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Até o século XVI, para ser mulher, viajar e continuar sendo respeitável era preciso ser em geral ou uma rainha ou uma peregrina. 12

(Robinson, 1990 apud Richter, 1994: 392)

Diversas autoras concedem a Thomas Cook, quem introduziu no século XIX os “pacotes turísticos” para ingleses com destino ao sul da Europa, o pioneirismo em viagens femininas através das “escorted tours” (Enloe, 2001; Richter, 1994). Sob a preponderância da noção de que a mulher precisava estar acompanhada de seu marido para que este a protegesse de “perigos” oferecidos por outros homens, mesmo com uma organização prévia assessorada das viagens, que fornecia segurança e maior conforto às viajantes, essas mulheres ainda eram mal vistas.

12 Aqui e doravante, todas as citações de obras que constam em inglês na bibliografia (livros, reportagens em

A historiadora June Hahner (1998), em um estudo sobre os relatos de viajantes femininas à América do Sul no século XIX, narra que mesmo com as facilidades que a indústria do turismo passou a proporcionar, as escritoras femininas ainda eram minoria se comparadas aos homens viajantes que publicavam seus relatos, bem como era menor a ressonância de seus escritos. A “Victorian Lady Traveler”, considerada excêntrica e até um pouco estereotípica, compunha a minoria destas viajantes do século XIX, uma vez que havia a dificuldade de se desvencilhar de obrigações domésticas e familiares e de arrecadar dinheiro para empreender as viagens.

Os escritos de mulheres viajantes (women’s travel accounts), apesar de pouco valorizados na época, foram mais tarde reconhecidos como importantes registros histórico- sociais em função de diferenças que guardam em relação aos relatos masculinos (Richter, 1994). Se por um lado os homens viajantes davam mais atenção e tinham mais acesso a assuntos políticos, econômicos e diplomáticos, as mulheres puderam conhecer e transmitir suas percepções culturais referentes também à esfera privada. Os estudos sobre tais relatos nos dois últimos séculos trazem à tona reflexões a respeito de como as barreiras do domínio privado, associado à feminilidade, foram rompidas (Richter, 1994; Moreira Leite, 1980).

Embora seja pertinente destacarmos em que medida os relatos de viagem escritos por mulheres se diferenciam daqueles escritos por homens, é mais importante ainda levarmos em conta, no âmbito de uma crítica feminista mais ampla influenciada pelos questionamentos à noção de diferença levantados pela lingüística (Butler, 1990), quão problemáticas são assunções generalistas sobre o que é “ser”, ou “escrever como” uma mulher. Um aspecto importante dos relatos de viajantes femininas no século XIX é que conduzem a discussão para além de uma perspectiva exclusivamente concernente a gênero, possibilitando levar em conta a imbricação entre esta e outras categorias de diferenciação, tais como cor e sexualidade, que não podem ser tratadas como “variáveis independentes” (Brah, 2006).

Se inicialmente as antologias de viagens femininas deram atenção aos relatos de viajantes femininas excêntricas e aventurosas, isto é, marcados pelo questionamento convenções, isso não foi se não através da omissão de relatos que expressassem

feminilidades mais ortodoxas ou mesmo reiterassem ideologias racistas ou colonialistas. Ademais, para além de demonstrar como gênero opera enquanto um marcador de diferenças, estes relatos lançam luz à diversidade de experiências de viagem e leituras sociais, conforme argumentam Foster e Mills (2002):

Gênero interage com outras variáveis, como raça, idade, classe e posição financeira, educação, ideais políticos e período histórico, e são estas diferenças causadas por interações entre estas variáveis que fazem gênero diferir de contexto a contexto. (Foster & Mills, 2002: 01)

Em História da Sexualidade (1977), Foucault argumenta contra uma ‘hipótese repressiva’ relacionada ao sexo, mostrando como até o século XVIII os códigos de decência eram mais flexíveis, já que a sexualidade ainda não havia mudado para dentro de casa – mais especificamente, para o quarto dos pais, como quis a ideologia burguesa Vitoriana do século XIX. É neste ponto que em Race and the Politics of Desire (1995), Ann Stoler elabora reflexões em torno de um questionamento inicial sobre a ressonância limitada que a

História da Sexualidade de Foucault teve em teorizações que contemplam as formações

‘raciais’, sendo que ela marca o racismo como um de seus principais produtos. O argumento central é elaborado em torno da proposta de rever as ‘tecnologias do sexo’ no âmbito imperial, pensando como as verdades sobre o sexo burguesas ocidentais modernas podem ter sido balizadas por verdades produzidas através de uma terminologia racial.

As reivindicações de Foucault em torno da construção discursiva dos regimes de poder têm chamado a atenção para uma análise e aprofundamento tanto da produção de discursos coloniais, quanto dos seus efeitos. É importante considerar, à luz das proposições de Stoler, os paralelos efetivamente existentes entre a organização da sexualidade e o imperialismo. Havia outro projeto Vitoriano no século XIX que ultrapassava o objetivo de dominar colônias: o de colonizar corpos e mentes. Foucault apresenta quatro dispositivos específicos de saber e poder a respeito do sexo – a histeria das mulheres, o onanismo das

crianças, o fetichismo e o coito interrompido – mas atenta para o fato de ter sido a mulher o primeiro alvo dos dispositivos da sexualidade:

A personagem investida em primeiro lugar pelo dispositivo da sexualidade, uma das primeiras a ser ‘sexualizada’ foi, não devemos esquecer, a mulher ‘ociosa’, nos limites do ‘mundo’ – onde sempre deveria figurar como valor – e da família, onde lhe atribuíam novo rol de obrigações conjugais e parentais: assim apareceu a mulher ‘nervosa’, sofrendo de ‘vapores’; foi aí que a histerização da mulher encontrou seu ponto de fixação. (Foucault, 1977: 114)

Ao transpor tais considerações de Foucault às condições influentes nas experiências de viajantes femininas, podemos encontrar em um trecho introdutório ao livro

Discourses of Difference (1991), da autora Sara Mills, uma ponderação sobre os tipos de

convenções ao quais estas mulheres estavam submetidas e as dificuldades e preconceitos com as quais elas tiveram que lidar que indicam que a feminilidade, no âmbito da construção discursiva de saberes e verdades sobre a sexualidade (Foucault, 1977), é associada compulsoriamente à esfera doméstica. Muitas das mulheres viajantes resistiram às convenções do período Vitoriano quando contrariaram o ideal de representarem figuras do lar, da pureza e serem banidas da ambição de desempenharem papéis “ativos”.

A autora aponta para algo que converge tanto com os pontos da obra de Foucault expostos até aqui, quanto com o aprofundamento da discussão sobre colonialismo e raça ao qual se propõe Ann Stoler. Segundo Mills (1991), as convenções que deveriam ser obedecidas pelas mulheres do século XIX estavam plenamente ligadas a construções imperialistas, que, na realidade, enfocavam muito mais a constituição de uma identidade nacional masculina do que de uma identidade centrada em uma nacionalidade independente de gênero. Os escritos de mulheres viajantes, conforme a interpretação de Sara Mills, estiveram constrangidos por tais convenções e, como resultado disto, eram julgados negativamente e desqualificados. Conforme Sara Mills:

Em função de sua socialização opressiva e de sua posição marginal em relação ao imperialismo, apesar de sua posição de classe em geral privilegiada, escritoras femininas tendiam a concentrar suas descrições em pessoas enquanto indivíduos, no lugar de acepções sobre raça como um todo. É nesta luta com os discursos imperialistas e sobre a feminilidade, nenhum dos quais elas puderam adotar plenamente, e que as empurraram para direções textuais divergentes, que os seus escritos expõem as fundações instáveis nas quais se baseavam. (Mills, 1991: 03)

Porém, tal acepção de que estas mulheres subverteram um discurso imperialista que definia o self burguês em oposição a corpos ‘racializados’ não é unânime. A interpretação de Miriam Moreira Leite (1980, 1997) dos relatos de viajantes femininas no século XIX no Brasil contrapõe à visão de Sara Mills e aponta para como nem sempre estas viajantes atuavam subversivamente contra as convenções da época que as condicionavam.

Este tipo de questionamento ganha atenção perante a temática do turismo internacional no Brasil e na atualidade, pois articula tais conceitualizações em torno de construções particulares de ‘brasilidade’ e exotismo com raízes no período colonial, as quais são em parte atualizadas pelos turistas internacionais que chegam ao Brasil e pela própria população brasileira.

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