Na década de 1990 surgiram várias iniciativas para a incorporação do caminho do Peabiru em rotas turísticas. Atualmente é possível encontrar na Internet diversos exemplos de páginas que tratam desse assunto. Mesmo em uma observação geral, pouco aprofundada, pode-se constatar que não há muita preocupação científica por trás disso.
No sítio Costa do Encanto da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional de Santa Catarina o marketing sobre o Caminho gira em torno da curiosidade
93 histórica, relatando-se os grandes personagens que utilizaram a via no período colonial. O sítio apresenta uma entrevista com Rosana Bond do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, na qual ela, na qualidade de pesquisadora, apresenta apenas as versões já refutadas sobre a origem do caminho, ou seja, que poderia ser O Caminho da Terra sem Mal, O Caminho dos Incas, ou o Caminho de São Tomé (SANTA CATARINA, 2007).
Ainda do estado de Santa Catarina em um sítio de Turismo A Confraria de São Tomé apresenta o Projeto do Circuito Turístico Internacional do Caminho Sagrado de São Tomé. Este projeto seria uma parceria entre a Confraria de São Tomé e o Governo do Estado de Santa Catarina e teria como objetivo mostrar A verdadeira saga dos Jesuítas, nos moldes do famoso caminho de Santiago de Compostela. Com itinerário entre os municípios de Garuva e Nova Trento o projeto ligado à Confraria utiliza como base atratora de turistas o aspecto religioso, cultivando a idéia de que o caminho realmente foi aberto por São Tomé. A Confraria de São Tomé ... é uma organização não governamental instituída para implantar, promover e zelar por qualquer iniciativa cultural, artística ou turística que leve o nome do Santo Apóstolo de Cristo no mundo e zelar pelos bens materiais e imateriais. Apesar de ter nominalmente atribuições amplas ela ... foi criada principalmente para, administrar as obras de implantação de um circuito turístico denominado “Caminho Sagrado de São Tomé” com início na cidade de Garuva-SC (O CAMINHO SAGRADO, 2007).
Um dos projetos da Confraria para impulsionar o turismo na região é o lançamento do livro O Código de São Tomé, no qual o autor Isaque de Borba Corrêa, defenderá a idéia de que o Apóstolo Tomé foi realmente o construtor do Caminho. O livro seria uma pesquisa ... de 20 anos a história do Caminho e da passagem do Santo Pela América. O livro baseia-se em cartas de mais de 20 jesuítas, historiadores do início da Era Cristã... (O CAMINHO SAGRADO, 2007). Esse projeto tem portanto, um cunho expressamente místico-religioso.
Em 1995, uma matéria publicada pela Revista Pauta, sinalizava a organização em Campo Mourão, Paraná, de um trabalho que em parceria com os municípios vizinhos visava criar condições para que o caminho fosse explorado turisticamente na região. Segundo a matéria, naquela época estava se organizando uma expedição que buscaria encontrar vestígios do caminho. Tal expedição, embora tivesse a pretensão de contar com um arqueólogo, um historiador, um geógrafo e um fotógrafo, ainda não definidos, seria chefiada pela jornalista e escritora Rosana Bond, a mesma que concedeu entrevista, acima
mencionada, ao sítio do governo catarinense. Apesar desta matéria citar o trabalho de Igor Chmyz, não fez referências às suas conclusões e apresenta apenas as hipóteses dos Incas, da Terra Sem Males e de São Tomé. O secretário municipal da Indústria Comércio e Turismo da época, Jacó Gimenes, demonstrou grande interesse no incremento do turismo ecológico e esotérico ligado ao caminho. Uma outra conseqüência disso seria a publicação de livros didáticos sobre o Peabiru para as crianças do município (PAUTA, 1995 p. 06-07).
Na entrevista que consta no sítio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional de Santa Catarina, Rosana Bond comenta que um de seus livros direcionados ao publico infantil foi publicado pela Editora Ática (SANTA CATARINA, 2007), provavelmente seja
fruto dessa expedição realizada em Campo Mourão.
Em notícia do sítio da Agência Estadual de Notícias do Paraná datada de 18 de março de 2004, consta que no dia 19 de março de 2004 seria lançado em Campo Mourão um projeto turístico chamado Caminho do Peabiru - o Compostela da América do Sul. O projeto previa a criação de uma rota de peregrinações, semelhante à espanhola de São Tiago de Compostela. A julgar pelo elenco de autoridades com presença prevista, o projeto seria de grandes proporções, estariam presentes: o governador do estado do Paraná, a ministra do turismo do Paraguai, o secretário de Estado de turismo do Paraná, além de outras autoridades (AGENCIA ESTADUAL, 2004). Não sei exatamente que rumo esse projeto
tomou, mas nos atuais sítios virtuais das secretarias estadual e municipal de turismo não há referências ao projeto (SECRETARIA DE ESTADO, 2007; PREFEITURA, 2007).
No estado de São Paulo, no município de Capão Bonito, surge um novo Peabiru, um novo projeto para a exploração turística do caminho no território paulista. A rota estaria entre os municípios de Capão Bonito, São Miguel Arcanjo, Sete Barras, Registro, Pariquera-açu e Iguape. Tal projeto teria motivações religiosas e econômicas. Entre seus objetivos destacam-se as intenções de proporcionar às pessoas momentos de reflexão e fé e a promoção do desenvolvimento social e econômico. O sítio tem a preocupação em comprovar que de fato o trecho paulista do caminho passava por aquela região (PICK-UPAU, 2007).
Há fortes indícios de que o Paberu (sic) teve um se (sic) seus ramais passando por nossa região de Capão Bonito. Estudos revelam que índios não se fixavam por aqui, apenas passavam por aqui em determinadas épocas do ano, na sua andança. Já foram encontrados vários objetos indígenas, como pontas de flechas lapidadas em pedra, demonstrando que eles caçavam muito nas regiões onde hoje estão localizados os parques estaduais Carlos Botelho e Intervales, isto
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reforça a tese de que a Rota do Peaberu (sic) passou por aqui (PICK-UPAU, 2007).
Os argumentos arqueológicos utilizados são, no entanto, frágeis, pois a presença ou não de indígenas por ali, não garantiria que houvesse ou não um trecho do caminho na região. Mas, sem considerar isso, pode-se perceber a necessidade de se comprovar que o município estava na rota do caminho e que mesmo que hoje não tenha trechos preservados, simbolicamente pode-se criar um roteiro no qual os turistas encontrariam momentos de fé e reflexão. Ou seja, a finalidade turística religiosa, exige, neste caso, uma comprovação pretensamente científica para que possa ser operacionalizada.
Em nenhum dos projetos turísticos que pude analisar foi noticiada alguma preocupação com uma pesquisa arqueológica sistemática e séria sobre o assunto. Na atualidade é cada vez mais urgente a criação de novas oportunidades de geração de rendas. Nesse contexto, o patrimônio arqueológico entendido como bem de natureza especial e de uso comum ao povo brasileiro pode ser incluído nas expectativas de geração de rendas oriundas da atividade turística (MORAIS, 2004, p. 98). Percebe-se que o turismo arqueológico é uma tendência mundial como parte do chamado turismo cultural. O Brasil possui um grande potencial a ser explorado. Uma pesquisa do Ministério do Turismo, divulgada em 2006, revelou que o turismo cultural está em terceiro lugar na preferência do brasileiro, perdendo apenas para o ecoturismo e o turismo de Aventura (CAVALCANTI & VELOSO, 2007, p. 156). Apesar disso, ao contrário do que acontece, por exemplo, no
México, Peru e Egito, no Brasil esse potencial ainda é muito pouco explorado. Funari destaca que falta-nos uma política cultural que envolva a população, que faça com que o patrimônio arqueológico, incluindo sítios pré-históricos e históricos, urbanos ou não, adquiram sentido para as populações locais. Há uma certa alienação da população em relação ao patrimônio arqueológico, especialmente ao pré-histórico, isso provavelmente se deva ao desprezo em relação às populações indígenas, o mesmo se repete com os sítios históricos relacionados aos escravos (FUNARI, 2003, p. 116-117; FUNARI & PINSKI, 2004, p.
10).
Em minha visão não é papel do turismo arqueológico alimentar e nem criar mitos. A melhor coisa talvez fosse a exposição de todos os mitos criados em torno do caminho, seguida de uma explicação acadêmica para o assunto. Um turismo realmente
arqueológico necessariamente precisa ser enriquecido com as explicações interpretativas revestidas do rigor científico, que na maioria das vezes são oriundas da séria pesquisa acadêmica (CAVALCANTI & VELOSO, 2007, p. 159). Como o patrimônio arqueológico é
público pertencente à União as políticas municipais de turismo precisam estar sintonizadas às exigências legais estabelecidas pela legislação brasileira para o exercício da arqueologia, fato nem sempre observado nas políticas municipais. Nesse sentido é fundamental a existência de uma plataforma acadêmica na elaboração e execução dos projetos (MORAIS,
2005, p. 98-102).
O arqueólogo Igor Chmyz, também é favorável à exploração turística, mas com a participação de arqueólogos que com metodologias próprias poderiam reconstruir ainda hoje trechos do caminho original, mas é claro com um projeto específico de arqueologia (CHMYZ, 2004, p. 23). Esse projeto ainda não saiu por falta de recursos. Por que não unir a
exploração turística à pesquisa científica? Possivelmente os valores arrecadados com o turismo cultural, respaldado em trabalho científico sério, seriam suficientes, ou parcialmente suficientes, para a manutenção dessas pesquisas e também para a promoção do desenvolvimento econômico regional. Valeria a pena um esforço nesse sentido, pois certamente ainda há muito a se descobrir sobre o caminho do Peabiru.
Experiências de turismo arqueológico relativamente bem sucedidas, com suporte acadêmico, já podem ser encontradas no Brasil, como nos casos da Fundação Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato no Piauí. A fundação tem por objetivo colocar à disposição do público informações sobre os cerca de quatrocentos sítios de arte rupestre presentes no Parque Nacional da Serra da Capivara, proporcionando a visitação in loco. O trabalho do museu só não é mais bem sucedido devido à falta de infra- estrutura de transportes na região, o que dificulta a chegada de turistas, isso reflete o descaso dos governos em relação a um trabalho sério de exploração do turismo arqueológico. Museus ao céu aberto também são encontrados em Saquarema, Rio de Janeiro, Piraju, São Paulo e Joinville, Santa Catarina (GOMES, 2005, p. 33-34; MORAIS,
2005, p. 98).
Pode-se perceber que elementos da cultural material, nesse caso, principalmente os sítios rupestres e o caminho do Peabiru foram, ao longo da história, alvos de diversas resignificações que acabaram por atribuir-lhes a autoria ao apóstolo Tomé. Procurei demonstrar nesse capítulo que tais resignificações tiveram importâncias diversas nos diversos momentos históricos e ainda que silenciosamente continuam a se
97 processar. Nos dois últimos capítulos discutirei as apropriações do mito do Sumé - São Tomé processadas no campo simbólico na América do Sul ao longo dos séculos XVI e XVII.
III
“UMA NOVA HUMANIDADE”: A INCLUSÃO DO “OUTRO” NA
COSMOLOGIA CRISTÃ
Expostas as principais características do mito de São Tomé na América, bem como suas relações com a cultura material, passo a discutir as apropriações do mito. O principal objetivo do presente capítulo é expor e problematizar as formas com que os europeus se apropriaram do mito de São Tomé no século XVI e suas principais utilizações no contexto de uma reelaboração da cosmologia cristã, na qual a América e principalmente os seus habitantes nativos foram incluídos.