PARTIE I : REVUE BIBLIOGRAPHIQUE
I- 1- Formation de nouveaux vaisseaux sanguins
O tema do Enem de 2001 era formulado por uma pergunta que exigia de antemão a habilidade de uma tese conciliadora: Como conciliar os interesses em conflito entre a
preservação ambiental e o desenvolvimento? Ou seja, era pedida a construção de uma tese
especificadas. Eu acreditava que esse pedido ajudaria Valentina a contemplar na argumentação os dois lados envolvidos na discussão em pauta, transitar por eles, e definir qual seria a conciliação possível.
Nascentes secas
O desmatamento massivo é produto do individualismo exponencial. Esse modo de pensamento autocentrado decorre séculos, mas é perceptível nessa geração tamanha irrelevância pelo coletivo. Desde a Baixa Idade Média, com a saída da população camponesa dos feudos e a ascensão da crescente urbanização, a preservação ambiental deixou de receber a importância que deveria, dando mais espaço a interesses progressistas e egocêntricos.
Em um mundo egoísta, que é submergido em ideais desenvolvimentistas e capitalistas, a elevação do capital e a satisfação pessoal são totalitários de tal forma que tudo é desprezado em função da preservação dos valores dessa minoria autoritária. A manutenção da natureza passa, então, a ser um empecilho, uma vez que uma das características dessa ideologia dominadora se dá pela necessidade de espaço de produção e utilização do capital. Porém, chegou no ponto em que o mundo, juntamente com todos os privilégios das classes dominantes, pode ser extinto, já que a Terra vai muito além de relações interpessoais; seu resguardo não deve ser visto como uma luxúria. Assim, uma vez que o interesse pessoal é abalado, a necessidade de mudança de atitude é finalmente percebida.
Há um modus operandi pré estabelecido na sociedade, o qual preza o egoísmo sem precedentes. Dessa forma, mesmo que medidas sejam tomadas por grandes empresas, como atuações mais preservadoras, ou até mesmo uma mudança na legislação, sabe-se que essas atitudes são pautadas por interesse próprio. Ou para essa empresa ser vista como ambientalista e atrair mais compradores, ou para não perder os benefícios que possui em detrimento da constante poluição. Uma situação ética aparentemente sem saída.
Sendo que o homem só age em razão de sua vontade, infelizmente, deve- se mostrar a ele o quão prejudicial será o desmatamento para seus interesses pessoais, o quão a perda será específica. Nota-se que não há interesse por quanto afetadas as próximas gerações serão, em vista do benefício próprio. Se esses indivíduos, os grandes empresários que não percebem os limites do viável e saudável, os governantes alheios ao bem mundial, não perceberem esses problemas logo, o mundo acabará, e tão repentinamente, que suas empresas secarão assim como as fontes das nascentes.
O título se relacionava com a imagem construída no fim do texto que, apesar de conter uma redundância, porque uma nascente é uma fonte de água, era impactante e se compunha pela tese defendida e a partir de um símbolo do meio ambiente.
Embora Valentina tivesse contemplado os dois lados da questão e tivesse conseguido esboçar uma possibilidade de conciliação entre eles, a argumentação se apoiou muito mais no
sistema capitalista e suas consequências para o meio ambiente do que na justificativa da importância dele – isso só aparecia de forma breve, sem mostrar os estragos e evidências da sobreposição do desenvolvimento à preservação do meio ambiente ou como a destruição da natureza era justificada pelo desenvolvimento. Era o mesmo ponto que não estava funcionando no texto anterior sobre idosos – o peso argumentativo recaía na ressalva, na crítica que a tese continha, mas não se debruçava sobre a defesa, a proteção que completava a tese. Para evidenciar um pouco mais essas problemáticas, teci alguns comentários ao longo do texto.
Na introdução, perguntei para ela o que levaria a geração atual a não se importar com o bem comum? Na reescrita, Valentina incluiu a explicação de que seria o egoísmo, mas não explicou o que estaria causando esse comportamento.
No segundo parágrafo, pedi para ela explicar um pouco mais sobre a ideia de o desenvolvimento não preservar a natureza. Ela acrescentou uma justificativa de que o progresso precisava de espaço para a industrialização e o comércio. Não contemplou a ideia de poluição, de esgotamento dos recursos... A frase: "o interesse pessoal é abalado" precisava de complementação: interesse de quem? Abalado por quê? Ela completou, mas o período final ainda ficou desorganizado, porque tinha muitas ideias mas elas não estavam bem relacionadas.
Propus que ela reorganizasse o terceiro parágrafo como contra-argumento e voltasse a sua tese em seguida, para sua crítica às empresas ficar clara e ganhar força. Algo como: é
verdade que.../não se pode negar que… Porém/Entretanto… Ela reconstruiu o parágrafo
seguindo as indicações. Ficou um pouco confuso ainda, porque não dizia claramente que as empresas ganhavam atraindo público com suas medidas verdes. Mas fazia uma ponderação interessante: as mudanças não eram feitas pela vontade do homem de salvar o ambiente que vive, mas por interesse no lucro.
A última frase da conclusão era boa, mas valia repensar o restante, porque, como era proposta do Enem, o final esperado deveria apresentar propostas para enfrentar o problema (o
como conciliar, parte da pergunta formulada na prova). Ela refez a conclusão, propondo a
produção de produtos caseiros para diminuir a fabricação de produtos poluentes, assim como a conscientização dos indivíduos para o consumo consciente, soluções que não correspondiam aos agentes do problema apontados por Valentina na argumentação: os empresários e governantes.
Nascentes secas
O desmatamento massivo é produto do individualismo exponencial. Esse modo de pensamento autocentrado decorre décadas, mas é perceptível nesta geração tamanha irrelevância pelo coletivo, uma vez que é mais egoísta. Desde a Baixa Idade Média, com a saída da população camponesa dos feudos e a ascensão da crescente urbanização, a preservação ambiental deixou de receber a importância que deveria, dando mais espaço a interesses progressistas e egocêntricos.
A manutenção da natureza passa, então, a ser um empecilho, uma vez que uma das características dessa ideologia dominadora se dá pela necessidade de espaço de produção e utilização do capital, uma vez que se precisa de parques industriais e áreas de comércio, como shoppings. Porém, chegou no ponto em que o mundo, juntamente com todos os privilégios das classes dominantes, pode ser extinto, já que a vida na Terra vai muito além de relações interpessoais; seu resguardo não deve ser visto como uma luxúria, uma vez que é pela sua preservação que conseguimos sobreviver ao próximo dia. Assim, uma vez que o interesse pessoal dos indivíduos que prezam mais o consumo do que a própria respiração é abalado devido ao problema exacerbado de poluição, de tal forma que possa afetar os negócios, a necessidade de mudança de atitude é finalmente percebida.
É verdade que as empresas nacionais e internacionais têm adotado medidas “verdes” com o propósito de ajudar o meio ambiente. Porém, é facilmente perceptível que essas corporações continuam beneficiando-se, até mesmo com as atitudes ambientalistas. Uma vez que o mercado, que finalmente percebeu que o desgaste da natureza é algo que se deva preocupar-se, passou a prezar produtos que sejam fabricados organicamente, sem poluir o planeta. Portanto, com um enorme marketing, as empresas comercializam essa vontade dos consumidores fazendo produtos pouco tóxicos para o ambiente. Infelizmente, essa atitude não ocorre pela vontade do homem em salvar o lugar em que vive, mas sim, novamente, por interesses capitalistas e ambiciosos.
Um meio de diminuir o comércio, a fabricação de produtos que prejudicam, falsamente ou não, o ambiente, é produzindo produtos caseiros, e conscientizando mais os indivíduos sobre as atrocidades cometidas com o meio- ambiente, para esses, se obterem produtos, comprarem em lojas que de fato tenham tendências mais ecológicas. Soluções pequenas, porém viáveis e com resultado a longo prazo. Se esses indivíduos, os grandes empresários que não percebem os limites do viável e saudável, e os governantes alheios ao bem mundial, não perceberem esses problemas logo, o mundo acabará, e tão repentinamente, que suas empresas secarão assim como as fontes das nascentes.
Nesse tema, minhas colocações foram mais propositivas e menos extensas, o que mobilizou um pouco mais Valentina a lidar ativamente com a reescrita. Entretanto, a repetição do uso do conectivo uma vez que nos trechos alterados e a proposta deslocada da argumentação mostravam como Valentina não relia o que reescrevia, apenas escrevia em cima do que já havia escrito, sem se colocar como leitora de si. O efeito chamariz do texto era garantido por Valentina – um bom título que era retomado na conclusão – e argumentos contundentes eram selecionados, mas a composição entre eles, a construção de um raciocínio,
de uma proposta de compreensão não era tecida por ela.
Valentina se manteve firme no nosso esquema virtual. Se não escrevia toda semana, ao menos reescrevia o texto anterior. Mas a maneira como encarava a reescrita era proforma, como uma atividade de preenchimento que garantiria seu ingresso em uma universidade. Muitas vezes ela só acrescentava meu comentário como parte de seu texto, sem fazer alterações ou conexões necessárias para a ideia funcionar. Ao mesmo tempo que eu via isso como certa displicência dela, também considerava um bom jeito de ser plagiada: como se nesse copia-e-cola as minhas palavras dessem língua para Valentina, expressassem as intenções dela.
Ela aproveitava meus comentários para deixar seu texto mais bonito. Mas eu não queria que ela se sentisse satisfeita com isso. Eu tentava fazer Valentina se comprometer mais com seus escritos, com as escolhas de palavras, com a condução dos temas. Ela apelava, com certa frequência, a uma noção de dever, a uma prova moral em sua argumentação que a dispensava de se posicionar em relação ao tema debatido e a poupava do esforço de observar suas experiências, porque ela não precisava criar argumentos, ela apenas se apoiava em valores incontestáveis: "A argumentação do dever se esgota nela mesma, isto é, na referência a um padrão a priori, uma razão oculta e acima do texto, que condena ou aprova esta ou aquela conclusão [...]." (PÉCORA, 1980, p. 96). Valentina reduzia a experiência de escrever uma dissertação ao cumprimento de uma obrigação, mas sem esquecer do laço do texto entre o título e a conclusão.
A minha impressão era de que apontar um problema no texto de Valentina era como dizer que ela era feia. Era o campo das aparências que parecia mobilizá-la. Ela escrevia bonito para preencher os espaços ocos do texto sobre os quais ela não tinha tido fôlego para se debruçar, tática recorrente dos vestibulandos, observada por Rocco (1981). Eu tentava desgrudá-la do sujeito moral "dominado por uma interioridade tirana e obsedante, invariavelmente atada a uma permanência de si mesmo conformada à busca do autoconhecimento" (AQUINO, 2009, p. 143), com o intuito de instigar o sujeito ético nela, movido pela potência expansiva de criar e se diferenciar. O efeito desse esforço foi sentido de forma sutil, principalmente na construção do sentido do entrelaçamento do título com a tese e a conclusão, no esboço de uma proposta de compreensão elaborada em uma linha de raciocínio coerente, mas não a ponto de ela se despojar das maquiagens, selfies e nudes e fazer um texto-nu, fazer do texto uma nudez, uma abdicação de formalidades, uma resistência
a imposições feita pela pele, o fora-dentro do sujeito, que Rolnik (2016) denominou por "saber-do-corpo", que pode ativar novas formas de perceber e sentir.
Essa experiência via internet foi muito diferente das presenciais que costumo ter. Sem acesso ao impacto que minhas sugestões provocavam nela, a não ser por meio do próprio texto, tive mais dificuldade em criar uma forma de intervir que mobilizasse Valentina e a vinculasse a suas palavras. Essa superficialidade na maneira de lidar com a reescrita (porque na abordagem dos temas Valentina não era superficial) ressoava na minha percepção de que a aparência tinha permanecido um aspecto importante do começo ao fim do trabalho com ela. Fiquei com a sensação de que as conversas, as vozes, pausas, olhares, toques, respiros, eram elementos essenciais para construir a parceria do trabalho com a produção de texto, para estabelecer a intimidade e a vinculação necessária nesse processo. Essas sensações e percepções funcionam, no meu trabalho, como virtualidades que pedem o direito de existir, uma vez que "Os virtuais têm a força do problemático. A força de um problema não é sua tensão interna, é a incerteza que ele introduz na (re)distribuição de realidade." (LAPOUJADE, 2017, p. 71, grifo do autor). Se os virtuais asseguravam uma experiência do mundo menos resignada e mais ativa, na direção deles é que eu iria – minha bússola para retomar a trilha e alcançar a próxima paragem.