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FONCTIONNEMENT DES STOMATES ET PHOTOSYNTHESE

A- FONCTIONNEMENT DES STOMATES ET REPONSE AUX FACTEURS ENVIRONNEMENTAUX

Ao chegar a Macau, uma das experiências comuns à quase totalidade dos biografados, e que os marcou sobremaneira, diz respeito à vivência de uma temporada num hotel - entre três e dezoito meses - enquanto aguardavam o encaminhamento para uma casa cedida pela Administração, ainda ocupada por funcionários prestes a abandonar a cidade ou em fase de remodelação (o mesmo sucedeu com vários profissionais portugueses vinculados ao sector privado, também beneficiários de alojamento).94

Os Hotéis Metrópole, Matsuia, Beverly Plaza e a Pousada do Governo elevaram-se, assim, à condição de primeira morada dos jovens interpelados e de muitos outros conterrâneos que passaram por Macau. Caracterizados pelo frenesim de entradas e saídas de portugueses, uns acabados de chegar, outros prontos a mudar-se para o alojamento atribuído, estes espaços espelham o constante movimento de pessoas, centrípeto e centrífugo, que animava e ainda hoje anima o território. Importa anotar não ter sido aleatória a distribuição dos indivíduos pelos hotéis de Macau, antes reflectindo a ponderação dos estatutos socioprofissionais detidos pelos recém- chegados, como atestam Cabral e Lourenço (1993a: 49).

Rotulados de “não-lugares” por Augé (1998: 83), que os integra no rol de locais de transição e passagem tidos como não identitários, não históricos e não relacionais, os hotéis que hospedaram os jovens surgem representados por alguns deles como lugares de facto, nos quais investiram temporariamente a sua identidade pessoal e social - Madalena celebrou, inclusive, aí o seu 11º aniversário. Para além de cumprirem o papel primário de albergaria, as unidades hoteleiras funcionaram ainda como um ritual de iniciação, menos às gentes e culturas locais do que às condições de existência privilegiadas prestes a ser adoptadas. As eloquentes descrições dos biografados em torno desta experiência revelam, em nosso entender, não só o efeito de idade por eles assinalado, como também o efeito de escalada social imediata, acusando um significativo contraste entre os modos de vida passado e presente.

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Tendo família em Macau, Domingos e o respectivo agregado ficaram apenas duas noites num hotel, por conta própria, hospedando-se de seguida em casa da avó chinesa até encontrada uma residência satisfatória. Sendo o único entrevistado cujos pais migraram sob um regime de mobilidade ‘independente’, à partida mais incerto, não gozou na fase de instalação das regalias facultadas ao grosso dos migrantes portugueses institucionalmente enquadrados, se bem que no domínio sociocultural dispusesse de uma aparente vantagem face àqueles - o suporte de familiares paternos.

Eu estava encantada, cheguei ao hotel e adorei, ainda por cima ficámos num

duplex, com sala lá em baixo e o quarto lá em cima, então fartei-me de

escorregar pelo corrimão, toquei nas campainhas todas, chamei o empregado três vezes, era mesmo excitação de miúdos. Rita

Eu na altura adorava hotéis (risos). Era espectacular […] tinha televisão com TV cabo, com os canais todos […]. […] em Portugal só havia RTP e ali tinha os canais ingleses de Hong Kong, o […] da TDM, […] mais três […] com filmes, era uma maravilha. Não era preciso fazer as camas. Tinha uma coisa espectacular, que era um telefone na banheira […]. […] eram dois quartos de hotel e tinha uma porta, género hallzinho, com entrada para os dois quartos. […] era como uma casa. […] tínhamos lá tudo: frigorífico, máquina de café, talheres, pratos. Era um hotel de quatro estrelas que tinha acabado de abrir. […] E antes de sair para a escola, íamos lá abaixo tomar o pequeno-almoço, com empregados chineses a servir-nos sumo de laranja, torradas […]. Tomás

Era completamente diferente, foi um contraste enorme, foi uma novidade a toda a hora porque tu és miúda (e eu falo por mim porque tinha 12 anos) e de repente […] estás na China a viver num hotel, com empregados chineses, a viveres numa suite com televisão, com casa de banho, mas acabas por fazer uma vida normal. Sofia

De igual forma, verificou-se que os hotéis constituíram, na fase de tacteio do meio receptor, uma importante plataforma de integração e sociabilidade entre muitos portugueses, adultos, jovens e crianças, acabados de acercar o território, motivando-os a dar os primeiros nós na extensa rede de amizades construída. As solidariedades informais ali tecidas revelaram-se, por isso, capazes de atenuar o embate da chegada e o embaraço que a instalação numa nova sociedade sempre causa.

Estava também a achar imensa piada viver num hotel, nunca tinha vivido num hotel. E não era só eu que estava no Hotel Metrópole, só no meu piso havia mais não sei quantas crianças e eu aí acabei por fazer amizade com outro rapaz […], mas é normal nas histórias de chegada [a Macau] haver sempre essa confraternização de hotel. Duarte

Não obstante a satisfação partilhada pelos jovens por acederem ao conforto, sofisticação e mordomias até então totalmente estranhas à maioria, a transferência ao fim de uns meses para as casas disponibilizadas foi, grosso modo, bem acolhida. Apesar de as residências conterem amiúde apenas equipamentos básicos e peças de mobiliário estandardizadas, de forma a permitir o investimento pessoal dos novos ocupantes na decoração dos lares de acordo com as suas vivências e preferências estéticas, reuniram, pelas suas características - dimensão, localização geográfica, centralidade, detalhes arquitectónicos, luminosidade, vista, entre outras - a aprovação de todos os biografados, à excepção daqueles que, como Teresa, haviam partido para Macau desagradados.

[…] para agravar mais as coisas meteram-nos numa casa que só tinha dois sofás, uma mesa, dois sítios para meter os colchões nos quartos; […] não estava realmente mobilada à séria, não tinha sequer cortinados. […] estava habituada à minha casa com as minhas coisas - de repente chego a uma casa que não tem nada disso […]. Póim, outro corte! Onde é que estão as minhas coisas? Onde é que está a minha casa? Não tenho uma porcaria de uns cortinados! Um sol abrasador, um calor de morrer, não há cortinados, não há nada! O que é isto? O que é que vai acontecer aqui? Teresa

Reconhecidamente maiores e melhores do que os deixados em Portugal, também a localização, área e qualidade dos alojamentos em Macau permaneciam associados ao grau de distintividade da categoria profissional do progenitor contratado, tal como ocorrera com a selecção dos hotéis onde os instalaram, juntando- se a este critério estatutário a composição numérica do agregado doméstico. Atendendo a que as casas no território não eram por tradição espaçosas, dada a reduzida dimensão média das famílias nucleares chinesas em virtude das restrições impostas à natalidade com a lei do ‘filho único’, caso necessário adaptavam-se determinados imóveis à estrutura alargada de algumas famílias portuguesas.

Depois do hotel conseguiram fazer obras numa antiga enfermaria de leprosos, perto do hospital e nós ficámos com o primeiro andar […] tínhamos uma casa impecável […] muito grande […] porque nós éramos muitos. Tinha uma sala excelente […], um corredor grande […]. […] depois […] mudámos para uma antiga farmácia do Estado […]. […]. Eram quatro apartamentos, nós ficámos

com […] dois apartamentos para nós. A casa era muito bonita, toda em pedra e de linhas direitas […] tinha um encanto muito especial. Ouvia-se o Grande Prémio que se passava mesmo ali ao lado; duma nesga da janela do meu quarto via-se ainda a Baía da Praia Grande […]. Sofia

A casa era óptima […]. Nós também estivemos à espera porque eles estiveram a fazer obras na casa porque nós éramos três filhas - normalmente eles dão um quarto por cada filho […] e era um bocado mais difícil, então arranjaram-nos um apartamento com três quartos e um estúdio em que eles partiram as paredes, juntaram as duas casas […]: tinha escritório, uma sala grande, sala de jantar, quatro quartos, duas casas de banho, garagem […]. Madalena

Em termos geográficos, a Península de Macau subdivide-se, de forma algo grosseira, em duas áreas urbanísticas, a do Porto Exterior, exposta ao mar, e a do Porto Interior, virada para a China continental, classificada como a zona “dos bairros pobres e das angústias dos imigrantes ilegais” (José, s/d: 70), onde os referentes chineses se revelavam quase exclusivos. O antropólogo e jornalista Carlos Morais José (s/d: 7) descreve-as do seguinte modo: “(…) em Macau existe um lugar chamado Porto Interior. Mais curioso ainda é o facto da sua beleza e autenticidade se opor às modernices impessoais do seu oposto, o dito Porto Exterior. A oposição não deixa dúvidas: de um lado está o Macau do progresso, do comércio em grande, da riqueza bárbara, do betão armado e da insensibilidade. Do outro reside o Macau do tráfico, do encontro de culturas, dos segredos, a cidade tradicional ainda profundamente genuína, as casas de dois andares, os fragmentos de uma cidade destinada à aventura sem limites nem condições conhecidas”.

[…] o Porto Interior é onde há […] um porto natural onde estás, não digo na China no país real, mas mais perto da China, porque tu olhas para a frente e a China é ali, estás a ver as pessoas que andam ali […], tens o mar que os separa e é uma zona muito característica porque tens os juncos e os pescadores que vivem dentro dos juncos porque as casas deles são os próprios barcos, e é uma zona que fervilha de negócio, de pequenas fábricas, fabriquetas. Domingos

Salvo Domingos que, no seguimento do mês vivido em casa da avó no Porto Interior, habitou um apartamento arrendado pelos pais nessa mesma cinta da cidade, aí

optando por permanecer quando se emancipou em termos económicos e residenciais dois anos depois de desembarcar em Macau, atraído pelas suas particularidades, não foi nesta última área mas na do “progresso” e da “riqueza bárbara”, termos de Morais José (s/d: 70), que a maioria dos biografados residiu.

A par das casas senhoriais privilegiadamente situadas na Penha e junto à Baía da Praia Grande, destinadas aos mais altos representantes do governo e a uns quantos profissionais de topo, refira-se um conjunto de complexos habitacionais disseminados por Macau, ilhas da Taipa e Coloane (nestas, em especial, a partir dos anos 90), que hospedavam um significativo número de portugueses, muitos deles funcionários da Administração. Destaque-se o Tac-Fai e o Hoi-Fu, mas também o Jade Garden,

Ocean Garden, Kings Court, Queens Court e Caravel Court, alguns de construção

recente e luxuosa.

Projectado nos anos 80 por Manuel Vicente, prestigiado arquitecto português que em Macau deixou vasto património, o Tac-Fai localiza-se numa área central por de trás das Ruínas de São Paulo (um dos monumentos mais antigos do território) e nas imediações do hospital Conde São Januário, do cemitério e dos bombeiros. De cor branca e amarela é formado por dezoito pisos com dois fogos por andar. Foi a primeira morada de Duarte (no 1º piso); a segunda de Rita (no 12º) após uma curta e má experiência na zona da Barra (dado oodor nauseabundo proveniente de um matadouro próximo); e era perto dele que Madalena vivia. Parece haver consenso a respeito da parca representação chinesa e macaense neste edifício durante o período de tempo em que os biografados o habitaram, salvo aqueles vinculados à Administração. O Hoi-Fu, por seu turno, considerado até finais dos anos 80 como uma das construções mais sumptuosas de Macau, integra quatro torres de 30 pisos, cada uma com quatro fogos. Nele residiram uns quantos biografados: Alice, durante toda a estada em Macau; Duarte após a passagem pelo Tac Fai; assim como Rita, cujo relato comportou os maiores elogios em torno do alojamento onde permaneceu mais tempo, um duplex nos 29º e 30º andares de considerável dimensão, composto por seis quartos (incluindo o da empregada doméstica), quatro casas de banho e uma sala espaçosa, bem distinto do modesto rés-do-chão ocupado num dos bairros populares de Lisboa.

No meu prédio, por acaso, havia bastantes portugueses porque era tudo no prédio dos Serviços […]. Eu tinha uma professora da minha escola, […] a minha vizinha também era da minha escola, houve uma altura que me dei com

ela, mais ou menos; havia pessoas do meu prédio que eram portugueses e professores e alunos da minha escola […]. Alice

Conhecia todos os vizinhos portugueses e costumávamos ir a casa uns dos outros. João

[…] lembro-me especialmente da Beatriz, porque a mãe dela trabalhava no Instituto Emissor e também tinha aí uma casa, […] foi a minha primeira amiga porque tinha exactamente uma casa nesse mesmo edifício […]. Teresa

[…] nessa altura vivia aí a Sara, a tal minha primeira amiga […], a Helena […], a Salomé […], tínhamos imensos amigos a viver lá no prédio. Um outro amigo que a minha mãe conhecia cá de Portugal […], depois havia a Kicas que era outra amiga minha e que vivia no 10º andar - nós vivíamos no 12º. […] também o Rodrigo morava no meu prédio […]. […] nesse Verão […] em 84, quando o meu pai lá foi, ele dizia que aquilo era um inferno, que não se podia estar naquela casa porque toda a gente lá entrava. […] quando mudámos para o Hoi Fu […] eu dava-me mais com as pessoas do meu prédio: a Rebeca […] vivia no 17º, os Norton viviam no 7º andar […] eu passava em casa dos Norton, depois ia a casa da Cuca. Depois a Salomé morava no Tac-Fai, entretanto mudaram também para o Hoi Fu, nós morávamos no L e eles […] no K que era mesmo ao lado […]. Viviam os Ferreira […] no 25º, a Carolina foi viver depois para outro bloco […] mas ainda viveu no 13º durante muito tempo, portanto no nosso prédio havia imensos colegas da escola a viver. Rita

Percebe-se com nitidez, dos excertos acima transcritos, que a maioria dos biografados teve vizinhos portugueses com quem travou amizade, laços prolongados muito além dos limites residenciais porquanto frequentavam a mesma escola (em alguns casos também a turma) e interagiam no âmbito das actividades extracurriculares e de lazer, daí a sua configuração “multiplex” (Portes, 1999a: 15-16, 111; 2000: 154). Aliado a tantos outros eixos unificadores que se analisarão adiante, a presença expressiva de crianças e jovens portugueses em determinados complexos habitacionais encorajou-os ao desenvolvimento de sociabilidades do tipo intra- comunitário, assentes num expressivo sentido de união, pertença e “vizinhança” (Back, 1996: 31). Assentes, diria Granovetter (1973: 1361-1378), em “laços fortes”, a avaliar pelos elevados níveis de intimidade, intensidade afectiva e tempo investidos

nessas alianças. Gerava-se, nos escalões etários inferiores, uma intensa confraternização, não bairrista mas predista, pautada por verdadeiros corrupios inter- domiciliares. Paulo Filipe Monteiro (1994: 22) estava certo quando, ao estudar os modos de integração de luso-americanos numa região dos E.U.A., escreveu que embora os migrantes lamentem a falta das pessoas estimadas, “rapidamente (…) criam e desenvolvem no país de destino outras redes que com o tempo acabam por tornar anacrónicas as referências iniciais”.

Assinale-se, todavia, que apesar do comunitarismo característico das relações sociais estabelecidas pelas crianças e jovens portugueses nas urbanizações referidas induzir à representação destes espaços residenciais como “enclaves imigrantes”, em bom rigor julgamos inadequado categorizá-lo desse modo. Não se encontrou no Macau retratado pelos biografados, pelas fontes documentais consultadas e por nós visitado, um Portugal Town, nem tão pouco uma aglomeração espacial visível e bem demarcada dos migrantes portugueses (cf. mapa anexo).

A maior parte dos edifícios por eles habitados também alojava chineses e macaenses, em particular funcionários públicos igualmente beneficiários de casa cedida pela Administração (Cabral e Lourenço, 1993a: 49, 111; 1993c: 555) - a par de indivíduos provenientes da Europa, E.U.A., Austrália e outros países asiáticos como a Tailândia e Filipinas - não sendo por isso seu privilégio exclusivo. Antes coabitavam com uma amálgama de populações, culturas e tradições (Hongzhao, 1996: 698), compartindo com os habitantes locais o tecido urbano e social do território, facto confirmado em directo no decurso do trabalho de campo ali efectuado. Admitimos, sim, o uso da expressão ‘quase enclave’, já usada por Peixoto (1999: 218) para ilustrar a propensa vivência endocentrada de trabalhadores qualificados no estrangeiro.

Outro aspecto não somenos importante a considerar na análise dos alojamentos habitados pelos biografados prende-se com os trajectos de mobilidade residencial efectuados por muitos deles ao longo da estadia em Macau, algo recorrente em vários agregados (quatro dos jovens ensaiaram-nos três vezes), estando estes as mais das vezes correlacionados com a mobilidade profissional dos progenitores - promoções, exonerações, alteração de funções, de área de trabalho ou ainda transição do sector público para o privado e vice-versa (facto que indicia, em simultâneo, o dinamismo do mercado laboral no território naquela época) 95. Recomposições do núcleo doméstico

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Durante os cinco anos vividos em Macau Madalena manteve a mesma morada, assim compensando a itinerância que até aos onze anos lhe deu a conhecer um pouco dos continentes africano, americano e

estiveram, de igual modo, na origem de mudanças de residência quer por via do seu alargamento (nascimento de irmãos ou entrada de novos elementos - padrasto/madrasta e respectivos filhos), quer da sua contracção (como a dissolução de laços conjugais). Não tendo estas experiências causado alterações profundas nas rotinas dos jovens, nem nos seus “espaços de vida”, estimulavam a capacidade de reajustamento a novos lugares e vizinhanças, bem como de desapego dos precedentes, contribuindo a longo prazo (e a par de outros factores) para a construção de identidades familiarizadas com a mudança, o efémero, o provisório, ainda para mais formatadas no quadro de uma estadia também ela temporária e de uma fase da vida particularmente transitória.

europeu. Mas nem por isso a necessidade de mudança deixou de se fazer sentir no seio familiar: “Foi o

nosso recorde por incrível que pareça e não sei como é que aconteceu, mas claro que a minha mãe tinha que estar a mudar a casa todos os meses […] para sentir que estava a mudar de ambiente.”