Aos primeiros 20 turistas participantes desta pesquisa, perguntamos sobre o seu grau de satisfação com a visita ao destino Bahia e a maioria (60%) se disse muito satisfeita; 30%, moderadamente satisfeitos; e, 5%, moderadamente insatisfeitos. Observamos que um dos que disseram ter ficado moderadamente insatisfeitos, agenciado pela Lilás Turismo, argumentou que não quiseram levá-lo às feiras onde a população local compra, por preços mais baratos que os cobrados para turistas em algum outro lugar.
Aos turistas entrevistados posteriormente (10) modificamos essa questão perguntando- lhes se haviam, ou não, encontrado no destino o que tinham vindo nele buscar e todos foram unânimes em afirmar que sim (100%).
Destes, quatro optaram por não justificar. Os demais justificaram dizendo ter encontrado nesse destino “muito mais do que imaginavam poder encontrar” (20%); que “ainda têm muito para aprender aqui” (10%); que “é um lugar muito amigável” (10%) e, por fim, o último respondeu que “encontrou aqui no Brasil aquela parte da diáspora africana que ele buscava” (10%).
Isso nos leva a crer que, embora sejamos diferentes dos países africanos e de outros países da sua diáspora, de modo geral, o turista afro-americano dos EUA que está buscando uma re-conexão com as suas raízes africanas em sua experiência no destino Bahia tem encontrado elementos que lhe permitem identificar aspectos significativos de um passado ancestral comum, na cultura e nas pessoas locais.
Não podemos deixar de registrar aqui, que, durante as entrevistas, observamos o quanto os afro-americanos são cautelosos quando se pronunciam a respeito do Brasil e da Bahia. Alguns repetiam: “vocês são muito diferentes”; “melhor não falar”; “o que penso são coisas minhas”; “eu ainda não conheço como as coisas acontecem aqui realmente”.
No entanto, mesmo satisfeitos com a visita ao destino ou tendo encontrado aqui o que vieram buscar, alguns apontaram aspectos que muito lhes desagradaram na Bahia, sejam estes relacionados ao racismo e às desigualdades sociais – entre negros e brancos, ricos e pobres, educados e sem educação –, sem o envolvimento do governo local (19,6%); ao agenciamento local (6,8%); ao espaço e ao clima: ladeiras e chuva (6,8%); ou ainda à falta de hospitalidade das pessoas do destino (6,8%).
Dos entrevistados, vinte fizeram sugestões para melhor qualificar a oferta deste segmento turístico para o mercado Afro-Americano dos EUA, que foram aqui agrupadas por ordem de importância:
a) Relacionadas aos locais e / ou atrativos visitados: (100%)
- Fortalecer a cultura afro existente e dar oportunidade para a manifestação da diversidade de produções culturais do povo negro (40%);
- Aumentar o número de trabalhadores que falam inglês para facilitar a comunicação (30%). - Divulgar mais material escrito sobre o que pensam as pessoas, mostrando mais suas visões do que as opções turísticas (15%);
- Melhorar a limpeza do Pelourinho, mantendo o senso forte da história em um ambiente sanitário saudável; melhorar a segurança em Salvador / Pelourinho; melhorar a qualificação dos vendedores e prestadores de serviços no local (cada uma correspondendo a 10% dos turistas);
- Fornecer mapas, guias e informativos sobre os atrativos, em inglês. (cada uma correspondendo a 10% dos turistas).
b) Relacionadas à situação de desigualdades socioeconômicas e à exclusão da população negra local (30%)
- Ajudar na educação das pessoas negras para que elas possam crescer economicamente; incentivar / apoiar negócios e estabelecimentos que sejam de pessoas negras, ou gerenciados por elas; e aperfeiçoar a identidade cultural: “seria importante vermos mais negros em suas mídias e propagandas” (cada uma correspondendo a 5% dos turistas).
c) Relacionadas ao fortalecimento do intercâmbio entre os afrodescendentes dos EUA e da Bahia (20%)
- A Bahia precisa se conectar, em rede, com organizações Afro-Americanas: igrejas, fraternidades e outras associações profissionais; criar um programa de intercâmbio entre Afro- Brasileiros e estudantes das faculdades negras dos EUA; favorecer o cruzamento de experiências de raiz, com exposições culturais (cada uma correspondendo a por 10% dos turistas).
d) Relacionadas aos serviços prestados pelas agências e guias locais (20%)
- Colocar mais guias de excursão que sejam negros, que falem o inglês, que tenham mais habilidades de organização e façam melhor aproveitamento do tempo; Os americanos negros querem estar com pessoas negras ao seu redor e não apenas visitar lugares para turistas brancos verem. (cada uma delas sugerida por 10% dos turistas).
e) Relacionadas à venda de produtos e serviços locais (25%)
- Gostaríamos de ter mais informações sobre a cozinha local, o que também é cultura (10%); de ter livros de fotografias em Inglês; que fossem incluídas em todas as excursões materiais informativos sobre as pedras (preciosas), determinando o seu valor; que os preços fossem mais baixos, que estão muito abusivos (cada uma correspondendo a 5% dos turistas).
f) Relacionadas à promoção / divulgação do destino nos EUA (15%)
- Promover exibições de arte e cultura-afro da Bahia, nos EUA, particularmente durante o mês de fevereiro (10%); intensificar a propaganda da Bahia, feita por negros, lá nos EUA (5%);
g) Relacionadas aos próprios turistas afro-americanos (5%)
- Grande parte dos turistas que vêm aqui deveria se informar melhor sobre a Bahia antes de vir para cá.
Como é no destino que os turistas se confrontam com a realidade local, esta tem dado visibilidade às desigualdades sociais e ao racismo a que está submetida a maior parte da
população negro-mestiça baiana, excluída também do gerenciamento de empresas e espaços por onde circulam os afro-americanos dos EUA e, até mesmo, das ações de promoção do destino nos EUA, como apontado por eles.
As sugestões anteriormente mencionadas refletem essas observações e apontam, também, a preocupação da maioria dos entrevistados com o fortalecimento e a valorização das expressões culturais de raízes africanas e dessa população que dá vida e dinamismo a estas expressões, no seu dia a dia, tentando também preservar suas tradições.
Esse fato é de extrema relevância, não só para os turistas, mas principalmente para a maior parte da população negra e pobre do estado que, a despeito dos avanços que vêm ocorrendo no País pelo fim do racismo e a favor de ações afirmativas reivindicadas pela sociedade civil e movimentos sociais, ainda não recebeu a devida importância no que se refere às políticas públicas, como revelam os índices oficiais publicados nos últimos anos no País (Síntese dos Indicadores Sociais de 2007 e PNAD de 2006 – IBGE), o que também se reflete na atividade turística, embora o discurso da nova gestão governamental na Bahia esteja anunciando mudanças mais democráticas para o estado e, particularmente, para a atividade turística.
Percebemos, também, a importância que a maioria dos turistas partícipes desse estudo está dando ao intercâmbio entre afro-americanos e afro-baianos, seja por intermédio de programas educativos ou de organizações profissionais, o que pode, de fato, não apenas enriquecer a troca de conhecimentos e informações entre esses afrodescendentes de diferentes culturas, mas colaborar, também, para a divulgação do destino e a atração de outros turistas que poderão optar por conhecer a Bahia e os territórios em estudo.
Os dados aqui apresentados mostram que a “Bahia” tem tido um papel importante na rota do “turismo de herança africana”, atraindo um número cada vez maior de afro- americanos que não apenas vêm viver a sua experiência turística, como retornam ao estado e, ainda, o divulgam para amigos, familiares, etc.
Certamente que estes turistas não representam um grupo homogêneo de pessoas, ainda que façam parte de um mesmo grupo organizado para a viagem aos territórios investigados. Porém, permanecem no destino “Bahia” por mais tempo que outros turistas internacionais, o que pode demonstrar o interesse em conhecer mais profundamente os elementos culturais afro-brasileiros que foram e continuam sendo re-significados nesse destino.
Como parte desse destino, os territórios do Pelourinho / Salvador e da festa da Boa Morte / Cachoeira têm um papel importante na construção da imagem desta “Bahia Negra”
para estes turistas afro-americanos, embora a festa da Boa Morte seja considerada um ícone darepresentação da herança africana, para a sua maioria.
Vimos que a fama da Irmandade está espalhada pelas agências de turismo e os afro- americanos organizam grupos de turismo para virem à festa. Para muitos turistas afro- americanos, a Irmandade é um “símbolo de resistência” numa terra onde são evidentes as contradições entre raça e democracia. E, ao mesmo tempo, muitos dos que vão à festa parecem, de fato, experimentar essa conexão com uma África simbólica.
Por outro lado, muitos turistas e também os afro-americanos desconhecem a sua importância histórica e o que esta confraria representa para uma parte dos que estão presentes às celebrações e não entendem que estas mulheres católicas são, também, do candomblé, muitas delas sendo líderes (mães de santo), e não sabem que as componentes da Irmandade trabalham, até hoje, para o bem da comunidade, umas apoiando as outras. Nesse sentido, vemos a Irmandade como um símbolo importante para alguns destes turistas - infelizmente, um símbolo exótico – nesse jogo e, certamente, para muitos outros e também para os que estão promovendo o turismo, o exótico está lá.
Sabemos que nem todo turista tem a obrigação de se aprofundar sobre o destino que vai visitar, mas acreditamos que os diversos agentes sociais envolvidos com a oferta desse turismo podem e devem provê-los de informações sobre as expressões culturais existentes nas localidades de destino. Isso pode valorizar a oferta e as culturas e permitir, ainda, que o turista tenha uma experiência mais enriquecedora nestes territórios.
Percebemos que, embora seja o próprio turista quem escolhe o seu destino de viagem, entra também nesse jogo o estímulo ao consumo cultural – da “herança” – por grande parte das operadoras (que selecionam esse ou aquele local / atrativo a ser visitado), o que não significa, necessariamente, ser o caso de todos eles, uma vez que muitos têm acesso à Internet, podendo fazer suas próprias escolhas, optar por uma ou outra prestadora de serviço ou, ainda, viajar sem a intermediação desta.
No entanto, como há uma seleção prévia desses locais e / ou atrativos a serem visitados – em função do tempo e de méritos subjetivos –, grande parte da diversidade cultural destes territórios fica excluída dos roteiros dos turistas, ainda que os locais e / ou atrativos visitados passem por referências que afirmam a identidade negra da cidade, seja por meio da cultura ou de trabalhos sociais que também visam à melhoria de oportunidades e à ascensão dessa população na sociedade.
Um outro dado importante obtido nas entrevistas diz respeito à intenção dos turistas de recomendar a visitação aos territórios Pelourinho e Festa da Boa Morte a terceiros, seja
pela história e conexões de ambos com as raízes africanas neles identificadas, seja pela oportunidade de conhecimento e aprendizado com esta parte da diáspora. Estes são os principais motivos alegados pelos visitantes para justificar a possibilidade de retorno às cidades de Salvador e da Cachoeira, além de seu interesse em colaborar com os afro- descendentes destas localidades, o que pressupõe, além do movimento de buscar as origens para o fortalecimento de sua identidade no presente, o interesse em colaborar para que outros semelhantes possam vir a ascender socialmente, a despeito das diferenças históricas e atuais existentes entre esses afrodescendentes.
Vimos, anteriormente, que Finley (2005, p. 32) em sua pesquisa sobre o Turismo de Raízes praticado por afro-americanos em Gana, na África, ressaltava a importância da memória e da fotografia nesse turismo de interesse especial173, o que foi evidenciado também na nossa investigação.
Verificamos que a memória, enquanto “construção social que media as expectativas destes turistas na esperança de responder perguntas sobre suas origens e compreender como eles definem a si próprios” (FINLEY, 2001) –, parece de alguma forma estar contribuindo para guiar as esperanças dos afro-americanos dos EUA para algum tipo de conexão ancestral na Bahia, fazendo com que o passado tenha algum sentido. Por outro lado, o resgate do passado (da herança, das raízes africanas) parece estar colaborando para dar um sentido ao presente destes turistas, de pertencimento a uma comunidade negra, ainda que construída, estabelecendo uma base para o desenvolvimento da auto-estima e para afirmação de uma identidade própria em meio à diversidade e fluidas fronteiras.
No que diz respeito à fotografia, que para Finley (2005, p. 42) teria “uma função comemorativa especial”, um apelo familiar, único, porque “se constitui em provas de um retorno à terra de seus ancestrais”–, na nossa investigação, percebemos que ela é um instrumento de registro importante da experiência vivida pelos afro-americanos no destino Bahia, como uma autenticação da experiência vivida nesses “locais de memória” que poderá ser compartilhada com amigos e familiares, posteriormente, além da sua utilização para fins pessoais e para trabalhos profissionais.
Ressaltamos que, embora a maioria dos afro-americanos afirme ter escolhido o destino Bahia motivada pela busca de suas raízes culturais e, certamente, pode ser mesmo esta a sua principal motivação, não se pode generalizar, uma vez que cada turista tem as suas razões
próprias para a escolha de um ou outro destino e esse mercado, como em qualquer outro em expansão, absorve pessoas com os mais diversos interesses e motivações.
A satisfação com a visita ao destino Bahia, afirmada por eles, ou mesmo o balanço positivo feito entre as suas expectativas e a percepção desse destino, pode significar não só o favorecimento de uma re-conexão com as referências culturais fundamentadas nas raízes africanas que se perderam nos EUA, segundo eles próprios, como também a capacidade dos baianos em manter vivas algumas dessas tradições, ao mesmo tempo em que inovam a partir dessas e de outras matrizes culturais.
Além dos vínculos subjetivos identitários que este tipo de turismo parece ativar nos turistas afro-americanos dos EUA que buscam suas raízes africanas na diáspora, percebemos, também, sua preocupação com o fortalecimento das culturas negras locais, como também com o desenvolvimento de capacidades da comunidade afro-baiana e com a participação desta na renda e nos lucros provenientes da atividade turística.
Por fim, podemos inferir que, de modo geral, há uma convergência entre o que buscam estes turistas afro-americanos e o que eles vivenciam nos territórios investigados. Isso nos leva a crer que, embora sejamos diferentes dos países africanos e de outros países da sua diáspora, de modo geral, o turista afro-americano dos EUA que está buscando uma re- conexão com as suas raízes / heranças africanas, em sua experiência no destino Bahia tem encontrado elementos que lhe permitem identificar aspectos significativos de um passado ancestral comum na cultura e nas pessoas locais.