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Fonctionnement de la mitochondrie

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1. LE MUSCLE ET LA MITOCHONDRIE

1.5. Fonctionnement de la mitochondrie

Com a intensificação da vida nos grandes centros urbanos houve um esvaziamento das cidades pequenas e, de forma mais intensa, das regiões rurais. Logo nos primeiros anos o festival começou a ganhar destaque e potencial de continuidade. Com o sucesso da proposta houveram sondagens sobre a mudança de localidade, a ideia era levar o Bons Sons para a cidade. Isso provavelmente ocorreu por entender-se que promover um festival na cidade seja mais fácil que em uma zona rural. E realmente o é, contudo, o Bons Sons não é apenas um festival de verão, ele é Cem Soldos. As pessoas vão ao festival por tudo que ele representa e não apenas pelos concertos, assim, não faria sentido levar para a cidade. Sobre esta questão a direção do festival explanou:

[...] isso foi só boato. Nunca houve uma proposta. Havia o interesse e a Câmara dizia isso à boca pequena que se o festival fosse em Tomar… Mas isso era na altura em que as pessoas ainda não tinham sequer percebido o festival. Não tinham percebido que a alma do festival era a aldeia e que se isto fosse para Tomar seria uma festa de uma cidade qualquer [...] (DBS - FERREIRA, 2015, p. 21).

Com o passar dos anos ficou claro que Bons Sons e Cem Soldos são duas partes de uma mesma moeda. Isso é muito importante para evidenciar que espaços rurais e interioranos tem suas vocações e que estas podem ser potencializadas, a vida não acontece apenas em grandes centros urbanos. Como adverte o artista 3 “nós obrigatoriamente vamos ter que repensar a vida em grandes cidades e se calhar o futuro passa por espaços como este [refere-se a Cem Soldos]”. Nesse sentido, o festival acaba tendo o papel de mostrar que existem alternativas à desertificação dos interiores.

parece Paris!’” (RIOS, 2017, p. 2). Este é o sentimento geral, lembro de pensar, já no primeiro dia, como tantas pessoas conseguiam conviver em um espaço tão pequeno de forma tão harmônica. No início da semana com a chegada dos voluntários a aldeia já começa a ganhar outros contornos e durante o festival a atmosfera é outra. A aldeia é “invadida” por pessoas que tem “sede” de vivenciar aquela experiência, seja nas atividades, nos concertos, nos jogos ou em qualquer forma de interação com os moradores ou na vivência de qualquer outro aspecto da aldeia. Não há mais o que questionar, o festival é um sucesso e o é por ser diferente, por ser na aldeia.

A principal plataforma de trabalho da SCOCS é o projeto Aldeia Cultural que tem como finalidade promover o desenvolvimento da aldeia por meio dos pilares educação, turismo, envelhecimento, desporto, urbanismo e cultura (VISITA GUIADA PELAS CRIANÇAS). Como afirmou a Coordenação de Estudos de Públicos eles não “vendem” nada que não tenham, toda a proposta do festival e das demais atividades realizadas ao longo do ano envolvem uma vivência real da aldeia. Por mais que se crie uma estrutura para receber as pessoas, as atividades propostas lançam mão de artefatos locais e regionais e a maioria das coisas são realizadas por membros da comunidade, o que faz com que a identidade local seja a do festival.

Em uma das noites na associação, quando nós voluntários dobrávamos os folders com a programação do festival um senhor da aldeia conversava conosco sobre a região. Ele descreveu que em sua juventude as oportunidades de emprego eram fábricas e que há alguns anos elas fecharam e ele juntamente com vários outros trabalhadores ficaram sem emprego, assim como, os jovens da região que passaram a buscar novas oportunidades em outras regiões do país. Muitas pessoas ao falar do festival acabam remetendo a esta questão, parece ser um consenso este processo de esvaziamento das aldeias e a necessidade de criar meios para fixar as pessoas nessas localidades.

No vídeo de apresentação do projeto Aldeia Cultural os moradores afirmam “vamos fazer com que os produtos locais e o nosso saber receber sejam o motor da nossa economia”. E esta é a ideia, movimentar a economia da aldeia ao valorizar os produtos regionais e recepcionando as pessoas nos eventos que são realizados ao longo do ano, dentre os quais o Bons Sons é o maior, em tamanho e expressividade. Nesse sentido, o festival vem como uma alternativa a desertificação ao movimentar a aldeia e as comunidades ao redor por meio do turismo de lazer e hospitalidade. A direção dos Bons Sons afirmou:

Sabemos o valor que temos para a comunidade da aldeia e para a região e a importância cultural para o país. O nosso papel é também o de valorizar o espaço rural, que está abandonado e sobre o qual há grande desconhecimento. Haver uma aldeia com esta autoestima, que acredita no que faz e no que é, é uma mensagem para um país contemporâneo, que consiga fixar as pessoas no interior (HORTA, 2017, p. 4). É muito interessante perceber a consciência que a organização tem acerca do papel que o festival tem para a aldeia, para as cidades circunvizinhas e para o país. A direção enfatiza esta importância do festival ao explicitar como o Bons Sons se insere no contexto local, regional e nacional. Na reunião dos voluntários a direção enfatizou o festival como uma forma empírica de repensar os espaços rurais a partir das pessoas que o habitam. Tal pensamento foi expresso na fala: “neste momento o país está a ser devastado pelos fogos [incêndios] e pelo abandono do espaço rural e aqui trazemos algum raciocínio, algum pensar e algum exemplo de como se pode habitar as aldeias hoje, como é que as aldeias podem ser contemporâneas” (DBS - reunião voluntários). A mensagem que quer ser passada é que as aldeias não são o passado, que elas, juntamente com as cidades, são contemporâneas e devem ser percebidas como assim.

Conforme o artista 3, “as grandes cidades fazem as pessoas perderem muito tempo e não necessariamente fazem com que as pessoas ganhem mais, portanto, é possível repensar tudo isso”. Esta é uma discussão ampla que vem ganhado espaço nos últimos anos devido a percepção de encurtamento do tempo que as pessoas passaram a ter nos grandes centros. Como o artista 6 argumentou, o avanço do turismo, eu incluiria também a expansão de áreas de comércio, nas regiões centrais das cidades, faz com que estas áreas passem a ser mais caras, o que leva as pessoas a viverem em zonas mais periféricas, aumentando os deslocamentos diários. Este contexto evidencia a necessidade de repensar os espaços e o Bons Sons mostra que é possível dar vida aos interiores e as zonas rurais.

Durante o festival “as pessoas podem trazer uma vivência diferente para a aldeia e também podem ajudar economicamente” (FAMÍLIA 5). As pessoas que vão ao festival movimentam recursos para os negócios da própria aldeia, as tascas, os restaurantes, o mercado e o café; para os empreendimentos que colocam barracas para vender comida ou artesanato; para a associação, via bilheteria, café e restaurantes e merchandising; e para os empreendimentos de hospedagem, tanto da cidade de Tomar como em outras cidades circunvizinhas. Além disso, existe movimentações indiretas em supermercados, restaurantes e até no turismo nas cidades vizinhas, algumas pessoas, inclusive, visitam aquela região fora do contexto do festival. Desse modo, o festival tem um impacto substancial para a região. Contudo, para além da questão econômica a organização visa a construção de uma ligação entre as pessoas e a aldeia.

[...] temos que conseguir mudar o ego. As pessoas continuarem a ter orgulho de fazerem parte de Cem Soldos e de quererem se envolver e continuar a envolver. Mesmo que não seja possível hoje viverem aqui porque não conseguem criar os seus postos de trabalho cá, pelo menos vêm todos os fins de semana, todos os meses, vêm às festas, continuam a dizer que são Cem Soldenses. Portanto, há esta ligação que é muito importante para a manutenção desta comunidade [...]. E isso é mais importante do que parece, porque se não trabalharmos isso, a outra parte nunca virá. E depois os filhos dessas pessoas que estão fora, continuam a ser de Cem Soldos, e não é vir à terra do pai e quando a avó morrer já não vêm cá, [a ideia] é continuarem a criarem laços e a virem trabalhar, nem que seja para o festival ou a virem ajudar naquele mês, criam laços e relações com as pessoas que cá estão e continua-se a fazer uma comunidade apesar de ela não viver toda, todos os dias cá em Cem Soldos, isso é para nós muito importante. Isso é o maior impacto. É eu ver sobrinhos meus ou filhos de outras pessoas que apesar de não terem cá nascido, continuam a sentir-se Cem Soldenses (DBS - FERREIRA, 2015, p. 18).

Esta fala da direção do Bons Sons salienta que o foco é que a aldeia continue a ser parte da vida das pessoas, mesmo daquelas que não nasceram e não residem nela. Uma ação muito interessante é ter pré-adolescentes residindo na aldeia durante as férias escolares no mês de julho. Existe uma programação preparatória para o festival que envolve crianças, elas prestam serviços compatíveis com sua idade e conhecem a história e os processos da aldeia. Uma das atividades é a preparação para realização das visitas guiadas a aldeia durante o festival, eu fiz uma visita guiada com duas crianças, uma residente em Tomar e outra residente na Alemanha e eles relataram que passaram o mês de férias em Cem Soldos. Isso faz com que eles se integrem a aldeia.

As crianças das famílias entrevistadas demonstram muita alegria em participar do festival. Já as crianças e adolescentes residentes em Cem Soldos não sabem o que é a aldeia sem o Bom Sons. Muito se fala sobre a orgulho que crianças e os adolescentes tem do Bons Sons e, por conseguinte, de Cem Soldos. Os adultos também vivenciam a aldeia intensamente ao longo do ano, muitos dos organizadores residem e trabalham em outras cidades, mas estão sempre presentes em Cem Soldos, seja nos finais de semana, nas férias ou nos eventos. Na semana do festival as casas ficam lotadas, pois muitos vem para preparar a aldeia para o festival. Ser Cem Soldense é um orgulho! Isso faz com que a aldeia sempre tenha pessoas dispostas a desenvolverem alguma atividade.

A figura 23 traz uma representação ilustrativa da prática alternativa a desertificação. Tal prática está em um processo de solidificação, apesar de seus elementos constituintes não estarem totalmente imbricados, existe potencial para tanto. Os elementos materiais não são tão físicos, são as ações da associação e a geração de renda. O festival possibilitou a legitimidade da associação, a qual passou a desenvolver muitos outros eventos ao longo do ano, todos eles associados ao projeto Aldeia Cultural, que objetiva possibilitar uma qualidade

de vida a todos os envolvidos com a comunidade, principalmente aos moradores. Quanto a geração de renda, o Bons Sons alavanca os negócios da comunidade, gera recursos a associação e movimenta muitos outros empreendimentos das cidades próximas.

Figura 23 - Representação da prática alternativa a desertificação

Fonte: Dados da pesquisa, ilustração baseada em Shove, Pantzar e Watson (2012).

No que diz respeito a competência, apesar de os envolvidos diretamente deterem conhecimento sobre os produtos do festival os festivaleiros acreditam que há benefícios, mas, não tem noção de quais são eles. Praticamente todos os respondentes dos questionários que eu apliquei desconhecem os projetos sociais e os retornos que o festival traz para a comunidade, apesar de creem que há retornos econômicos não tem informações sobre os expoentes sociais. O Bons Sons é um projeto que agrega muito, não apenas em termos financeiros, mas sobretudo em bem-estar social. Apesar de não ser o festival, mas sim, a associação, juntamente com a comunidade, que fazem com que tantos projetos sejam gerados, é o Bons Sons que alavanca e coloca Cem Soldos em destaque. Seria importante comunicar melhor o que o Bons Sons gera para todos, pois a relação aldeia-festival-comunidade é singular e pode servir como um exemplo de como habitar os interiores.

Apesar de não conhecerem os expoentes, as pessoas atribuem importância a existência do festival para a região e vislumbram ganhos para comunidade. É interessante perceber como os festivaleiros significam a contribuição do festival mesmo sem deterem todas as

informações. Já o pessoal envolvido com a organização e a comunidade sabem exatamente o que o Bons Sons representa para a aldeia e para a região. Com um apoio de quase cem por cento dos moradores e com o apoio em massa de pessoas que já não moram em Cem Soldos o Bons Sons é tido como algo a se ter orgulho e a ser mantido. É muito bonito ver o engajamento de todos, onde se precisa de algo sempre aparece alguém para ajudar. As pessoas que tem seus negócios, se dividem entre a prestação de serviços e a colaboração para com as atividades do festival. Os grupos de trabalho apesar de propiciarem uma separação de tarefas, esta não é rígida, quando necessário as pessoas acabam contribuindo com outros grupos de trabalho. Este engajamento é obtido porque as pessoas têm orgulho de fazer parte de algo tão mágico.

4.3 Práticas Sociais focadas no Aspecto Social

O termo sustentabilidade surge por uma questão social, o crescimento populacional levaria a um momento em que não haveria mais comida suficiente para toda a civilização, partindo desta discussão começaram os debates na área. Ao longo do tempo o aspecto social foi ficando a margem diante da sobreposição do fator ambiental. Os debates passaram a se concentrar em evidenciar como manter o desenvolvimento econômico sem esgotar as fontes de recursos, que são provenientes da natureza, ou seja, como conciliar os aspectos ambientais e econômicos. As temáticas responsabilidade social, gestão ambiental, desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, logística reversa, entre outras, passaram a ser amplamente difundidas, em cursos de graduação ou pós-graduação, em congressos e periódicos e até no meio empresarial.

Neste cenário o aspecto social, apesar de estar no centro do debate, ficou sendo um elemento marginal. Contudo, nos últimos anos a questão social está tomando conta do cenário e não porque as pessoas não terão comida caso se mantenham os padrões de desenvolvimento, mas porque o ritmo de vida acarretou vários problemas sociais. A falta de convívio em espaços compartilhados, o uso excessivo das redes sociais, a dependência tecnológica, a falta de tempo para lazer e família e o avanço substancial de doenças como ansiedade e depressão trouxeram à tona a necessidade de repensar a sociedade. Temáticas como direito a cidade, mobilidade e lazer começam a tomar espaço nas discussões sobre sustentabilidade.

No contexto do Bons Sons o aspecto social é o que mais chama a atenção. Apesar de as questões ambientais serem as que estão formalmente difundidas e de as econômicas darem o suporte necessário a manutenção do festival nos moldes propostos são as questões sociais as

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