Nas eleições de 1933, a representação profissional facultava a eleição de deputados classistas, escolhidos pelos sindicatos, órgãos e entidades profissionais, em diferentes regiões, para integrar a Constituinte. Esses representantes possuiriam direito de voto e o poder de tomar decisões junto ao Legislativo, da mesma forma que os políticos tradicionais. No ano de 1932, houve um significativo avanço no sistema eleitoral brasileiro, se implantou o voto secreto e o voto feminino (SANTOS, 2003). Porém, outros ainda se encontravam excluídos desse processo como, por exemplo, os analfabetos (que durante o império podiam votar).
Os escritos publicados na A Alvorada e no O Exemplo evidenciam uma leitura da situação na qual os populares, visando uma transformação nacional de cunho político e social que lhes garantissem melhores condições de vida e ampliassem os seus direitos, teriam passado a manifestar sua descrença nos políticos e na política brasileira, por conta dos resquícios do clientelismo, isto é, dos apadrinhamentos que beneficiavam e privilegiavam alguns grupos. Manifestou Rodolpho Xavier: “organização e representação
de classes, eis a encenação que prometem levar ao tablado da política brasileira63” (A Alvorada, 17/07/1932, p.01).
Nesse sentido, a representação classista seria uma estratégia para se atingir uma representação popular. Segundo Barreto, havia entre as organizações diretamente vinculadas ao poder, mais do que um desejo de promover “uma moralização do sistema político”, havia uma perspectiva de “alterar a composição institucional do Estado” (2002, p.09). No entanto, afirma o autor: “não pretendia ser um movimento de massas e sim, uma organização fechada e elitista, marcadamente nacional” (2002, p.11). A representação classista se manteve até a implantação do Estado Novo, pelo governo Vargas.
A partir de 1931, A Alvorada acompanhou os acontecimentos gerados em torno desse fato demonstrando a sua inserção política nos interesses dos trabalhadores de Pelotas. Justificou Rodolpho: “o assunto é vasto e complexo” (A Alvorada, 24/07/1932, p.01). No início, os artigos enalteciam os sindicatos e o seu papel, em parte, pela expectativa na relação sindical junto aos governos.
Assinado por Rui Topin, um artigo tratou da relação entre os sindicatos e as classes. “Proletário pelotense une-te”, dizia o título (A Alvorada, 11/06/1933, p.02). Essa era uma provável alusão ao Manifesto Comunista, de Marx e Engels. A apropriação desta e de outras obras de Marx apareceu ao longo de várias edições da A Alvorada. O uso da frase provavelmente teve o intuito de conscientizar os operários a unirem-se contra sua exploração. O artigo tratava das lutas internas travadas nos sindicatos.
Realmente, por grande que seja a confusão ideológica existente no meio proletário, recém-despertado da letargia em que estava, por muito que lhe prejudique o desconhecimento do rumo a seguir para sua libertação, - ainda assim não há justificativa para desculpar esse erro de consentir que seja
quebrada a união de classe, em uma luta estéril, injusta, que somente serve
aos interesses da burguesia e enfraquece o proletariado! (A Alvorada, 11/06/1933, p.02, grifo meu).
A respeito das divergências nos sindicatos, o autor disse: “Temos assistido a lutas travadas entre proletários. Isto é um crime!” (A Alvorada, 11/06/1933, p.02). E, nesse mesmo texto foi ordenado aos operários: “Voltem aos sindicatos os camaradas
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excluídos num momento de irreflexão” (A Alvorada, 11/06/1933, p.02). Nesse momento, o jornal serviu como um meio de acalmar os ânimos, publicando: “Harmonizem-se! Saiba cada um ceder um pouco no interesse da grande causa!” (A Alvorada, 11/06/1933, p.02). As rivalidades e conflitos nesses espaços foram despertados pela possibilidade de que qualquer um dentro dele poderia ser indicado como delegado (primeira etapa para a eleição de deputado classista). Na visão de Rodolpho Xavier, alguns sujeitos se aproveitavam dessa oportunidade para ingressar no sistema político. E, quando conseguiam, deixavam de representar os interesses da classe em prol de seus interesses, trocando a causa operária para se corromper ao sistema. Esse tipo de prática Rodolpho chamava de “politicagem”.
As ambições são em maior ou menor parcela, atributos da espécie humana, com tudo, sobressaem, nas representações políticas pelo egoísmo na elevação de mando... Os atos governamentais têm sido adquiridos pelos reflexos da pressão das classes trabalhadoras do mundo inteiro, e jamais pela representação de politiqueiros quaisquer que sejam os rótulos empregados.64 (A Alvorada, 09/04/1933, p.02).
No artigo Representação de classe (A Alvorada, 10/09/1933) o jornal dialogou com outros veículos de comunicação que expressaram suas opiniões a respeito dessa política, entre eles, o Diário de Notícias e o Correio da Manhã, ambos de circulação na cidade de Rio Grande. A crítica denunciava o fato de que patrões (médicos, bacharéis...) formaram sindicatos para ocupar um espaço na política e defender seus interesses contra o trabalhador, assim poderiam se eleger deputados classistas. Seus interesses eram em defesa do capital e deles mesmos.
Carlos da Silva Santos65 (1904-1989) era negro, oriundo da cidade de Rio Grande. Ele foi metalúrgico de profissão, posteriormente, formou-se em direito e exerceu carreira política. Entre as organizações operárias por ele fundadas estavam: o Sindicato dos Operários Metalúrgicos de Rio Grande e a Liga Operária Riograndina. Já entre os espaços étnicos fundou, ainda na mesma cidade, o Centro Cultural Marcílio Dias (1936). No ano de 1934 ele foi o delegado dos metalúrgicos no processo de eleição classista. Tendo sido eleito deputado estadual (por meio das eleições classistas) em 1935,
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Este texto possui o título A politicagem e os sindicatos.
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exercendo seu mandato até 1937. Ele se tornou o primeiro operário negro a ser eleito Deputado Estadual. Posteriormente, se manteve na política, tendo sido na década de 1960, pelo PTB, o primeiro negro empossado no cargo de governador do Estado. Durante sua carreira política, se dedicou a questões operárias e raciais.
Carlos Santos e A Alvorada trocaram correspondências em alguns momentos. Em 1932, A Alvorada publicou um artigo de autoria dele, intitulado “negros, sociedade e família” (05/05/1932). Quando os membros do jornal fundaram a Frente Negra Pelotense, Carlos Santos queria saber mais sobre a atuação da organização e foi logo se declarando irmão de sangue. Carlos Santos foi convidado a ser delegado da organização, mas recusou a oferta alegando que não tinha tempo para tal.
A Frente Negra Pelotense teve um importante papel no Estado. Sua atuação não se limitava a cidade de Pelotas e, é fazendo alguns apontamentos em relação a essa organização que esse capítulo se encerra.