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Fonctionnement de l’algorithme d’optimisation variationnelle 50

1.3 Méthodes variationnelles

2.2.2 Fonctionnement de l’algorithme d’optimisation variationnelle 50

59 Se, segundo Miranda, a criação de espaços ginocêntricos de treinamento possibilitam o empowerment [empoderamento] das participantes, é preciso clarificar o sentido que empregamos aqui deste termo, o qual pode sugerir diferentes significados. De acordo com o Glossário Social (SCHIAVO; MOREIRA, 2004) elaborado pela empresa Comunicarte80 para difundir conceitos que orientam as práticas sociais, empoderamento é:

Processo pelo qual um indivíduo, um grupo social ou uma instituição adquire autonomia para realizar, por si, as ações e mudanças necessárias ao seu crescimento e desenvolvimento pessoal e social numa determinada área ou tema. Implica, essencialmente, a obtenção de informações, um processo de reflexão e tomada de consciência quanto a sua condição atual, uma clara formulação das mudanças desejadas e da condição a ser construída. A essas variáveis, deve somar-se uma mudança de atitude que impulsione a pessoa, grupo ou instituição para a ação prática, metódica e sistemática, no sentido de objetivos e metas traçadas, abandonando-se a antiga postura meramente reativa ou receptiva. Criado por Paulo Freire, este conceito ficou mais conhecido por sua versão em inglês – empowerment, que significa ‘dar poder’ a alguém para realizar uma tarefa sem precisar da permissão de outras pessoas. Observe-se, no entanto, que o termo em inglês trai o sentido original da expressão: empoderamento implica conquista, avanço e superação por parte daquele que se empodera (sujeito ativo do processo), e não, uma simples doação ou transferência por benevolência, como denota o termo inglês empowerment, que transforma o sujeito em objeto passivo. (SCHIAVO; MOREIRA, 2004, p. 59-60, grifo nosso).

Paulo Freire e Ira Shor em Medo e Ousadia: O cotidiano do professor (1986), livro estruturado em forma de diálogo para falar sobre a pedagogia dialógica, utilizam o termo empowerment no contexto da educação. Diferentemente dos autores do Glossário Social, em Medo e Ousadia, os autores optam pela não tradução do termo:

[...] devido à riqueza da palavra [...], que significa A) dar poder a, B) ativar a potencialidade criativa, C) desenvolver a potencialidade criativa do sujeito, D) dinamizar a potencialidade do sujeito. (FREIRE; SHOR, 1986, p. 10). Optamos pelo uso da palavra em português uma vez que o termo encontra-se incorporado nesta língua, apesar de não encontrar-se em todos os dicionários (HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007). Porém, ao fazer referência ao livro de Freire e Shor (1986), utilizaremos a palavra em inglês, respeitando a opção que fazem os autores neste livro, assim como fazem os autores do artigo Para além de Capital Social:

80 “A Comunicarte Agência de Responsabilidade Social é uma empresa de consultoria em comunicação e gestão socioambiental voltada à criação, planejamento, implementação, supervisão e avaliação de projetos desenvolvidos por organizações privadas, governamentais, da sociedade civil ou de cooperação internacional”. Fonte: COMUNICARTE. Disponível em < http://www.comunicarte.com.br/site- comunicarte/apresentacao.php?ativo=quemsomos>. Acesso em 28 dez. 2011.

60 juventude, empoderamento e cidadania (BAQUERO, M; BAQUERO, R.; KEIL, 2006), ao citarem o mesmo livro. A respeito desta confusão acerca não só da utilização do termo (se em português ou inglês), mas também dos significados gerados em cada língua e por cada autor, nosso objetivo não é problematizá-lo, mas apenas contextualizar o sentido que utilizamos neste trabalho.

De acordo com Shor e Freire, empowerment é um termo utilizado na linguagem da pedagogia libertadora, juntamente com outras palavras, tais como, diálogo, conscientização e consciência crítica. O empowerment, segundo Freire (1986, p. 71), não é suficiente para uma transformação social, porém ele é um passo fundamental. A partir do momento em que o sujeito sente-se empoderado e mais livre, ele precisa ajudar para que outras pessoas sintam o mesmo, para que, deste modo, possamos caminhar em direção a uma transformação global. Shor (1986) explica que nos anos 1960, a ideia de uma pedagogia que pudesse mudar a sociedade, era muito popular, porém a noção de empowerment nos Estados Unidos, historicamente, está associada à ideia de individualismo. Isso significa um apreço pelas pessoas livres e independentes que alcançam seu sucesso individualmente. Shor prossegue dizendo que o individualismo foi ainda mais motivado pelo crescimento econômico, pela acelerada modernização e pela busca do Sonho Americano e, aliado a isso, a limitada eficiência dos movimentos sociais. Este processo refletiu-se na pedagogia, incentivando o poder individual, a autoconfiança, autoajuda e auto aperfeiçoamento. Assim, os esforços individuais ganham maior credibilidade do que a inteligência social e o poder político. Mas, Shor ainda afirma que o culto ao individualismo sempre coexistiu com lutas sociais, como as ondas pela libertação feminina e as lutas pela igualdade racial.

Freire, ampliando a questão colocada por Shor, traz o tema para o contexto latino-americano, dizendo que entende “o conceito de empowerment ligado à classe social” (1986, p. 72). A partir deste entendimento, Freire questiona se é possível utilizar na América do Norte uma pedagogia libertadora proveniente do Terceiro Mundo:

A questão do empowerment da classe social envolve a questão de como a classe trabalhadora, através de suas próprias experiências, sua própria construção de cultura, se empenha na obtenção de poder político. Isto faz do empowerment muito mais do que um invento individual ou psicológico. Indica um processo político das classes dominadas que buscam a própria liberdade da dominação, um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta (FREIRE; SHOR, 1986, p. 72, grifo nosso).

61 A partir desta explanação, entende-se o empoderamento como um primeiro passo no processo de transformação social. Enquanto Freire fala do empowerment de classe social, como por exemplo, o da classe trabalhadora, podemos transpor a questão para o empoderamento da categoria “mulher”, pois esta é a causa aqui em questão. Isto é, não se trata apenas do empoderamento individual, de cada mulher, mas sim, de toda a categoria. O empoderamento desta categoria já iniciado desde a primeira onda do movimento feminista, é um processo contínuo, que exige ações contínuas. O processo de criação teatral, bem como processos educativos, são formas de ação, onde mulheres podem compartilhar suas experiências, saberes e transformações com outras mulheres, incentivando a conscientização de suas condições de vida e o empoderamento de cada uma e de todas, levando à almejada transformação social, que vem acontecendo aos poucos.

O método de educação dialógica explicado por Freire (1986) aproxima-se dos grupos de consciência defendido por Carol Hanish (1969), já citada na introdução do presente trabalho, nos quais se buscava a transformação do pessoal em político. Isso por que, a partir do que ambos os autores escrevem, podemos compreender que ao falar sobre suas próprias experiências, podemos relacioná-las com uma realidade mais abrangente, que transcende a experiência individual, levando ao pensamento crítico ao tentar compreender a própria experiência.

Ao compartilhar experiências com as integrantes do grupo (Em) Companhia de Mulheres tive contato com preocupações que escapavam ao meu universo enquanto uma mulher heterossexual. Enquanto eu preocupava-me com questões como a violência contra a mulher e o aborto, o contato com mulheres homossexuais mostrou-me outros problemas que enfrentam, ajudando a ampliar minha visão sobre o feminismo e a aguçar a minha consciência crítica, acerca das causas feministas. Isto me faz ver que a causa do outro, de uma forma ou de outra, também é minha. Ou seja, problemas todas nós enfrentamos, ainda que diferentes, então porque não nos unirmos enquanto uma categoria e nos ajudarmos a resolver estes problemas?

O artigo Problematizando o conceito de empoderamento, de Rodrigo R. Horochovski e Giselle Meirelles (2007) é um aporte teórico bastante esclarecedor, demostrando a complexidade do conceito de empoderamento e ampliando a noção apresentada por Shor e Freire (1986). O artigo apresenta noções do termo utilizado para

62 propósitos políticos diferentes, além de elucidar os níveis (individual, organizacional e comunitário), motivações (empoderamento reativo e empoderamento proativo), recursos (poderes identitários, econômicos, sociais e políticos), modalidades (empoderamento formal, instrumental e substantivo) e barreiras do empoderamento. Aprendemos com Horochovski e Meirelles (2007, p. 496), que os processos de empoderamento, como no caso do laboratório (Em) Companhia de Mulheres, não garantem o empoderamento, pois é necessário um próximo passo que é “introduzir mecanismos de avaliação,” tanto no nível individual quanto coletivo.

O modo colaborativo pelo qual o grupo (Em) Companhia de Mulheres optou trabalhar, de acordo com o que Horochovski e Meirelles (2007, p. 486) explicam, podemos chamar de uma ação estratégica para promover a emancipação. Isto significa que a nossa emancipação enquanto artistas-criadoras desemboca na emancipação da categoria mulher, pois buscamos desenvolver um trabalho próprio, procurando dar voz às questões concernentes a realidade que vivemos e visibilidade ao que criamos.

Numa perspectiva emancipatória, empoderar é o processo pelo qual indivíduos, organizações e comunidades angariam recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência e capacidade de ação e decisão. Nesse sentido, equivale aos sujeitos terem poder de agenda nos temas que afetam suas vidas. Como o acesso a esses recursos normalmente não é automático, ações estratégicas mais ou menos coordenadas são necessárias para sua obtenção. Ademais, como os sujeitos que se quer ver empoderados muitas vezes estão em desvantagem e dificilmente obtiveram os referidos recursos espontaneamente, intervenções externas de indivíduos e organizações são necessárias, consubstanciadas em projetos de combate à exclusão, promoção de direitos e desenvolvimento, sobretudo em âmbito local e regional, mas com vistas à transformação das relações de poder de alcance nacional e global. Trata-se, portanto, da promoção de direitos de cidadania que propiciem, principalmente aos estratos de menor status socioeconômico a ampliação do que Sen (2000)81 denomina liberdades substantivas. (HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007, p. 486).

O processo do grupo desenvolveu a capacidade de ação e decisão, não apenas para nós enquanto indivíduos, mas também enquanto grupo. Como explicam Horochovski e Meirelles (2007) o processo de empoderamento precisa de ações estratégicas coordenadas em maior ou menor grau, uma vez que os indivíduos ou grupos que precisam passar por esse processo normalmente encontram-se em desvantagem. Isto significa, no caso de nosso grupo, que foi fundamental a intervenção e a coordenação de Miranda, para que posteriormente pudéssemos desenvolver nossas próprias ações e tomar decisões sozinhas, sem a necessidade de um líder. Como ouvi

63 certa vez o ex-presidente Lula dizer, o negócio não é dar o peixe, mas ensinar a pessoa a pescar, um ditado que dialoga com a pedagogia de Freire.

Os procedimentos do grupo demonstram uma forma de trabalhar que busca a democracia, a divisão de tarefas, estimula a capacidade de decisão, encoraja a colocação individual de ideias, proporcionando um crescimento para nossas vidas pessoais e profissionais. Trata-se de um processo muitas vezes problemático, pois requer momentos de negociações, acordos, debates. Mas são estes percalços encontrados no caminho, estes embates, desejos opostos, que nos tornam sujeitos mais empoderados, ao aprender a negociar as decisões em grupo, de forma horizontal, sem que essa decisão venha de cima para baixo como acontece em grupos organizados hierarquicamente.

Deste modo, o trabalho do grupo mostrou-me um caminho possível a ser continuado em outros contextos, com outros grupos teatrais e também em processos educativos, afinal, se segundo Freire, o empowerment é um processo político, precisamos “passar para frente” o que aprendemos neste laboratório. Não como uma fórmula a ser seguida, mas como um processo em que indivíduos desenvolvem e descobrem conjuntamente as ferramentas e métodos apropriados para seu trabalho.