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Chão dos Simples

Durante os meses em que se desenvolveu a sequência didática proposta para este projeto, pode-se discutir a relação entre a literatura e as atividades de produção textual. Nesse período, foi solicitado, nas turmas de 6º e 9º anos, uma produção escrita e oral em que os alunos puderam demonstrar suas impressões de leitura a partir do estudo dos contos de Onofre Jr. (2014). Nessas produções, os jovens estudantes deveriam posicionar-se, através de outras modalidades discursivas, sobre o conteúdo dos contos estudados. Por isso, eles foram incentivados a produzirem textos a partir de suas hipóteses interpretativas.

Nos 6º anos, as atividades de produção foram organizadas a partir dos contos “A Verdadeira História de João e Maria” e “Duelo de Titãs”. Já no 9º ano propôs-se uma produção a partir da interpretação do conto “Dia de Juízo”. Foram colocadas, para cada um desses segmentos, situações de produção que atendessem as habilidades da BNCC para o campo artístico-literário e também das propostas de produção textual sugeriras pelo livro

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didático42 de cada uma das séries selecionadas. Nos 6º anos, foi proposta a produção de textos narrativos diversos como previsto na habilidade (EF67LP30) da BNCC para o campo artístico-literário nos segmentos dos 6º e 7º anos do fundamental. Seguiu-se a orientação do documento que propõe a criação e adaptação de histórias nas mais diferentes modalidades narrativas, observando os elementos linguísticos próprios ao gênero pretendido “tais como enredo, personagens, tempo, espaço e narrador, utilizando tempos verbais adequados à narração de fatos passados, empregando conhecimentos sobre diferentes modos de se iniciar uma história e de inserir os discursos direto e indireto” (BRASIL, 2018, p. 171). Por isso os alunos foram solicitados a fazer a releitura dos contos a partir da produção de conto popular e do gênero narrativo quadrinho.

No primeiro momento, solicitou-se aos alunos dessa turma que reescrevessem, ao modelo do conto “A Verdadeira História de João e Maria” o conto “João e Maria” dos irmãos Grimm a partir dos elementos da região onde moravam. Dessa atividade, desacataram-se as

produções textuais de dois alunos que adaptaram a história clássica para sua própria

realidade local. O primeiro, morador de uma comunidade rural, próxima à cidade, escreve a seguinte redação:

Figura 10 – Fragmento do texto do aluno CF6

Já o segundo, morador de outra comunidade rural, também retextualiza a história para a sua realidade local:

42 A coleção de Willian Cereja e Tereza Cochar propõe para os 6º anos a criação de histórias em quadrinhos e

119 Figura 11 – Fragmento do texto do aluno DF6

Essa etapa de produção textual ajudou na etapa de interpretação dos contos, pois muitas vezes, na atividade de retextualização não havia coerência ao fazer a adequação da história para sua realidade geográfica. No caso da produção do aluno CF6 não foi adequado mencionar o fato de ter colhido manga na floresta, pois no contexto da geografia de sua região não existe esse tipo de vegetação. Na realidade, esse aluno, procurou manter alguns elementos dos contos maravilhosos, mesmo que tivesse a intenção de fazer a adequação da história para sua realidade local. O mesmo ocorre com o aluno DF6 que apesar da história ocorrer dentro de uma comunidade rural, aparecem elementos próprios de uma narrativa fantástica como é o caso da menção que ele faz a “lua de sangue” e “bruxa branca”.

Essa atividade serviu para compreender que, na escrita de um texto, deve-se considerar sua situação de produção. Por isso necessitou-se voltar à leitura do conto “A Verdadeira História de João e Maria”, de Onofre Jr. (2014), mostrando-lhe que o escritor potiguar, ao adaptar a história de João e Maria para o contexto da cultura potiguar, abandona os elementos dos contos maravilhosos, incorporando apenas os elementos da cultura regional. Nisso, pede-se que eles façam uma segunda versão do texto, solicitando que apresentem uma nova redação agora organizada dentro da situação de produção proposta. Nessa nova compreensão, vários alunos fizeram a reescrita do texto, apresentando uma versão melhorada da primeira história.

Ainda nos 6º anos, solicitou-se uma produção textual a partir das leituras que os alunos fizeram do conto “Duelo de Titãs”. Nessa atividade, eles deveriam fazer uma adaptação do conto usando a linguagem dos quadrinhos. Justificou-se a escolha desse gênero devido a seu aspecto multissemiótico que atende às habilidades previstas para o campo artístico-literário da BNCC e desenvolve as competências de um público ainda bastante fascinado pela cultura da imagem e do universo narrativo mítico. Os quadrinhos, além de estarem, dentro da proposta BNCC, na lista dos gêneros a serem trabalhados nos primeiros

120 ciclos do fundamental maior, também aparece como sugestão na maioria dos livros didáticos destinados a esse segmento. Daí a facilidade de incorporar ao estudo da literatura o estudo desse gênero que, devido sua capacidade de dialogar com a literatura e com outras linguagens de natureza multissemiótica.

Para alinhar o estudo dos quadrinhos ao estudo da literatura potiguar, realizou-se, no 3º bimestre de 2018, uma abordagem do gênero em sala de aula a partir da explanação do próprio livro didático selecionado para aquela série, reconhecendo, assim, seus aspectos literários e multissemióticos como os recursos gráficos próprios desse tipo de linguagem, a exemplo dos balões, legendas, vinhetas e onomatopeias. Depois desse estudo, os alunos foram solicitados a fazer a adaptação do conto “Duelo de Titãs” para a linguagem dos quadrinhos, apresentando as releituras que haviam feito das histórias das personagens Pedro Cancão e Ratinho. Durante esse período, os alunos produziram vários títulos inspirados nessas duas personagens. Entre esses títulos, destacaram-se “Zezinho do Umbum e Pedrinho da Goiaba”, “Antoin Tripa e Antoin Fernando” e “Chico Esperto e Loro das Histórias”, cujo conteúdo das histórias é resultado de leituras bastantes significativas do conto “Duelo Titãs”:

Figura 12 – Exemplos de capas selecionadas de três títulos produzidos pelos alunos

Nota: Os títulos acima reproduzidos exemplificam apenas uma parte do trabalho realizado. Outros títulos, também significativos, não entraram nessa lista.

Além de fazerem a releitura do conto de Onofre Jr. (2014), os alunos, ao produzirem esses títulos, demonstraram mais maturidade em relação à primeira tarefa. Os nomes que passam a intitular as histórias criadas por esses alunos remetem, não só ao seu repertório cultural e das leituras realizadas, mas também de suas vivências em sua comunidade local. Zezinho do Umbum e Zé da Goiaba trazem, além do nome comum ao universo sertanejo (muitos pais colocam nos filhos para homenagear o São José, pai terreno de Jesus), o

121 sobrenome de duas frutas bastantes conhecidas da flora sertaneja. O mesmo se dá com o título “Antoin Tripa e Antoin Fernando”. O nome Antoin Tripa, além de ser um nome comum e fazer referência ao santo casamenteiro - santo bastante popular durante os festejos juninos no Nordeste - está grafado na forma como muitos sertanejos pronunciam. Além do mais, Antoin Tripa foi uma figura real, morador da comunidade local e de quem a maioria dos adultos ouviram falar quando criança. Antoin Tripa era um sujeito magro, cabelo arrepiado, meio desengonçado que quando alguém queria ofender a outra pessoa, apelidava-o dessa maneira. Para uma melhor compreensão dessa atividade, destacam-se as falas de “Chico e Esperto e Loro das Histórias”, personagens representados por um dos títulos acima. Abaixo, reproduz-se alguns trechos do diálogo entre essas duas personagens.

Figura 13 – Trechos retirados de uma das histórias em quadrinhos produzidas pelos alunos

Nesse diálogo entre Chico Esperto e Loro das Histórias, os alunos puderam estabelecer conexões com os personagens Pedro Cancão e Ratinho, reconhecendo nessas personagens a capacidade de inventar e aumentar as histórias. Na sua produção, os alunos, através da intertextualidade direta, fazem referência a trechos dos contos de Onofre Jr. (2014), mas inovam ao acrescentar os elementos de comunidade local. Os sítios São Bento de Baixo e Pau D’arco são duas comunidades rurais da circunvizinhança de São Bento do Trairí, cidade em que foi desenvolvido este projeto. Além do mais, é preciso considerar os

122 aspectos semióticos próprios da linguagem dos quadrinhos que o aluno utilizou para reescrever a história. Apesar de ter falhado na localização espacial dos balões – no último quadrinho a resposta vem antes da pergunta –, eles parecem dominar alguns recursos gráficos utilizados nos quadrinhos como é possível observar na Figura 13 em que a fala das personagens aparecem contornadas pelos balões e o texto em caixa alta como é próprio da linguagem dos balões.

O projeto culmina com a apresentação dos alunos durante a feira de humanidades da escola, encerrando o ciclo de atividades e projetos de leituras realizados na escola. Na ocasião, os alunos puderam expor para comunidade escolar os quadrinhos por eles produzidos a partir do conto “Duelo de titãs”. Nessa exposição, os alunos procuraram adaptar as falas das personagens Pedro Cancão e Ratinho para a linguagem dos quadrinhos e também expor suas releituras para a comunidade escolar a partir dos títulos produzidos, resgatando, através desses trabalhos, a figura folclórica do caçador contador de histórias presente no conto de Onofre Jr. (2014):

Figura 14 – Textos produzidos pelos alunos

123 Figura 16 – Reprodução das falas das personagens de Onofre Jr. na linguagem dos quadrinhos,

usando como recurso o balão de fala

Por fim, avaliou-se o aluno a partir das atividades de leituras e também de sua produção escrita - a exemplo dos títulos produzidos – e oral – através da exposição de seus trabalhos para comunidade escolar. Estabeleceu-se, nessas atividades, as relações dialógicas nos contos de Onofre Jr. (2014), dentro de uma cadeia discursiva em que os alunos não só se reencontram com os tipos humanos presentes em sua comunidade local, mas também com as figuras oriundas do imaginário popular universal.

Já no 9º ano, realizou-se um júri simulado ou uma pequena encenação em que os alunos tiveram que simular o julgamento das personagens do conto “Dia de Juízo”, posicionando-se sobre as leituras realizadas. Essa peça/júri foi organizada em dois momentos. No primeiro momento, propôs-se a produção escrita de um roteiro e, posteriormente, uma apresentação oral dos alunos em que, por meio da dramatização, decide- se sobre o destino dos moradores de Serra Nova. Antes, escolheu-se aqueles que iriam atuar nessa peça/júri. Na ocasião, o professor direcionou as atividades e organizou as funções de cada um dentro da situação de produção proposta, como é possível verificar na foto abaixo:

124 Figura 17 – O professor escreve no quadro as atividades que orientarão as etapas de produção

previstas até a culminância do projeto

Depois que foram delegadas as funções e organizadas as atividades que culminariam com a peça/júri passou-se a escrever o roteiro (Apêndice M). A equipe do roteiro passou a ser composta por dois alunos sob a orientação do professor de língua portuguesa daquela turma. Realizou-se, no período de um mês, encontros para escrever as falas, discutir e reorganizar as ideias. A foto a seguir reproduz um dos momentos em que os alunos se sentaram com o professor de língua portuguesa da turma para rever o roteiro e apontar novos direcionamentos.

Figura 18 – Professor de português reunido com os alunos responsáveis por escrever o roteiro

Durante esses encontros, notou-se que uma das primeiras dificuldades na elaboração do roteiro foi em adaptar o conto “Dia de Juízo” para a linguagem de teatro, transformando- o do discurso indireto livre para o discurso direto. Estabeleceu-se conexões com o conteúdo

125 estudado naquela turma que, na época, estava empenhada em reconhecer as diferenças entre os discursos diretos, indiretos e indireto livre. Nisso, os alunos envolvidos na construção do roteiro, além de reconhecerem essas diferenças, passaram a associar a linguagem do conto à da linguagem do teatro, reconhecendo suas semelhanças e divergências.

Após terminado o roteiro, passou-se a fase dos ensaios. Foram dois meses de intensas atividades, dentro e fora da escola, em que o professor passou a trabalhar a leitura dramática. Além da leitura em voz alta, observou-se, nesses ensaios, questões de entonação, presença de palco e a linguagem corporal dos alunos. As fotos abaixo reproduzem dois momentos em que esses ensaios foram realizados dentro e fora da escola:

Figura 19 – Ensaio dos alunos em sala de aula

Figura 20 – Ensaio dos alunos na câmara municipal

Por fim, o estudo do conto “Dia de Juízo”, na turma do 9º ano, culmina com o julgamento dos moradores de Serra Nova. A encenação teatral foi realizada na câmara

126 municipal de São Bento do Trairí. O local serviu de cenário para o julgamento das personagens do conto. Intencionava-se, com escolha do local, criar o espaço cênico de um julgamento, usando a tribuna onde os vereadores costumam discursar como um tribunal. Nos lugares ocupados pela presidência da câmara, primeiro e segundo secretário foram ocupados pelo juiz, advogado de defesa e o advogado de acusação. Na tribuna onde os vereadores são convocados a fazer seus discursos, serviu de local para o promotor apresentar os “crimes” cometidos pelos réus. Nos demais lugares, posicionaram-se as personagens que iriam ser julgadas e ao centro da tribuna foram reservadas cadeiras para as testemunhas de defesa e de acusação quando fossem convocadas para o interrogatório. Nos lugares destinados aos participantes das sessões, encontravam-se os jurados e os demais alunos que assistiram o julgamento. Além do cenário, houve também uma preocupação com o figurino. Cada aluno foi caracterizado de acordo com o perfil das personagens que interpretavam e também da ideia que se tinha de um tribunal e das roupas usadas pelas personalidades do direito, como juízes, advogados e promotores. Na foto a seguir, registra-se o momento em que a promotora, vestida à caráter, apresenta as acusações contra uma das personagens do conto:

Figura 21 – Na foto, além da promotora, encontram-se, ao centro, o juiz, os advogados de defesa e de acusação e, à direita, as personagens do conto “Dia de Juízo”

O júri simulado teve a duração de duas horas e nesse período de tempo as personagens do conto “Dia de juízo” foram julgadas diante de uma plateia. Durante a encenação, o promotor apresentava as acusações contra os réus, depois os advogados de defesa e de acusação argumentavam a favor ou contra a condenação dessas personagens, interrogando as testemunhas e interagindo com os jurados, como acontece na maioria dos tribunais de júri. Durante a encenação os alunos mostraram postura de voz, presença de palco,

127 articulação com a linguagem oral, adequada a situação de comunicação exigida. Abaixo reproduz-se algumas fotos em que é registrado o momento em que a personagem Inocêncio é interrogada pelos advogados de defesa e acusação:

Figura 22 – Advogado de acusação interrogando Inocêncio

Figura 23 – Advogado de defesa interrogando Inocêncio

O júri foi composto de sete jurados. Escolheu-se para integrar esse grupo alguns dos professores da escola e também alguns escritores da literatura potiguar como os ficcionistas Thiago Gonzaga, Damião Gomes e o próprio autor do conto “Dia do Juízo”, Manoel Onofre Jr. Coube, portanto, aos jurados votar e anunciar a sentença de cada personagem com base nos argumentos apresentados e também nas performances dos alunos ao se apresentarem para o público. Cada personagem deveria ser condenada ou absolvida de acordo com os argumentos oriundos das leituras dos alunos e também de seu envolvimento com o caso.

128 Considerou-se sua capacidade de colocar-se no lugar daqueles que eles interpretavam e de viver aquele momento como se fossem as próprias personagens.

Figura 24 – Os escritores potiguares Manoel Onofre Jr., Thiago Gonzaga e Damião Gomes, na condição de jurados, assistindo atentamente à apresentação dos alunos

Apresentados os argumentos a favor da absolvição e condenação dos moradores de Serra Nova, ouvidas as testemunhas e a depoimento dos réus, foi dada a sentença das personagens julgadas. Foram absolvidos pelo júri o sapateiro Ferreirinha, Dona Carmem, a louca, Inocêncio e o Padre Frederico, e declarou-se culpados as personagens Nezim da Camboa e Dr. Aristóteles. Encerrada a sentença, foi a vez do autor do conto “Dia Juízo” comparecer ao banco dos réus. Nesse momento, o escritor potiguar passa a ser interrogado pelos alunos que haviam interpretado as personagens do conto e também pela plateia que tinha muitas curiosidades sobre a obra de Onofre Jr. (2014). Na foto abaixo, registra-se o momento em que os alunos fizeram a sabatina com o autor de Chão dos Simples:

129 Entre os questionamentos apresentados pelos alunos naquele momento, destacou-se a curiosidade que eles tinham sobre o segredo da personagem Inocêncio. O ficcionista potiguar respondeu que nem ele sabia esse segredo e que sua intenção era exatamente deixar essa dúvida no leitor. Comentou-se também que uma obra de arte é uma obra aberta e que depois de publicada, o autor não tem mais domínio sobre ela, como de fato aconteceu naquele júri em que nem o próprio autor de “Dia de Juízo” não havia ainda, segundo ele, parado para pensar nos argumentos apresentados. Assim, encerrou-se aquele momento, com Manoel Onofre Jr., os alunos e o professor da turma sendo aplaudidos.

4.3 A literatura potiguar e o ensino da língua portuguesa: as questões linguísticas