Fonte: EN ARQ12 (CL) abr/2013. Turnos 96-104; 106; 119-120
CL. (...) hoje as empresas não são mais de produzir 20, 30 mil pares do mesmo modelo, da mesma cor.
E. houve uma época em que as fábricas daqui fabricavam (...)
CL. Trabalhavam o ano inteiro com o mesmo modelo e com o mesmo (...) Mas isso foi naquela época ali de 70, 80 ((1970, 1980)) quando se tinha (...)
E. (...) uma fábrica grande daqui que fabricasse o mesmo modelo tirava quantos pares por dia?
CL. Ah, na época fazia assim, 4, 5 ((mil pares por dia)). Na época do Andreas, que eu trabalhei no Andreas, que foi de (...) 2004 a 2007, nós fazíamos 15 mil pares por dia. Tinha-se 8 fábricas! E. Tudo aqui na região?
CL. Ãh, era na região ali (...) do Taquari ali. Tinha Cruzeiro, tinha Lajeado, tinha Forquetinha (...)
E. Ahã.
CL. E daí nós tínhamos mais 3 na Bahia já. (...)
CL. É. E daí o que que aconteceu? Começou fechando primeiro a de Lajeado, depois fechou a de Cruzeiro, fechou a de, Forquetinha foi a última que fechou (...) Fechou também, e aí eles levaram isso aí, hoje eles fazem só lá na Bahia.
E. Ahã. E mantém até hoje daí?
CL. Mantém, tem empresas maiores que estão, que já foram para fora do país, deu errado em alguns lugares. Que nem tem uns que foram à Nicarágua, o caso do Schmidt Irmãos. Foi à Nicarágua, foi lá, montou fábrica e não encontrou mão-de-obra qualificada. Voltou. Paquetá também está na Nicarágua e está na (...) República Dominicana! Também eles estão na República Dominicana. Mas já tem uma sinalização de que não estão dando certo lá e talvez vão voltar para produzir aqui de novo. Sabe?
18 Ida Helena Thön se refere ao Plano Brasil Novo que abriu o mercado interno às importações e confiscou poupanças
privadas. Os autores PRADO; BRAGA (2011, p. 540) relatam aspectos do impacto deste evento sobre empresas do ramo do vestuário e calçados no Brasil.
A cidade convive hoje com restrições no setor de fabricação de calçados e curtumes, que segundo Carneiro (1986) chegou a empregar 80% dos moradores do município. Algumas empresas continuaram na cidade, porém com número de empregados reduzidos, sendo as cooperativas de trabalho uma das alternativas encontradas. Segundo Lima (2008), estas foram alternativas pragmáticas encontradas pelos (as) trabalhadores (as) para suprir a falta do emprego formal, como possibilidade de sobrevivência, mas não, necessariamente, gerando melhores condições de trabalho ou crescimento econômico.
Diante destes acontecimentos, o contexto se tornou favorável para empreendimentos como a fábrica Zeferino. Este é o assunto abordado na próxima sessão.
2.4 A FÁBRICA ZEFERINO
O processo de instalação da fábrica Zeferino na cidade de Novo Hamburgo, RS, teve início em 2006 quando, ainda em São Paulo, SP, Eduardo Rabinovich foi apresentado a Jorge Guimarães, na época proprietário desta fábrica. Jorge Guimarães é um paulistano experiente na gestão de fábricas de sapatos nesta cidade gaúcha.
A fábrica em questão já estava instalada na cidade há muitos anos e possuía consideráveis conhecimentos sobre fabricação de calçados femininos em couro mesclando, em alguma medida, técnicas manufaturadas e mecanizadas.
Segundo Alfredo Mascarenhas, tal fábrica possuía um diferencial pois era “uma fábrica de mais de 15 anos (...) que se especializou em fazer (...) produtos especiais, com um trabalho manual bastante intenso, uma intervenção humana, de artesãos, muito intensa!” (Alfredo Mascarenhas, entrevista, julho de 2012). Diante da configuração favorável aos propósitos e características da Zeferino, Eduardo
Rabinovich comprou a fábrica, que está localizada no bairro Rincão, à Rua Nepal, no 41. As figuras
Figura 8 - Mapa de Localização da Fábrica. Fonte: Google Earth (acesso em 25.jun.2013).
Figura 9 - Fachada da Fábrica Zeferino. Fonte: Acervo digital Zeferino.
O processo de transição desta fábrica para se tornar fábrica Zeferino durou aproximadamente 2 anos e se deu a partir de dois principais aspectos. Em primeiro lugar, Jorge Guimarães como gestor agregava diversas e importantes tarefas para o funcionamento da fábrica como, por exemplo, o desenvolvimento de produtos e de couros e a assessoria técnica a respeito da fabricação dos sapatos. Não havia um cálculo formal de consumo de matérias-primas por modelo, desta forma, tanto a compra da matéria-prima quanto o cálculo do preço de cada modelo eram feitos por este gestor, “de cabeça” (Diogo Terme de Oliveira, entrevista, novembro de 2012). Foi preciso montar uma equipe para assumir
as funções de Jorge Guimarães, incluindo um gestor para a unidade fabril com conhecimentos sobre a fabricação de calçados e um desenvolvedor de produtos e de couros, e a partir de então o organograma da fábrica ficou configurado da seguinte maneira:
Figura 10 - Organograma da fábrica Zeferino. Fonte: Foto de autoria própria.
Em segundo lugar, até 2006 o trabalho da fábrica consistia em desenvolver modelos de calçados para terceiros, que eram marcas nacionais que não possuíam fábrica própria e encomendavam modelos para serem desenvolvidos e produzidos nesta fábrica. Outro aspecto é que até aquele momento esta fábrica fazia parcerias com outras fábricas para a produção de determinados tipos de calçados nos quais não era especialista, como botas, por exemplo. A partir do projeto Zeferino a fábrica deveria passar a produzir modelos originais desenhados pelo estilista da marca, bem como era desejável que se preparasse para a fabricação de todos os tipos de calçados.
Estas novas orientações solicitaram certas adaptações como, por exemplo, encontrar maneiras de desenvolver modelos a partir de croquis, não mais tendo como ponto de partida um modelo previamente desenvolvido por outra empresa. Por motivos como este Cristiano Rodriguez, estilista da Zeferino, argumenta que houve um longo processo de trabalho e adaptação entre a fábrica e o estilista afirmando que “isso tem que ir (...) treinando, tem que ir construindo! (...) Porque, você tem que, na verdade você tem que ir lapidando! (...) Porque nós temos ótimos profissionais, mas você tem que ir lapidando para chegar na qualidade que nós temos hoje” (Cristiano Rodriguez, entrevista, agosto de
2012). Logo, apesar da fábrica já existir há alguns anos e produzir sapatos utilizando técnicas manufaturadas foi necessário um período de adaptação para que fosse possível produzir os artefatos idealizados inicialmente pela marca.
A partir de maio de 2008 estas ações já estavam completadas e Jorge Guimarães efetivou seu
desligamento. Nesta ocasião a fábrica contava com 47 trabalhadores (as) distribuídos (as) em 1.138 m2
entre galpão, escritório e almoxarifado. Atualmente, a fábrica conta com 34 trabalhadores (as), sendo 19 na produção, 2 no almoxarifado, 2 na modelagem, 1 nos serviços gerais, 8 no escritório, 1 nos serviços externos e 1 na gerência da unidade.
A seguir apresento alguns aspectos dos fornecedores das matérias-primas utilizadas pela fábrica Zeferino.
2.4.1 Fornecedores (as)
A região do Vale dos Sinos, RS, desenvolveu-se em grande medida a partir do trabalho relacionado ao couro e à fabricação de calçados. É possível notar que na cidade de Novo Hamburgo as empresas, indústrias e comércios em geral atuam neste campo de trabalho. Este tipo de configuração facilita o acesso dos fabricantes de calçados da cidade e região aos componentes necessários para a produção de sapatos, evitando a dependência de fornecedores (as) mais distantes. Por meio da figura a seguir apresento algumas imagens feitas por mim das ruas Victor Hugo Kunz e Pedro Adams Filho, localizadas na cidade de Novo Hamburgo:
A rede de fornecedores (as) da fábrica é composta por diversos fabricantes de todos os tipos de componentes para a produção do calçado. Considerando a configuração do Vale dos Sinos como polo calçadista as empresas que fornecem os componentes estão localizadas tanto na cidade de Novo Hamburgo, RS, como nos arredores. A figura a seguir aponta a localização de alguns (as) dos (as) principais fornecedores (as) da fábrica, identificados por ramo de atividade:
Figura 12 - Mapa da localização de alguns fornecedores. Fonte: Autoria própria.
A fábrica Zeferino possui uma rede restrita de fornecedores (as). Segundo os trabalhadores de compras e da modelagem, profissionais que se relacionam diariamente com os (as) fornecedores (as), é necessário cultivar um relacionamento com cada um (a) deles (as). Este relacionamento é importante devido às quantidades de produção da fábrica Zeferino. Enquanto outras fábricas produzem até 30 ou 40 mil pares/dia, esta produz até 120 pares/dia. Em uma região voltada para a produção em grande escala esta diferença pode dificultar o andamento do trabalho cotidiano.
Normalmente são os (as) fornecedores (as) que circulam entre as cidades do Vale dos Sinos a fim de preparar os componentes e entregá-los prontos aos clientes, da mesma forma que tomam as iniciativas de contato para cultivo dos relacionamentos entre fornecedor (a) e cliente. No caso da fábrica Zeferino, em certa medida, é a própria fábrica que toma as iniciativas de cultivo dos relacionamentos, bem como faz grande parte do trabalho de desenvolvimento circulando entre as cidades do Vale dos
Sinos. Esta é uma estratégia para, mesmo sendo uma fábrica pequena, conseguir acessar componentes e matérias-primas variadas e na qualidade desejada.
Outra estratégia para viabilizar as negociações de compra e/ou desenvolvimento de componentes em menor escala é o pagamento de valores mais altos. Segundo David Paim de Matos, os fornecedores praticam com a Zeferino um preço maior do que o praticado com os outros clientes, por concordarem em fabricar em menor quantidade componentes exclusivos da Zeferino, como as solas por exemplo. David Paim de Matos e Diogo Terme de Oliveira nos informam sobre estas práticas no fragmento a seguir: