As mulheres são as principais interlocutoras deste trabalho, mesmo não sendo esse um pré-requisito para a participação na pesquisa. Isso se deu deste modo porque, embora o grupo familiar fosse abordado em conjunto, a voz feminina prevalecia entre as respostas. Percebemos, assim, uma divisão de responsabilidades por gênero, que atribui à mulher a escolha e gerenciamento das compras de alimentos. Essa responsabilidade exige das
mulheres competências que as tornam, como apontado por MILLER (2002) e GOIDANICH (2012), “especialistas em consumo”.
Contudo, foram levados em consideração os relatos de outros integrantes da família, como o companheiro e filhos. Em alguns casos, essas pessoas eram consultadas pela própria interlocutora, buscando confirmação àquilo que dizia, ou em momentos em que consideravam que outro integrante da família poderia colocar-se de forma “menos leiga” sobre determinada questão. Nem sempre as respostas eram unânimes, ocorrendo opiniões divergentes entre os familiares.
No total, foram entrevistados dez grupos familiares3, sendo que as principais interlocutoras foram nove mulheres e um homem.
Com o intuito de contextualizar algumas situações que serão descritas ao longo do trabalho, faço uma breve apresentação das interlocutoras, esclarecendo que os nomes utilizados são fictícios, com o intuito de preservar suas identidades.
Antônia: 35 anos, casada, tem duas filhas, uma de dez anos e outra de seis. Antônia é natural de Pelotas e é dona de casa. É pós-graduada e aguarda um concurso público para entrar no mercado de trabalho. Seu marido, nascido e criado no meio rural, é professor universitário e raramente acompanha as compras, que são feitas semanalmente. A família mora em casa própria, localizada no bairro Fragata.
Carla: 39 anos, casada, tem dois filhos, um rapaz de 18 anos e um menino de 10. Nasceu em Pelotas, mas morou em várias cidades, devido a transferências associadas ao emprego do marido. Voltou a residir na cidade há cerca de dois anos. A família mora em casa própria, localizada no bairro Três Vendas. Carla é dona de casa. Ministrava aulas de pintura em tela, atividade que abandonou devido a um acidente em que fraturou a perna e o braço.
3 Salientamos que não se buscou constituir amostra representativa, assim as interpretações
propostas neste trabalho são centradas no sujeito e seu comportamento, podendo ou não ser válidas para outros consumidores.
Helena: 49 anos, divorciada, duas filhas, ambas já maiores de idade e independentes (não moram com a mãe). É proprietária de uma pensão de estudantes, que administra junto com o companheiro e onde residem. Natural de São Lourenço do Sul, reside na cidade de Pelotas há muitos anos. Helena sempre foi responsável pelas refeições da família, atividade exercida com orgulho. É comum preparar comidas congeladas para as filhas levarem para suas casas. As compras em supermercado são rápidas e sem hora marcada, situação que impediu o acompanhamento. Helena compra alguns produtos diretamente de produtores e possui posicionamento crítico em relação às indústrias alimentícias, além de manifestar, em diversos momentos, preocupação com os direitos dos animais.
Isabel: 54 anos, casada, um filho (rapaz de 20 anos, estudante de graduação em educação física). Isabel é professora da rede estadual de ensino, possui duas graduações e pós-graduação. Nascida em Canguçu, veio para o município vizinho, Pelotas, para estudar e aqui constituiu família. O marido é técnico agrícola e as despesas domésticas são compartilhadas. Ele costuma acompanhar as compras feitas no início do mês, emitindo opinião sobre a escolha dos produtos, sobretudo sobre os preços. Isabel é responsável pelas refeições, mas o marido e o filho cozinham, quando necessário. A família possui uma propriedade rural próxima, onde criam gado, cultivam um pequeno pomar e têm caixas de abelha, para produção de mel (única atividade com fins econômicos). Seguidamente eles adquirem de vizinhos produtos coloniais, como ovos, geleias e frutas.
Joana: 42 anos, casada, uma filha de 22 anos. É bolsista de pós- doutorado. As compras são feitas semanalmente, geralmente o marido a acompanha, mas opina apenas na escolha das carnes e bebidas. Joana cozinha apenas nos finais de semana, pois a empregada doméstica é responsável pela tarefa nos demais dias. A família mora em casa própria, em um condomínio no bairro Três Vendas.
João: 62 anos, casado, dois filhos (independentes). Nascido em Pinheiro Machado, mudou-se para Pelotas para estudar e estabeleceu-se na
cidade. Funcionário público, João exerce também atividades assistenciais em um centro espírita. Sua esposa é dona de casa e não pôde participar da entrevista por estar cuidando de parente hospitalizado. João é responsável pelas despesas da casa, realizando as compras de supermercado junto com a esposa, exercendo opiniões sobre os produtos, exceto materiais de limpeza, como fez questão de ressaltar. Declarou estar atento às informações presentes nas embalagens, principalmente por preocupações relacionadas à saúde. O casal mora em apartamento próprio, localizado na zona central da cidade.
Maria: 51 anos, casada, dois filhos (um adolescente de 17 anos e uma filha já independente, de 26 anos). Maria possui curso superior e pós- graduação e é professora da rede pública de ensino. O marido é proprietário de uma empresa de distribuição de gás e água mineral. As compras são realizadas pelo casal, mas Maria é quem costuma escolher os produtos. É comum também que eles adquiram alguns produtos (queijos, vinhos, azeites) em lojas livres de impostos da cidade de Rio Branco (Uruguai), localizada a aproximadamente 145 km de Pelotas. Maria é responsável pelo preparo das refeições e raramente o filho e o marido cozinham. As despesas da casa são divididas pelo casal. A família mora em casa própria e possui propriedade rural, cuidada por caseiros.
Regina: 48 anos, divorciada, duas filhas (uma de 27 anos, independente, e outra de 25 anos, estudante universitária). Nascida e criada em Pelotas, Regina trabalha como cozinheira em um restaurante. É responsável pelas despesas domésticas e preparação das refeições da casa. A família mora em apartamento próprio e as compras em supermercado são realizadas mensalmente.
Rosa: 48 anos, divorciada, três filhos (dois rapazes, um de 28 e outro de 18 anos, e uma menina de 23 anos). Nascida e criada em Pelotas, Rosa é massagista e manicure. Ela é responsável pela preparação das refeições, mas a filha cozinha eventualmente. A família mora em uma casa alugada, no centro da cidade, e as compras de supermercado são realizadas semanalmente.
Olga: 34 anos, casada, um filho (de oito anos). Nasceu e se criou em Rio Grande, tendo se mudado para Pelotas para acompanhar o marido, engenheiro civil. Rosa é cabeleireira e é proprietária de um pequeno salão de beleza. Ela é responsável pelas refeições da casa, mas costuma contar com a ajuda da sogra, que mora perto e eventualmente prepara o almoço. A família mora em casa própria, localizada no bairro Simões Lopes.
Além da contribuição dessas interlocutoras, também compõe como fonte de análise uma entrevista que se realizou para o desenvolvimento do quarto capítulo e algumas inserções em campo que foram feitas com a equipe do GEPAC, a serem comentadas ao longo do trabalho.
2 ALIMENTAÇÃO, CONSUMO E CULTURA
Como visto na introdução deste trabalho, a partir da perspectiva antropológica podemos entender a cultura como sistema simbólico, associado a modos de viver. Nessa perspectiva, os significados são compartilhados, ou seja, são compreensíveis àqueles que participam de determinada sociedade. O presente capítulo pretende apontar algumas abordagens que propõem a reflexão sobre as injunções entre cultura, alimentação e consumo.