O ponto de vista é o julgamento subjetivo de um sujeito a respeito de um dado objeto discursivo, conforme Rabatel (2003). A expressão do ponto de vista revela uma fonte enunciativa singular que expressa esse julgamento tanto pelos relatos de percepções, dos discursos e/ou de pensamentos.
Rabatel (2015, p.157), em uma entrevista a uma revista de estudos do discurso2, cita alguns de seus trabalhos (RABATEL 2005b, 2014b, no prelo b) que fundamentam a sua
2 Entremeios: revista de estudos do discurso. V.11, jul. – dez./2015. Disponível em
compreensão de PDV3 que, conforme concebe, seria uma excelente ferramenta para pensar a alteridade, não no sentido da “heterogeneidade enunciativa que concerne a outros além de si, mas uma forma de heterogeneidade complementar que se refere aos outros de mim, aos outros eu-mesmo, uma relação opaca de si para si, de natureza cognitiva e que pode corresponder a dimensões psicológicas ou psicanalíticas e que passa pela linguagem”.
A origem enunciativa de um PDV, para Rabatel (2003), nem sempre está clara nos enunciados. No discurso direto é fácil identificar um outro espaço enunciativo pelas marcas abertas e fechadas, porém no discurso indireto não é possível saber com clareza onde começa ou termina o PDV do locutor citado. As marcas são menos nítidas ainda no discurso indireto livre, no discurso narrativizado ou no PDV representado, bem como em PDV iniciados por expressões como “de acordo com”, “para”, “conforme”, e mais complexas quando o PDV se limita a inclusão de subjetivemas na ausência de marcas abertas e fechadas.
Para o pesquisador há três instâncias enunciativas do ponto de vista: uma que corresponde ao “locutor/enunciador primeiro” (externo ao enunciado), em que há um sincretismo entre locutor e enunciador, pois o PDV é expresso pelo locutor, já que a ele cabe a responsabilidade de organizar o enunciado e expressá-lo; a segunda e a terceira instâncias são internas ao enunciado. A segunda é “o locutor/enunciador segundo”, cujas percepções são expressas pelo locutor/enunciador primeiro. Pode ser o caso de uma personagem, como em um relato de determinado fato, por exemplo. A terceira é “o enunciador não locutor”, pois as percepções são expressas por meio de passagens do texto, isto é, em discurso direto. Considerando essas instâncias enunciativas, Rabatel (2004) apresenta três tipos de ponto de vista: narrado, representado e assertivo.
O ponto de vista narrado é construído a partir de um dos atores do enunciado com o qual o locutor se identifica. O locutor apreende os fatos e os narra na perspectiva da personagem, o que limita a sua subjetividade, uma vez que a debreagem enunciativa é limitada.
No PDV representado, as percepções representadas pelo locutor/enunciador primeiro, em geral um narrador, expressam o ponto de vista de um locutor segundo, principal fonte enunciativa, cujo ponto de vista é expresso claramente no enunciado e se evidencia pela expressão de percepções, de pensamentos. Não há, necessariamente, marcas direcionadas a ele, embora seja possível identificá-lo, o seu dizer é “dito” pelo locutor a partir das percepções
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Rabatel usa PDV (ponto de vista) em maiúsculas, diferente de Adam que usa PdV. Adotaremos no trabalho a forma como cada teórico utiliza quando tratarmos da teoria correspondente ao autor. Para a análise, usamos a expressão em maiúsculas.
depreendidas na posição de narrador do fato a que se reportam as impressões daquele a que cita. Esse fenômeno se aproxima do discurso indireto livre.
Conforme Rabatel (2016, p.123), a apreensão do ponto de vista representado é possível na análise das relações sintáticas e semânticas entre um sujeito perceptivo, que pode ser o focalizador ou o enunciador, um processo perceptivo e um objeto focalizado. A presença desses três elementos, destaca o autor, não são sempre necessárias ou sobretudo garantem a existência de um PDV.
No PDV assertivo (afirmado) – o locutor é a origem da percepção. Nesse tipo de PDV, o enunciado, representado pela fala, pensamento, juízos de valor são explícitas pelo locutor, que se utiliza de marcas claras (dois pontos, aspas, travessão, entre outras), que determinam quando há a expressão da voz do outro, ocorrendo debreagem enunciativa máxima. De acordo com Rabatel, locutor e enunciador coincidem. Ocorre mais comumente em textos argumentativos.
No que se refere ao grau de responsabilidade de um locutor pelo que profere, Rabatel (2009a) propõe uma distinção quanto ao grau de responsabilidade que pode ser atribuída a um locutor/enunciador primeiro (L1/E1) em relação à forma como se coloca no que diz respeito aos conteúdos proposicionais, considerando o critério de verdade do enunciado. Nesse sentido, explica que quando o L1/E1 assume determinado conteúdo por julgá-lo verdadeiro, é possível falar em Responsabilidade Enunciativa (prise em charge – PEC) pelo que foi enunciado, porém, quando o conteúdo é atribuído a um segundo enunciador, trata-se de uma imputação.
Conforme o autor, se levar em consideração que a responsabilização é falar, dizer, no sentido definido por Ducrot (1984), um enunciador que é a fonte de um PDV, mas não é o autor da fala, não pode ser responsabilizado. Isso justifica, segundo Rabatel (2009a, 2016), a hipótese de uma “quase-PEC”, uma quase Responsabilidade Enunciativa. Conforme o autor, o uso de aspas na expressão se justifica por acentuar que essa não é uma RE verdadeira, mas que é necessária para que L1/E1 possa se posicionar em relação a esse PDV.
Rabatel (2016, p.89) traz alguns exemplos que transcreveremos aqui. a) “eu não amo essas questões de responsabilização enunciativa”.
b) “Pierre disse que ele não ama essas questões de responsabilização enunciativa”. c) “Pierre disse que ele não ama essas questões de responsabilização enunciativa”. Sou
de acordo!”
No exemplo a, trata-se de um enunciado monológico, aquele que é a fonte é também o responsável, o validador (eu), por ser ele quem confirma o conteúdo proposicional. Nesse
exemplo, é possível perceber que Pierre, é o responsável pelo enunciado, não só pelo fato de se colocar em primeira pessoa, como também por expressar um posicionamento pessoal. O mesmo já não é possível no exemplo b, uma vez que é um enunciado dialógico em que o segundo locutor, Pierre, valida a proposição, mas não é possível saber o que o primeiro locutor/enunciador pensa a respeito do que relata, ou seja, não há unidades da linguagem que expressem o que pensa, diferentemente do exemplo c, em que o L1/E1 se responsabiliza explicitamente pelo que relata, pois expressa seu acordo a partir de sua concordância.
Rabatel destaca que se a problemática geral da RE se refere unicamente ao primeiro enunciador não quer dizer que não possa se referir, de certa forma, aos segundos enunciadores, uma vez que podem ser apontados como responsáveis pelo critério da imputação. Como no exemplo b, citado, em que o enunciador e2, “ele”, não é locutor, mas apontado como responsável por dizer que não ama a problemática da responsabilidade enunciativa, ou seja, o dito foi atribuído a Pierre, como se ele realmente tivesse feito tal afirmação, mas como Pierre não é locutor, do ponto de vista de falar, dizer, é possível falar em RE por imputação.
Rabatel (2016, p.90) traz outro exemplo: “a guerrilha estaria realmente pronta para liberar os reféns.” (França 2, 10-1-2008), em que L1/E1 imputa um engajamento (ou uma RE pressuposta em relação ao conteúdo proposicional). Para o autor, o fato de L1/E1, responsável pela informação, utilizar-se de um modalizador de certeza, demonstra que ele considera que a guerrilha (e2) estava realmente decidida a libertar os reféns e fez saber disso, mesmo nada tendo sido dito pela guerrilha em tal enunciado. O relato a distancia da informação, o que não aconteceria se ela responsabilizasse a guerrilha ao dizer: “A guerrilha disse/afirmou que ela estava realmente pronta para liberar os reféns” (p.90), de acordo com esse exemplo, a quase- RE seria explícita, o que difere do exemplo anterior.
Assim, explica o autor, essa quase-RE imputada em e2, permite que L1/E1 se posicione em relação ao que relata. Isso, afirma Rabatel, evidencia uma grande diferença entre a RE de L1/E1 no e pelo discurso e entre o fato de atribuir um PDV a uma fonte mesmo quando ela não diz nada.
A discussão proposta pelo autor demonstra o quanto é complexa a análise. Conforme afirma, é mais fácil atribuir um PDV em casos de discurso indireto do que em proposições cujo PDV se orienta por valores subjetivos, como em: “essas questões de responsabilização são o pesadelo de Pierre”, em que o PDV se orienta pela presença de um lexema, “pesadelo”, que permite questionar se o valor subjetivo não é imputável a Pierre. O que, se considerado, do ponto de vista enunciativo e pragmático conforme propõe o autor, significa dar conta da
dimensão argumentativa dos enunciados, visto ser esse enunciado dialógico e se apoiar sobre provas anteriores à fala de Pierre, de um terceiro ou detectável por inferências a partir do comportamento de Pierre.
Os exemplos a seguir, transcritos de (RABATEL, 2016, p. 91), evidenciam casos em que a responsabilidade pode ser questionada pelo enunciador segundo, apesar de o L1/E1 responsabilizá-lo pelo dito.
d) “Estas questões de responsabilização enunciativa são o pesadelo de Pedro, ele me disse/ele reconheceu isso”.
e) “Estas questões de responsabilização enunciativa são o pesadelo de Pedro, me disseram/asseguraram-me”.
f) “Estas questões de responsabilização enunciativa são o pesadelo de Pedro, eu verifiquei frequentemente”.
Essas proposições demonstram pela confirmação de L1/E1 que, possivelmente, o que agora é relatado o fora dito anteriormente. Assim, com base nesse pressuposto, é possível pensar que o L1/E1 reproduza um enunciado dito, proferido por um e2, mas não há como provar. Nesse sentido, é possível entender que a RE com responsabilidade limitada sempre poderá ser questionada, pois o segundo locutor, apontado como responsável pelo enunciado, poderá não assumi-lo, visto que a atribuição lhe foi dada por outro, pelo L1/E1. Nesse aspecto, não existe verdadeiramente uma RE por não ser atualizada por um “eu digo que X”, ela é pressuposta pelo que tenha existido anteriormente.
Rabatel destaca que por mais que a quase RE seja limitada, ela é indispensável para o L1/E1, que só poderá se posicionar, mesmo em acordo ou desacordo, a partir dela, pois seu PDV depende da relação que estabelece com outro. Isso pode ser comprovado pelo exemplo apresentado pelo autor:
g) “Pierre disse que ele não gosta dessas questões de responsabilização enunciativa. - Com certeza, Pierre realmente não gosta disso/De fato, estas questões são um verdadeiro quebra-cabeça”. (2016, p.92)
Nesse caso, houve um posicionamento do L1/E1 a partir do que ele afirma ser o ponto de vista de Pierre.
Como vimos anteriormente, é necessário um PDV imputado a outro para que o L1/E1 possa se colocar, entretanto a relação que será estabelecida com esse PDV poderá ser de reconhecimento, em que o L1/E1 o integra às suas palavras, sem se pronunciar sobre sua verdade. Assim, pela responsabilização pela imputação, L1/E1 poderá esclarecer se afasta-se do PDV de e2, se o relata de forma neutra, se concorda em parte. Nesse sentido, o conceito
de imputação, conforme Rabatel (2009), é fundamental para a distinção entre Responsabilidade Enunciativa e reconhecimento, uma vez que todo reconhecimento implica uma imputação prévia e toda RE pressupõe um reconhecimento, mas a recíproca não é verdadeira. A não responsabilização não é a correspondência da responsabilização, porque esse papel é da imputação. A RE se limita à esfera do locutor/enunciador primeiro, uma vez que é no e pelo seu discurso que o PDV próprio é expresso. A imputação diz respeito a PDV que L1/E1 atribui aos segundos enunciadores.
Rabatel (2016) em sua obra Homo Narrans analisa profundamente diversos aspectos no que se refere à problemática do ponto de vista. Nessa obra, a partir de diversos exemplos, o autor comprova suas teorias, cujo valor a estudiosos da análise do discurso é incalculável.
Ao trabalho que desenvolvemos, a contribuição do pesquisador é inegável. Em concordância com ele, entendemos que o locutor, dada a posição que ocupa no discurso, cabe organizá-lo e retomar pontos de vista que considera necessários à construção de argumentos para atingir seus fins comunicativos, podendo deles se apropriar, se julgar pertinente, ou retomá-los para deles discordar com a finalidade de construir sua argumentação.