Retomando as matérias que forneceram dados para este trabalho, em muitos dos comentários registrados nas publicações analisadas, a tônica das argumentações se sustenta pela problematização da própria noção de apropriação cultural. Se apropriação significa tomar pose daquilo que não lhe pertence, como seria possível apropriar-se de algo que não tem dono, como a cultura?
Em contrapartida, se “cultura não tem dono”, esta por sua vez possui uma história e tradição que necessitam ser reconhecidas e respeitadas. Um dentre os elementos constitutivos do debate em questão, refere-se à reivindicação das simbologias contidas em tais manifestações, que para além da aparência estética, se traduzem-se como mecanismos de resistência.
É sabido ainda que no processo de circulação dos bens culturais, estes podem ter as intenções iniciais de seus usos subvertidos no momento de sua recepção. Como afirma Chartier (1995), as formas diferenciadas de consumo cultural, mesmo que de modo contrário aquele visado por seus produtores configuram-se como táticas produtoras de sentido.
Assim, como vimos em trecho citado anteriormente – “turbantes [...] vestimentas sagradas e símbolos de luta e resistência” – são descolados de seu contexto de origem, e destinados a fins diversos por parte dos novos sujeitos que a ele aderem.
Figura 2 – Caracterização de apropriação cultural da estética negra
Fonte: Shannon Wright (2016).
Johnson (2016), ao analisar os diferentes momentos que envolvem os circuitos culturais (produção, circulação e consumo), evidencia que em determinadas circunstâncias, os processos de produção podem desparecer nos produtos, isto porque estes estão sujeitos a diferentes interpretações, e, portanto, transformações de acordo com as condições de leitura e consumo que os sujeitos farão ao recepcioná-los.
Podemos pensar que as diferentes leituras a que nos referimos, estão em certo nível, estruturadas pelos recursos de poder, materiais e culturais de que dispõem os sujeitos e de elementos culturais já ativados em suas subjetividades.
Desta forma, um produto ou bem cultural, quando posto em circulação, pode acumular diferentes significados a partir das leituras de quem os recepciona, alterando assim os significados iniciais pensados no momento de sua produção. Podemos pensar que os circuitos culturais são também locais de disputas em torno de significados, e que o caráter de um produto cultural e seu uso social não estão engessados pelas condições de sua produção (em nosso estudo, poderíamos pensar a condição étnica estigmatizada dos produtores iniciais) mesmo que estas exerçam influências consideráveis sobre a natureza do produto.
Observamos aqui, a natureza dual dos circuitos culturais, não sendo suficiente analisar a origem de uma forma cultural tomando se u processo de produção primário. É necessário também atentar para os contornos pessoais que esta assume a partir dos modos de recepção. Podemos estabelecer um dialogo entre Johnson e Hall (2016) quando este afirma que a atribuição de significado (própria do ato de representar) elabora-se em diferentes níveis, não sendo domínio da produção, da regulação, do consumo ou das identidades.
Evidente que em nosso estudo, a dimensão do conflito estará presente, uma vez que, como dito, um dos elementos constitutivos do debate em questão é a reivindicação de protagonismo na atribuição dos significados e representações em torno de determinados bens culturais. Como ilustração do que foi dito acima, vejamos um trecho de uma das matérias divulgadas pelo Instituto Geledés, intitulada “Na polêmica sobre turbante, é a branquitude que não quer assumir o seu racismo”46:
[...] VIVER EM UM TURBANTE é uma forma de pertencimento. É juntar- se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado.“VaiTerBrancaDeTurbanteSim!”Para vocês é morada provisória, das quais vocês entra m e saem conforme dita a moda e a vontade, porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude. Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa.
O turbante, por exemplo, em seu processo primário de produção, pode significar o empoderamento da mulher negra, todavia, quando tal produto passa a circular, mesmo que em oposição às intenções de seus produtores iniciais, assume diferentes leituras.
Tal como afirma Woodward (2000), existe uma ligação entre a identidade de uma pessoa e as coisas que ela usa. Tais coisas funcionam como demarcadores importantes da diferença. Podemos afirmar que neste ponto, as tensões e
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resistências se estabelecem no momento em que os mesmos objetos passam a circular entre diferentes grupos, ampliando suas possibilidades de identificação a partir de traços provenientes de outros espaços.
Figura 3 – Circulação do turbante como acessório da moda
Fonte: Geledés (2015).
Como dito, práticas de apropriação podem se tornar problemáticas em tal contexto, uma vez que estamos nos referindo a símbolos étnicos historicamente estigmatizados e cuja suposta visibilidade e aceitação envolve a diluição e domestição de suas marcas mais fortes.
Tal processo de diluição pode ser entendido por meio das tentativas de branqueamento dos símbolos de matriz afro-brasileira. O turbante, a capoeira, o samba, as religiões de terreiro, em dado momento do curso da história nacional foram duramente reprimidos. Hoje, capturados pela indústria cultural e ostentados por pessoas não negras, tais elementos, envoltos nos status de uma suposta “universalização”, são celebrados e encarados como mercadoria, o que promoveria a invisibilização do povo negro, tal como se argumenta nas matérias.
4.4 Apropriação cultural: mercantilização do étnico, diversidade global e