Antes de prosseguir com a discussão teórica de caráter mais sociológico, faz-se uma breve retrospectiva sobre a questão agrária no Brasil, procurando-se delinear o contexto onde a presente pesquisa busca dar sua contribuição.
Contudo, no desenvolvimento do texto, ainda nesta seção, são levantados importantes elementos teóricos relacionados com a Extensão Rural.
O final do século XIX e o início do século XX é um período que é chamado de Belle
Époque6,neste momento histórico aconteceu o avanço da ciência, da técnica e a efervescência da indústria, além da paz social. A sociedade burguesa desfrutava os avanços da ciência destacando a luz elétrica, telefones e geladeira os quais eram, até então, restritos às minorias. Essa revolução gerou a expectativa que tais privilégios um dia todos os homens poderiam desfrutar. A Europa vivenciava o dinamismo do centro urbano com o
6 Segundo Kvjawski (1988, p.07, grifo nosso) “A Belle Époque – não se sabe ao certo quem inventou esta expressão marcada por um laivo de ironia socarrona – foi, ao menos na aparência, um tempo dourado bafejado pela aragem da riqueza e da doçura de viver.”
automóvel, o metrô, o telefone, o cinematógrafo, o aeroplano:era o progresso próximo de todos Kvjawski (1988) e Needell (1993).
Nesse contexto, o Brasil era um país agrário. Entretanto, não se tinha investimentos na área rural brasileira. Só na década de 40, mais exatamente no pós-guerra, surgiu a Extensão Rural na América Latina através da indução de alguns programas dos EUA para o Brasil como o de produção de alimentos e o programa da borracha, (este último, na Amazônia). Assim, os EUA expandiram a sua produtividade em máquinas, motores, eletromecânicas, química, bioquímica e engenharia agrícola o que provocou, no Brasil, um incremento rural motivado pelo consumo da tecnologia americana. A idéia de
modernização (modernização conservadora) perpassa na Extensão Rural
Brasileira.(PADILHA, 1981).
A história da Extensão Rural no Brasil mostra como foi implantado um modelo conservador que não privilegiava os pequenos produtores, existindo uma política que implementava na agricultura ações voltadas apenas para uma modernização no campo sem preocupações sociais e ambientais. Esse processo de industrialização na Extensão Rural provocou uma agricultura subordinada e voltada apenas à agroindústria, elevando os grandes agricultores e negligenciando os pequenos produtores. Essas ações tiveram reflexos econômicos, sócias e ambientais, gerando um esgotamento desse modelo.
Pensadores apresentaram críticas sobre as ações públicas na extensão rural, como o ilustre Paulo Freire (1988) em seu livro “Extensão ou Comunicação?”, onde o autor faz serias observações sobre a extensão rural no livro que é considerado um divisor de águas, pois na época era utilizado o método difusionista onde o extensionista impunha suas idéias ao agricultor, e este por sua vez teria que absorver sem questionamento “o como fazer” o objetivo fundamental do extensionista seria segundo Freire (op.cit.):
“[...] no trabalho de extensão é tentar fazer com que aqueles substituam seus ‘conhecimentos’, associados a sua ação sobre a realidade, por outros. E estes são os conhecimentos do extensionista.” (FREIRE, 1979, p.24).
E Freire (op.cit.) mostra como estava sendo a realidade do extensionista e do agricultor com métodos impostos sem respeitar a realidade do agricultor.
O conhecimento, pelo contrário, exige uma presença curiosa do sujeito em
face do mundo. Demanda uma busca constante. Implica em invenção e em reinvenção. ( e não Invenções e inovação) reclama a reflexão crítica de cada um sobre o ato mesmo de conhecer, pelo qual se reconhece conhecendo e, ao
reconhecer-se assim, percebe o “como” de seu conhecer e os condicionamentos a que está submetido seu ato. Conhecer é uma tarefa do sujeito , não de
objetos. (FREIRE, 1979, p.27,grifo nosso).
“Para isto, é necessário que, na situação educativa, educador e educando assumam o papel de sujeitos cognoscentes, mediatizados pelo objeto
cognoscível que buscam conhecer.” (FREIRE, 1979, p.28, grifo nosso). O modelo difusionista apresentado por Gustavo Quesada (1980) em “Comunicação e
Comunidade: Mitos da Mudança Social”, é mostrado claramente em seu capítulo: “Difusão
de Inovações”. Como diz o autor, “difusão nada mais é do que um público adotando algo,
através do tempo, numa certa cultura” (QUESADA,1980, p.35). Esta proposta não tem a
preocupação com o agricultor, e muito menos com o seu pensar; assim, o que se observa é que os agricultores são tratados como seres não pensantes, e o modelo difusionista esquece crenças, culturas, etc. dos agricultores, e isso é tão forte que a comunicação é tratada através de filtros seletivos ditos filtros psicológicos (exposição seletiva, atenção seletiva e
retenção seletiva). Decerto, a idéia era mostrar que as mensagens sobre inovações
“penetrariam” nos membros da audiência diferentemente em relação ao tempo. Neste contexto, é importante ressaltar o que é dito, por Quesada (op.cit.):
[...] necessidade de não só usar canais complementares nas campanhas de Extensão ou expansão como, também, ter de reciclar constantemente as nossas estratégias para poder “enredar” os que foram ficando para trás na difusão da comunicação encetada por nós. (QUESADA,1980, p.39).
Segundo Callou (1994):
O modelo de comunicação adotado inicialmente no Brasil pelas agências de extensão é o ‘modelo clássico’ do extensionismo americano que se caracteriza, pela transmissão de mensagens das ‘estações experimentais’ para a população rural, e vice-versa, através dos ‘agentes de extensão’. (CALLOU,1994).
Caporal e Costa Beber (1994) chamam atenção para o imobilismo conservador, onde não podemos nos deixar levar, pois este continua aprisionado às organizações públicas de Extensão Rural. O esgotamento do modelo de desenvolvimento rural, baseado na modernização, provocou as diferenciações sociais presentes no meio rural, fato este que
mostra o surgimento e crescimento de entidades privadas de assistência técnica e a presença das ONGs, com isso é preciso rever a Extensão Rural pública.
Convergente com esse pensamento outro autor também apresenta críticas sobre as ações publicas na extensão rural, como Juan Diaz Bordernave (1993), onde focaliza as contradições entre o discurso – em que comunicação rural tem sua importância reconhecida por políticos e técnicos – e a prática – com poucas instituições, nos países em desenvolvimento, que garantam suas funções e os meios necessários à sua atuação. Aborda ainda dois aspectos: a conceitualização de comunicação rural como conjunto de fluxos6 e sua valorização como fator decisivo do desenvolvimento rural. Finaliza apontando para a concentração excessiva de transferência de tecnologia aos agricultores e para a necessidade de conscientizar dirigentes e povo em geral da urgência na adoção de políticas de reativação da agricultura e de valorização integral do espaço rural.
A partir da constatação que se tem com os erros do passado, como modernização conservadora que provocou a crise de identidade, essas tecnologias se mostraram insuficientes como práticas de Extensão Rural, deve-se, portanto revolucionar as bases teóricas, redimensionando seu papel assim com um novo referencial metodológico e então abrir caminho para uma Nova Extensão Rural socialmente mais útil. Esse argumento é sustentado por Lima (2000) e reforçado por Borin (BORIN apud LIMA, 2000), conforme transcrição abaixo:
O que houve foi com o processo de industrialização em sociedades de bases
agrárias, transformações estas acompanhadas por uma atenção maior ao que se refere ao desenvolvimento. E o quadro atual da agricultura brasileira, pode afirmar que o setor agrícola tem sido drasticamente penalizado pela política monetária. Com a chamada globalização da economia mundial as conseqüências são ditadas por tudo isso. Por falta de uma política agrícola adequada, sem acesso ao crédito ou à assistência conveniente ao seu tipo de atividade, pelo menos metade dessas propriedade se encontram em estado lastimável. (BORIN apud LIMA, 2000, p.02, grifo
nosso).
6O autor explica o conceito de Comunicação rural é o conjunto de fluxos de informação, de diálogo e de influência recíproca existente entre os componentes do setor rural e entre eles e os demais setores da nação afetados pelo funcionamento da agricultura, ou interessados no melhoramento da vida rural.
Constata-se, dessa forma, uma inadequação dos modelos à realidade brasileira, o que provocou um desrespeito às normas sociais. Espera-se que as críticas dos autores citados possam contribuir para a Extensão Rural, renovando as suas bases teóricas e práticas.
Relativamente aos pequenos produtores do Nordeste, deve-se considerar um contexto ainda mais restrito em termos de desenvolvimento econômico e de requerimentos ainda mais fortes no tocante à Extensão Rural. As desigualdades nos padrões de vida entre as regiões brasileiras ainda são muito grandes, sendo ainda muito precário o nível de vida de muitos pequenos produtores, rurais e urbanos, particularmente dentro do Nordeste: baixo nível de renda, pouca escolaridade, assistência médica precária, etc. Tais restrições constituem fortes limitações ao exercício da própria cidadania desses atores sociais e podem ser eliminadas, ou ao menos reduzidas, a partir do estabelecimento de um processo de desenvolvimento local, este entendido como constituindo uma forma adequada para o enfrentamento das dificuldades econômicas e sociais de grande parcela da população do Nordeste.