradicionais - indígenas e camponesas.

Na mesma linha, Guzmám Casado et al. (2000, apud CAPORAL; COSTABEBER; PAULUS, 2006, p. 3) sugerem que:

Os elementos centrais da agroecologia podem ser agrupados em três dimensões: a) ecológica e técnico-agronômica; b) socioeconômica e cultural; e c) sociopolítica. Estas dimensões não são isoladas, mas se interpenetram e interagem, de modo que estudá-las e entendê-la, assim como propor alternativas requer uma abordagem inter, multi e transdisciplinar. (...) a agroecologia apoia-se em ensinamentos de distintas disciplinas científicas, como a física, a economia, e política, a agronomia, a ecologia, a educação, a antropologia.

O resgate do conhecimento das populações tradicionais e os estudos em desenvolvimento contribuíram de forma significativa para a concepção da agroecologia. Vários desses estudos vêm demonstrando que a dinâmica dos pequenos produtores ou agricultores familiares tradicionais (indígenas, quilombolas etc.) e seus conhecimentos dos processos naturais e produtivos são profundos e, mesmo que baseados em observações empíricas têm uma lógica que favorece a preservação dos ecossistemas, mantendo níveis adequados de produção (THEODORO; DUARTE; ROCHA, 2009). Nessa perspectiva, a abordagem holística na agroecologia considera, não apenas as áreas de produção, mas,

também, fatores bióticos e abióticos e suas inter-relações dentro de um determinado sistema produtivo. Assim, a agroecologia não pode ser confundida apenas com um conjunto de práticas ambientalmente sustentáveis:

A agroecologia fortalece e se alimenta de um novo paradigma de desenvolvimento. Reconhece e se nutre de saberes, conhecimentos e experiências dos setores sociais envolvidos em processos de desenvolvimento rural, incorporando o potencial endógeno e sociocultural, na perspectiva de avançar em direção a patamares crescentes de sustentabilidade (CAPORAL; COSTABEBER, 2002, p. 10).

Theodoro et al (2009) alertam para o fato de que, apesar de todas essas qualidades e potencialidades, a agroecologia ainda se encontra em processo de amadurecimento epistemológico. As autoras alertam, ainda, que a agroecologia vai além de objetivos meramente físicos (produção de alimentos e preservação dos agroecossistemas). Ela busca, de forma integrada, viabilizar uma verdadeira revolução das prioridades no meio rural. A alta diversidade, talvez, seja um dos elementos mais desejáveis em um agroecossistema, pois, é justamente ela que irá garantir a base para as interações ecológicas que poderão conferir habilidade e potencializar o sistema para um funcionamento sustentável.

A agroecologia vem sendo uma proposta de reconversão, no modelo de produção, de forma a viabilizar a agricultura familiar através da incorporação de técnicas e práticas menos intensivas no uso dos recursos naturais, baseadas em princípios agroecológicos, que, em essência, oferecem metodologias que levam a uma maior compreensão das múltiplas interações que ocorrem nos ecossistemas (THEODORO; GRUIMARÃES; MENDES, 2007).

A agroecologia passou a fazer parte do vocabulário dos movimentos sociais pelo desejo de se produzir alimentos saudáveis e, também, pelos enormes custos que a agricultura convencional vem acarretando, o que levou muitos a adotarem a matriz agroecológica por necessidade e não propriamente por “desejo” (NOVAES, 2010). Segundo Guzman Casado (1997), a transição para a agroecologia deverá atender aos seguintes objetivos: produzir alimentos de alta qualidade nutricional em quantidades suficientes e trabalhar com os sistemas naturais mais do que pretender dominá-los.

Guterres (2006) afirma que a passagem da agricultura convencional para a agroecológica deve ser conduzida de forma cuidadosa. Segundo ele, no Brasil, a assistência técnica e a pesquisa não são suficientes para acompanhar todos os pequenos agricultores que iniciam processos de transição. A substituição gradativa e parcial da importação de insumos para a produção exigirá, por exemplo, a produção interna de insumos como sementes nativas e crioulas, fertilizantes orgânicos, adubação verde, práticas de manejo de pragas e doenças.

De forma associada e cooperada, deve-se construir uma infraestrutura de produção, transporte, armazenagens, industrialização e comercialização da produção como condição básica à dos camponeses, independentes dos atravessadores, que ficam com a maior parte da renda (GUTERRES, 2006). Caporal e Costabeber (2000) afirmam que tal modificação pode ser difundida por meio da assistência técnica e extensão rural - presente na maioria dos estados brasileiros - mas que, ao longo de vários anos, padeceu de imobilismo e conservadorismo.

Para atender aos requisitos antes enunciados e às ações prioritárias de ATER, é necessário o estabelecimento de processos que estejam orientados por estratégias não convencionais (não difusionistas), que se baseiem em metodologias participativas e que assegurem a apropriação de conhecimentos por parte dos beneficiários. Por essa razão, a Nova ATER rompe com o modelo cartesiano tanto da extensão rural quanto da pesquisa e do ensino, pois, este não é adequado para apoiar estratégias de transição agroecológica, com participação social. É necessário superar a visão tradicional da ciência, pois, ela está centrada “em enfoques reducionistas e cartesianos, nos quais a ênfase é colocada sobre as relações de causa e efeito que surgem quando dois fatores se influenciam entre si” (VIGLIZZO citado por CAPORAL, 2004). O enfoque metodológico e tecnológico que está proposto na PNATER requer a implementação de uma extensão rural que observe os princípios da agroecologia.

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