V. COMMENTAIRES ET DISCUSSION
4. Forces et faiblesses de l’étude
Para responder a essa pergunta, inicialmente, se faz necessário explicitar o que se entende por diálogo argumentativo e como esse diálogo dá conta do compromisso com o ponto de vista. Nesse sentido, o diálogo argumentativo é compreendido como uma atividade discursiva na qual posições opostas negociam pontos de vista contraditórios para chegar ou não, a uma resolução (LEITÃO, 2007). Caracteriza-se pela sua natureza responsiva e a presença de pluralidade de perspectivas, através da qual pontos de vista são construídos, negociados (avaliados) e transformados no diálogo entre um outro real ou potencial, em um contexto de produção particular (LEITÃO, 2008). Nesse sentido, o diálogo não só se restringe a argumentar com outros, senão, também, a possibilidade de pensar que na argumentação consigo mesmo, aparece variedade de formas de expressão em presença de vozes antagonistas (posições), que atuam como interlocutores críticos, diante dos quais perspectivas contrárias são avaliadas e ponderadas, a fim de tornar as posições defendidas aceitáveis.
No processo argumentativo, a noção de compromisso tem relevância, uma vez que se assume como indicativo do grau de confiança e certeza que os sujeitos têm com as informações
que sustentam seus próprios pontos de vista, portanto, implica a obrigação dialógica do argumentador para apoiar algum enunciado, a favor ou contra, quando seu ponto de vista é desafiado (WALTON, 1993; WALTON, 2010). Nesse sentido, o processo argumentativo envolve o desafio constante das posições instauradas no diálogo que demandam do argumentador uma resposta valorativa à oposição.
Diante das condições discursivas de uma situação argumentativa, a reação avaliativa diante do desafio deriva um tipo de reação com a qual o argumentador se compromete – i.e., aceitar, rejeitar, se contrapor, se antecipar, perguntar, etc. Compromisso decorrente de um movimento argumentativo prévio (EEMEREN, 2010; BROOKFIELD, 2006; WALTON, 1993; 2010) e perpassado por compreensões e crenças preexistentes que podem levar o argumentador a atenuar/flexibilizar sua posição ou, pelo contrário, fortalecer e manter (polarizar) suas crenças por meio de avaliação tendenciosa dos fundamentos (LEEPER, 2014; ROSS, 2012).
Em razão desses entendimentos e a partir dos achados obtidos na reconstrução dialógica oferecida nos ensaios dos casos analisados, observa-se que esse diálogo, às vezes, apresenta-se como sendo flexível e sistemático. Isto é, nota-se o exame e ponderação tanto dos próprios pontos de vista como dos elementos da oposição (aspecto legitimado e valorado positivamente no contexto da DIP/MDC), movimentos que mostram uma resposta valorativa moderada, na qual se consegue conciliar informações das duas posições que a controvérsia instaura. De forma que, nas respostas à contra-argumentação, o grau de compromisso mostrado não é claramente para um lado, ou para outro, pelo contrário, observa-se uma variabilidade sobre a inclinação na direção ou uma ponderação que concede um grau de força (intensidade) semelhante.
Apesar disso, também se observa que há casos nos quais esse diálogo se torna mais fixo, ou seja, o aluno pressupõe a divergência inicial das posições instauradas pela controvérsia – favor e contra –, e diante disso, oferece informações dos dois lados, mas não as coloca em diálogo. Não há pistas que indiquem no discurso que o mérito dos argumentos está sendo sistematicamente examinado. No entanto, essa aparente falta de diálogo entre pontos de vista pressupõe que por serem posições que coexistem em um mesmo contexto, DIP/MDC, haveria pelo menos um nível de compartilhamento que autorizam e legitimam sua função dentro desse ambiente de aprendizagem.
Essas mudanças no diálogo, como sendo mais, ou menos, perpassadas pela reflexividade, pode ser produto das condições de produção próprias à DIP/MDC cuja proposta pedagógica está atravessada pela dimensão cognitivo-discursiva da argumentação, através da qual se mobiliza simultaneamente, funções discursivas, cognitivas e epistémicas em cada fase do ciclo
de debate (LEITÃO, 2012). Dimensões a partir das quais se busca levar o estudante a pensar constantemente na força e nos limites dos fundamentos que são usados para sustentar os pontos de vista próprios e divergentes.
Além disso, a afirmação sobre manutenção ou fortalecimento de pontos de vista a partir da resistência a escutar e avaliar informação contrária que, provavelmente, ameaça suas crenças ou conhecimentos iniciais (ALBARRACÍN & MITCHELL, 2004; HART, ET AL., 2009; LORD, ROSS, & LEPPER, 1979; ROSS, 2012; TABER & LODGE, 2006) diverge do observado na DIP/MDC a partir do revezamento na função desempenhada no ciclo de debate. O fato de os alunos terem a possibilidade de mudar a posição (proponente, oponente, investigador/juiz), como parte das regras da DIP/MDC, faz com que eles estejam mais dispostos a escutar e avaliar informações diferentes daquela que inicialmente acreditam. Nesse caso, a possibilidade real que qualquer um dos participantes tem de se deslocar de seus pontos de vista e de tomar consciência de seu próprio pensamento, acredita-se, diminui a confiança e a certeza das informações que possuem sobre os temas discutidos e, em consequência, questões relativas ao grau de compromisso com os próprios pontos de vista possam ser minimizadas ou atenuadas. Portanto, a manutenção ou não de pontos de vista estará mais associada ao contexto de produção e aos objetivos argumentativos que envolve o processo argumentativo (BILLIG, 1989; SCHWARZ, 2009), assim como a bagagem que o argumentador traz e que é posta em jogo nas situações nas que seus pontos de vista são desafiados.
Nesse caso, acredita-se que os elementos cognitivos e metacognitivos próprios da argumentação – fundamentação, ponderação, antecipação, entre outras – adquirem força diante dos resultados obtidos. Especialmente na forma como o aluno os compreende e os incorpora progressivamente a suas formas de funcionamento cognitivo, permitindo-lhe de alguma forma regular seu compromisso com os próprios pontos de vista, tanto no nível da direção como no nível da força que se imprime aos enunciados defendidos.